O Papa Francisco realizou uma histórica e intensa peregrinação à Terra Santa entre 24 e 26 de maio de 2014. A viagem, a sua segunda visita apostólica internacional, teve um duplo objetivo: celebrar o 50.º aniversário do encontro histórico entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Ecuménico Atenágoras em Jerusalém em 1964, e promover a paz e o diálogo inter-religioso numa das regiões mais conflituosas do mundo. Com uma duração de apenas 72 horas, a visita foi condensada, mas rica em simbolismo e gestos memoráveis que ressoaram globalmente.
Objetivos e Preparativos
A visita foi anunciada a 5 de janeiro de 2014, e o seu planeamento foi meticuloso, visando um equilíbrio diplomático delicado, que incluiu a Jordânia, a Palestina e Israel. O Vaticano sublinhou que a viagem era uma “peregrinação de oração” focada na unidade dos cristãos e na busca por soluções pacíficas. O Papa Francisco, conhecido pela sua simplicidade e gestos diretos, procurou evitar a pompa e a solenidade excessivas, focando-se no essencial: o encontro humano e a oração partilhada.
O Roteiro da Paz e os Momentos Marcantes
A viagem de 72 horas foi marcada por gestos simbólicos e apelos à conciliação.
- Jordânia (24 de maio): A viagem começou em Amã, onde o Papa se encontrou com o Rei Abdullah II e a Rainha Rania. O Papa elogiou os esforços da Jordânia para acolher um vasto número de refugiados palestinianos, iraquianos e sírios. Na Missa realizada no Estádio Internacional, pediu paz para toda a região. Visitou ainda o local do batismo de Jesus no rio Jordão, realçando o aspeto ecuménico da sua missão.
- Palestina (25 de maio): Em Belém, o Papa celebrou uma missa na Praça da Manjedoura, perto da Basílica da Natividade. Num gesto diplomático significativo, referiu-se explicitamente ao “Estado da Palestina”, pedindo o reconhecimento dos direitos de ambos os povos. O momento mais icónico do dia, e talvez de toda a viagem, foi uma paragem não programada do papamóvel junto ao muro de separação. Francisco desceu, tocou o muro e rezou em silêncio, num ato que foi visto como uma poderosa condenação da barreira física e simbólica que divide as comunidades.
- Israel (26 de maio): A visita a Israel incluiu encontros com líderes religiosos e políticos. O Papa visitou o Memorial do Holocausto Yad Vashem, onde fez um apelo comovente contra o esquecimento e a indiferença. No Muro das Lamentações, rezou em silêncio, tocou as pedras antigas e deixou uma oração escrita entre as fendas: o Pai-Nosso em espanhol. Ali, protagonizou um momento de grande simbolismo fraterno, abraçando calorosamente o seu amigo rabino Abraham Skorka e o líder islâmico Omar Abboud, ambos de Buenos Aires, num testemunho pessoal de amizade inter-religiosa.
- Encontro Ecuménico: O ponto central da viagem foi a comemoração do 50.º aniversário do encontro entre Paulo VI e Atenágoras. Francisco encontrou-se com o Patriarca Ecuménico Bartolomeu I na Basílica do Santo Sepulcro. Assinaram uma declaração conjunta reiterando o compromisso com a unidade das Igrejas cristãs, num passo importante para a reaproximação entre Roma e Constantinopla.
O Momento no Muro das Lamentações
No dia 26 de maio de 2014, o Papa Francisco dirigiu-se ao Muro das Lamentações, o local mais sagrado da oração judaica. Aproximou-se em silêncio, colocou a mão sobre as antigas pedras e permaneceu longamente em contemplação. A intensidade espiritual daquele instante foi evidente, recordando o gesto realizado por São João Paulo II em 26 de março de 2000 e por Bento XVI em 12 de maio de 2009.
Tal como manda a tradição, Francisco colocou um bilhete nas fendas do muro, contendo a oração do Pai-Nosso em espanhol: “Padre nuestro que estás en los cielos…”. Este gesto, humilde e profundamente significativo, apresentou a fé cristã num diálogo de respeito com a tradição judaica, reconhecendo a ligação comum às raízes bíblicas. A presença do Papa naquele local, ladeado por representantes religiosos judeus, tornou-se um dos grandes símbolos do seu pontificado orientado para a proximidade e a reconciliação.
Apelo à Paz e Legado Duradouro
No final da Missa em Belém, o Papa Francisco surpreendeu o mundo ao convidar o Presidente israelita Shimon Peres e o Presidente da Autoridade Palestiniana Mahmoud Abbas a encontrarem-se no Vaticano para uma oração de paz. Este “encontro de invocação pela paz no Médio Oriente” realizou-se a 8 de junho de 2014, um gesto de grande ousadia diplomática.
Impacto da Viagem na Vida da Igreja e da Região
A visita de Francisco à Terra Santa teve repercussões importantes. O encontro ecuménico com Bartolomeu I reafirmou o compromisso da Igreja Católica com a unidade dos cristãos. A oração junto ao muro de separação na Palestina tornou-se símbolo de solidariedade com os povos que sofrem devido ao conflito. A presença do Papa no Muro das Lamentações renovou laços entre a Igreja e a comunidade judaica.
Poucas semanas depois, Francisco convidou os líderes de Israel e da Palestina para uma Oração pela Paz nos Jardins do Vaticano, num gesto concreto nascido directamente desta viagem.
Conclusão
A peregrinação do Papa Francisco à Terra Santa, em maio de 2014, permanece como uma das viagens mais marcantes do seu pontificado. Entre todos os momentos vividos, a oração diante do Muro das Lamentações destacou-se como o gesto mais poderoso: silencioso, humilde, profundamente religioso e incontornavelmente político.
Francisco apresentou ao mundo uma imagem de diálogo autêntico, capaz de abranger diferenças históricas e religiosas, sempre com o olhar voltado para a paz. A sua passagem por Jerusalém não foi apenas uma visita; foi um testemunho vivo da vocação da Igreja para ser ponte, mediadora e servidora da reconciliação entre os povos.
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