Neste dia, em 2017, o Presidente dos EUA Donald Trump iniciava uma vista estatal ao Vaticano

Na manhã de 24 de maio de 2017, a Cidade do Vaticano tornou-se o palco de um dos encontros diplomáticos mais aguardados e simbolicamente carregados do ano. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na sua primeira viagem internacional como chefe de Estado, encontrou-se com o Papa Francisco. A reunião, que durou cerca de 30 minutos a portas fechadas na biblioteca privada do Palácio Apostólico, foi um momento crucial nas relações bilaterais entre a Santa Sé e os EUA, marcado por um pano de fundo de divergências públicas significativas entre os dois líderes.

A visita, parte de uma digressão de nove dias de Trump que incluiu paragens na Arábia Saudita e em Israel, gerou intensa especulação sobre a química pessoal e os tópicos de discussão entre um Papa jesuíta conhecido pela sua humildade e defesa dos migrantes, e um Presidente bilionário com políticas de imigração restritivas e ceticismo em relação às mudanças climáticas.

O Contexto das Tensões Prévias

O encontro de 2017 não foi o primeiro “contacto” entre os dois homens. Meses antes da visita, as tensões já eram palpáveis. Em fevereiro de 2016, durante a campanha eleitoral de Trump, o Papa Francisco, ao regressar de uma visita ao México, criticou a retórica do então candidato republicano sobre a construção de um muro na fronteira com o México. O Papa afirmou: “Uma pessoa que pensa apenas em construir muros, onde quer que seja, e não em construir pontes, não é cristã“. Trump respondeu prontamente, chamando os comentários do pontífice de “vergonhosos” e questionando a sua fé.

Estes confrontos públicos prepararam o terreno para um encontro que muitos esperavam ser tenso. O Vaticano, no entanto, minimizou as expectativas de conflito, com o Papa Francisco a dizer aos repórteres que não julgaria Trump sem o ouvir primeiro, e que procuraria “pontos em comum” (em inglês, common ground).

O Protocolo e a Atmosfera

A visita começou com uma notável sobriedade. O cortejo de Trump, composto por 62 veículos, chegou ao Vaticano pouco antes das 08h30. O Presidente, acompanhado pela Primeira Dama Melania Trump e por membros da sua delegação, foi recebido pelo Arcebispo Georg Ganswein, chefe da casa papal.

As primeiras imagens do encontro tornaram-se virais: um Papa Francisco com uma expressão séria e algo sombria (descrita por alguns como “carrancuda”), contrastando com um Presidente Trump que parecia visivelmente mais relaxado. A formalidade do momento e as expectativas de tensão contribuíram para esta perceção inicial. Melania e Ivanka Trump, vestidas de preto e com véus, como exige o protocolo diplomático do Vaticano, esperaram no exterior da biblioteca durante a reunião privada.

No entanto, fontes do Vaticano e a comitiva de Trump relataram que a atmosfera na sala se tornou mais cordial e descontraída à medida que a conversa avançava.

Os Tópicos de Discussão

O encontro privado de 30 minutos, que se prolongou mais do que o inicialmente previsto, abrangeu uma série de tópicos globais e bilaterais. O Secretário de Estado dos EUA na época, Rex Tillerson, indicou mais tarde que os líderes tiveram uma conversa “bastante extensa” sobre ameaças terroristas e a radicalização de jovens, o que, segundo ele, contribuiu para que a reunião durasse mais tempo.

O comunicado oficial do Vaticano descreveu as discussões como “cordiais”, destacando a “satisfação” pelas boas relações bilaterais e o “compromisso conjunto a favor da vida, da liberdade de culto e de consciência”. A Santa Sé também expressou a esperança de uma “serena colaboração entre o Estado e a Igreja Católica nos Estados Unidos”, em áreas como a saúde, educação e “assistência aos imigrantes”.

Estes pontos revelaram áreas de convergência (como a oposição ao aborto e a defesa da liberdade religiosa) e áreas de fricção (a assistência aos imigrantes, uma política papal central que a administração Trump frequentemente colidia).

A Troca de Presentes: Recados Diplomáticos

A troca de presentes é sempre um momento simbólico nestes encontros, e este não foi exceção. O Papa Francisco ofereceu a Trump uma medalha de bronze com um ramo de oliveira, símbolo da paz, dizendo: “É um símbolo da paz. Espero que possa ser um ramo de oliveira para fazer a paz“. Trump respondeu: “Precisamos de paz“.

Mais incisivo foi o conjunto de documentos papais que Francisco ofereceu a Trump: uma cópia da sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2017 e as três principais exortações apostólicas e encíclicas do seu pontificado: Evangelii Gaudium (sobre a alegria do Evangelho), Amoris Laetitia (sobre a família) e, notavelmente, a Laudato Si’ (sobre a ecologia e as mudanças climáticas).

A oferta da Laudato Si’ foi vista como um claro, embora diplomático, recado ao Presidente americano, que na altura estava a ponderar retirar os EUA do Acordo de Paris sobre o clima (o que viria a fazer pouco tempo depois).

Em troca, Trump ofereceu ao Papa uma caixa com cinco edições de livros de Martin Luther King Jr., incluindo uma cópia autografada, e uma escultura de bronze chamada “Rising Above” (Ascendendo Acima). A escolha dos livros de MLK Jr. foi considerada interessante, dado o líder dos direitos civis ser uma figura de grande importância moral e um defensor da justiça social.

Conclusão: Um “Encontro Fantástico” com um Legado Complexo

Após a reunião, Donald Trump descreveu o encontro como “fantástico” e uma “honra de uma vida”. No Twitter, partilhou que saíra do Vaticano “mais determinado do que nunca a procurar a PAZ no nosso mundo”.

Apesar do tom positivo público no final da visita, o encontro não apagou as profundas diferenças ideológicas e políticas entre os dois líderes. As suas visões de mundo continuaram a colidir em questões cruciais como a imigração e o ambiente nos anos seguintes.

No entanto, a visita de 2017 demonstrou a importância da diplomacia da Santa Sé, que procurou manter um canal de diálogo aberto com a superpotência americana, encontrando pontos de convergência e apresentando a sua perspetiva moral sobre a paz e a dignidade humana. O encontro foi um exercício de diplomacia pragmática e um lembrete de que, mesmo entre figuras com visões diametralmente opostas, o diálogo é possível.

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