Em 12 de setembro de 1965, a Igreja Católica vivia um momento de profunda transformação. O Concílio Vaticano II aproximava-se da sua quarta e última sessão, e o mundo aguardava os novos rumos da instituição. Foi neste cenário que o Papa Paulo VI realizou um gesto de forte carga simbólica: desceu às profundezas da Via Appia para visitar as Catacumbas de Domitila e de São Calisto.
Esta não foi uma mera visita turística ou arqueológica. Para o pontífice, tratava-se de uma peregrinação mística e programática. Ao caminhar pelos túmulos dos primeiros mártires, Paulo VI procurava “beber nas fontes” do cristianismo primitivo, estabelecendo uma ponte direta entre a Igreja do século XX e a comunidade cristã dos primeiros séculos.
A Igreja “Despojada e Pobre”
O ponto alto da visita ocorreu na basílica subterrânea dedicada aos santos Nereu e Aquileu. Num ambiente de silêncio e austeridade, cercado por séculos de história, o Papa proferiu um discurso que ressoa até hoje. Ele descreveu a Igreja das catacumbas como uma instituição “despojada de todo o poder humano, pobre, humilde, piedosa e heroica”.
Para Paulo VI, o exemplo daqueles cristãos perseguidos servia como um espelho e um alerta para a Igreja moderna. Ele defendia que, para enfrentar os desafios da modernidade, a Igreja não deveria apoiar-se em privilégios ou autoridade temporal, mas sim na sua identidade espiritual e no serviço aos mais necessitados. Este discurso foi interpretado como um endosso direto às reformas conciliares que buscavam uma Igreja mais simples e próxima do Evangelho.
O Prelúdio do “Pacto das Catacumbas”
Embora a visita oficial do Papa tenha ocorrido em setembro, o seu impacto sentiu-se com força dois meses depois. Inspirados pelo gesto de Paulo VI, cerca de 40 bispos — liderados por figuras como D. Hélder Câmara — reuniram-se nas mesmas Catacumbas de Domitila em 16 de novembro de 1965. Ali, assinaram o famoso Pacto das Catacumbas.
Neste documento, os signatários comprometeram-se a viver em pobreza, a renunciar a símbolos de riqueza e a colocar os pobres no centro do seu ministério pastoral. A visita de Paulo VI foi o catalisador que permitiu que este movimento ganhasse legitimidade dentro da estrutura do Vaticano, influenciando decisivamente a Teologia da Libertação e a renovação da Igreja na América Latina.
Legado aos 60 Anos
Seis décadas depois, a peregrinação de Paulo VI continua a ser um marco. Ela recorda que a renovação da Igreja não se faz apenas olhando para o futuro, mas também recuperando a essência do passado. Em 2025, no 60.º aniversário deste evento, a Igreja volta a olhar para as catacumbas não como cemitérios de uma era finda, mas como um testemunho vivo de resiliência e fé radical.
Em suma, a descida de Paulo VI ao subsolo de Roma foi, na verdade, uma ascensão espiritual. Foi o momento em que o papado moderno se inclinou diante das suas raízes mais humildes para encontrar a força necessária para liderar uma Igreja em constante mudança.
