Neste dia, em 1964, o Papa Paulo VI promulgava a constituição dogmática Lumen Gentium

A 21 de novembro de 1964, no decorrer do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI promulgou a Constituição Dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium (Luz dos Povos). Este documento, sem precedentes na história conciliar pela sua profundidade e abrangência, não se limitou a reformular aspetos disciplinares, mas sim a redefinir a própria autoconsciência da Igreja Católica. Numa era de rápidas transformações sociais, culturais e tecnológicas, a Lumen Gentium ofereceu uma nova eclesiologia (doutrina sobre a Igreja), que permanece a base da identidade católica contemporânea.

O Gesto Profético do Vaticano II

O Concílio Vaticano II (1962-1965), convocado pelo Papa João XXIII, visava um aggiornamento (atualização) da Igreja para que esta pudesse dialogar mais eficazmente com o mundo moderno. A questão central que pairava no ar era: “Igreja, que dizes de ti mesma?”. A resposta dogmática foi a Lumen Gentium.

Antes do Concílio, a eclesiologia tendia a focar-se predominantemente na Igreja como uma “sociedade perfeita”, hierárquica e estruturada, muitas vezes vista de forma piramidal. A Lumen Gentium não negou a estrutura hierárquica, mas subverteu a perspetiva ao colocar o mistério da Igreja e o conceito de “Povo de Deus” no centro da sua identidade. O documento pretendia, acima de tudo, fazer resplandecer a luz que é Cristo através do testemunho da comunidade eclesial.

O que ensina a Lumen Gentium?

Este documento oferece uma compreensão profunda e renovada da natureza e da missão da Igreja Católica no mundo moderno. Os seus principais temas e ensinamentos incluem: 

  • A Igreja como Mistério e Sacramento: Descreve a Igreja não apenas como uma instituição visível, mas como um mistério da união de Deus com a humanidade e um sinal e instrumento da graça e da salvação de Deus para todos os povos.
  • A Igreja como Povo de Deus: Este é um conceito central e inovador do documento. Enfatiza que todos os batizados — leigos, religiosos e clero — formam o único Povo de Deus, partilhando do sacerdócio comum de Cristo através do Batismo.
  • A Vocação Universal à Santidade: Declara que a santidade não é um chamado exclusivo para sacerdotes ou religiosos, mas sim uma vocação universal dirigida a todos os membros da Igreja, em qualquer estado de vida que se encontrem.
  • A Estrutura Hierárquica e a Colegialidade Episcopal: Aborda o papel dos bispos, presbíteros e diáconos na estrutura da Igreja, introduzindo o conceito de “colegialidade episcopal”, que sublinha que os bispos, em união com o Papa (o Colégio Episcopal), partilham a responsabilidade pelo governo da Igreja universal.
  • O Papel dos Leigos: Dedica um capítulo inteiro (Capítulo IV) à dignidade e missão dos fiéis leigos na Igreja e no mundo, chamando-os a santificar as realidades temporais.
  • O Caráter Missionário da Igreja: Realça que a Igreja é, por natureza, missionária, enviada a anunciar o Evangelho a toda a criatura.
  • A Virgem Maria: O capítulo final do documento é dedicado à Virgem Maria, vista como Mãe de Deus e da Igreja, e como modelo de fé e caridade para todos os fiéis. 

A Igreja como Mistério e Sacramento Universal de Salvação

O primeiro capítulo da Lumen Gentium é fundamental ao definir a Igreja como um “sacramento, ou sinal e instrumento, da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano” (LG 1). Esta linguagem sacramental eleva a compreensão da Igreja de uma mera organização terrena para um mistério (do grego mysterion, um plano salvífico de Deus) que torna visível a graça de Cristo no mundo.

A Igreja não é a luz em si mesma; Cristo é a luz dos povos (Lumen gentium cum sit Christus). A missão da Igreja é, portanto, refletir essa luz, ser um farol que guia a humanidade para a plena unidade em Cristo. Esta abordagem mística e teológica estabelece a base para todos os capítulos subsequentes, enraizando a ação da Igreja na vida trinitária.

O Conceito Revolucionário de “Povo de Deus”

O Capítulo II da Lumen Gentium introduziu a expressão “Povo de Deus“, que se tornou uma das aquisições conciliares mais emblemáticas. Ao abordar a Igreja a partir desta perspetiva, o Concílio enfatizou a dignidade fundamental e a igualdade de todos os batizados.

A imagem do Povo de Deus tem raízes bíblicas profundas, fazendo a ponte entre o povo eleito do Antigo Testamento e a nova aliança em Cristo. Este conceito contrasta com uma visão puramente institucional da Igreja, destacando a comunhão de todos os fiéis no sacerdócio comum (diferente do sacerdócio ministerial ordenado), no múnus profético e no múnus régio de Cristo. A ênfase na igualdade não anula a diversidade de funções e carismas dentro da Igreja, mas coloca a comunhão e a dignidade batismal como ponto de partida para a eclesiologia.

A Vocação Universal à Santidade

Conectado intrinsecamente ao conceito de Povo de Deus, o Capítulo V aborda a “Vocação Universal à Santidade”. Este foi um dos ensinamentos mais libertadores e práticos do documento. Historicamente, a perceção da santidade estava muitas vezes confinada aos muros dos mosteiros ou à vida do clero e dos religiosos. A Lumen Gentium desafiou essa ideia, afirmando categoricamente que todos os cristãos, independentemente do seu estado de vida – casados, solteiros, trabalhadores, doentes, padres ou leigos – são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade.

A santidade torna-se uma meta acessível e obrigatória para todos, a ser vivida no meio das realidades quotidianas do mundo. Esta perspetiva revitalizou a espiritualidade leiga e deu um novo sentido à vida cristã comum, encorajando os fiéis a procurar Deus nas suas profissões, famílias e compromissos sociais.

O Papel dos Leigos e a Estrutura Hierárquica

Os Capítulos IV e VI tratam, respetivamente, dos leigos e da vida religiosa, enquanto o Capítulo III aborda a constituição hierárquica da Igreja.

O documento reconhece que os leigos têm uma missão e apostolado próprios, que participam ativamente na missão da Igreja de anunciar o Evangelho e santificar o mundo. Longe de serem meros colaboradores da hierarquia, os leigos são, pelo Batismo, membros plenos do corpo de Cristo com a sua própria responsabilidade e iniciativa.

Ao discutir a hierarquia, a Lumen Gentium introduziu a noção de colegialidade episcopal. Embora reafirmando o primado e a autoridade do Papa, o documento sublinha que os bispos, sucessores dos Apóstolos, formam um colégio que, em união com o Papa, partilha a responsabilidade pelo governo da Igreja universal. Este princípio fomentou uma maior comunhão e corresponsabilidade entre os bispos e a Sé de Roma, com implicações práticas na criação de sínodos e conferências episcopais.

A Conclusão Mariana e a Missão Universal

O documento culmina no Capítulo VIII com uma reflexão sobre a Virgem Maria. Longe de ser um anexo, como alguns sugeriram durante o Concílio, a mariologia foi integrada na eclesiologia. Maria é apresentada como a Mãe de Deus e modelo da Igreja – o tipo (typos) eclesial, a imagem perfeita do que a Igreja é chamada a ser na sua fé, caridade e união com Cristo.

Conclusão

Lumen Gentium reorientou a Igreja para uma postura de diálogo e serviço ao mundo (temas que seriam aprofundados na Gaudium et Spes). A sua visão de uma Igreja mais inclusiva, participativa e consciente do seu caráter missionário continua a ser a “luz que nunca se apaga” na orientação da Igreja Católica no terceiro milénio.

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