A história da Igreja Católica é repleta de figuras cujas vidas foram registadas por escribas e contemporâneos. No entanto, o caso de Santa Filomena é único: a sua existência permaneceu num silêncio absoluto durante quase um milénio e meio, até que uma picareta de arqueólogo, no dia 24 de maio de 1802, rompeu a escuridão das Catacumbas de Santa Priscila, na Via Salária, em Roma.
O Momento da Descoberta
Naquela manhã de primavera, uma equipa de escavação liderada pelo guardião das catacumbas, Filippo Maggi, trabalhava na identificação de novos lóculos (túmulos). Ao removerem o entulho de uma galeria profunda, depararam-se com uma sepultura selada por três placas de terracota. A descoberta não foi apenas física, mas simbólica, pois os sinais ali gravados indicavam imediatamente que se tratava de alguém especial para a comunidade cristã primitiva.
A Enigmática Inscrição e os Símbolos
As três placas de terracota apresentavam uma inscrição em latim pintada a vermelho. Curiosamente, a ordem das placas parecia trocada: LUMENA — PAXTE — CUM FI. Ao reorganizarem as peças, os arqueólogos leram a frase que se tornaria célebre: “Pax tecum Filumena” (A paz esteja contigo, Filomena).
O nome “Filumena” deriva do grego Philomene, que significa “Filha da Luz” ou “Amada”. Além do nome, as placas continham gravuras rudimentares mas claras de instrumentos de martírio:
- Uma Âncora: Símbolo de esperança, mas também de uma tentativa de afogamento.
- Duas Setas: Indicando a forma como foi atacada.
- Uma Palma: O emblema universal da vitória do mártir sobre a morte.
- Um Lírio: Testemunho da sua pureza e virgindade.
As Evidências do Martírio
Ao abrirem o túmulo no dia seguinte, 25 de maio, na presença de testemunhas oficiais e do Monsenhor Giacinto Ponzetti, os investigadores encontraram os restos mortais de uma jovem, com idade estimada entre os 12 e os 13 anos.
O detalhe mais impactante foi a presença de uma ampola de vidro incrustada no cimento que selava o túmulo. No seu interior, havia vestígios de sangue seco que, segundo os relatos da época, brilhou com reflexos metálicos de ouro e prata quando a luz o atingiu — um fenómeno interpretado como um sinal divino da santidade daquela jovem.
O Destino das Relíquias: De Roma a Mugnano
Logo após a exumação, os restos mortais foram levados para o Tesouro das Relíquias em Roma, onde permaneceram guardados durante três anos. O destino da santa mudou em 1805, quando o Padre Francesco de Lucia, de Mugnano del Cardinale, visitou Roma com o desejo de obter as relíquias de uma “virgem mártir com nome conhecido” para a sua paróquia.
Embora o pedido fosse audacioso, a providência facilitou o processo. Ao ver os restos mortais de Filomena, o Padre Francesco sentiu uma alegria inexplicável e, com o apoio do Bispo de Potenza, conseguiu a autorização do Papa para levar o corpo.
A Viagem Milagrosa
A transladação para Mugnano del Cardinale foi marcada por fenómenos extraordinários:
- Curas no caminho: Durante o trajeto, relatos de curas instantâneas começaram a surgir nas aldeias por onde passava o relicário.
- A chegada triunfal: No dia 10 de agosto de 1805, as relíquias chegaram finalmente a Mugnano. Esta data tornou-se tão significativa que passou a ser o seu principal dia de festa litúrgica.
- O Relicário de Cera: Para que os fiéis pudessem venerá-la, os ossos foram colocados dentro de uma figura de cera que representa a jovem princesa adormecida, vestida com trajes reais doados por nobres devotos. É esta imagem que ainda hoje se encontra no Santuário de Mugnano.
Conclusão
A trajetória de Santa Filomena é um testemunho de que a santidade não conhece o esquecimento do tempo. O que começou como uma escavação rotineira nas catacumbas romanas evoluiu para um movimento de fé que atravessou oceanos, chegando com força a países como Portugal e Brasil.
A autorização do seu culto, baseada na força dos factos — os inúmeros milagres e a cura de figuras proeminentes — provou que, para a Igreja, a voz do povo e os prodígios divinos podem ser tão eloquentes como os registos históricos. Santa Filomena permanece, assim, como a “Luz” que, após milénios de silêncio, emergiu para provar que a esperança cristã é eterna e que nenhuma causa é verdadeiramente impossível perante a intercessão divina.
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