Embora a Solenidade da Epifania do Senhor tenha sido celebrada liturgicamente no passado domingo, a Igreja continua a prolongar, neste dia 6 de Janeiro, Dia de Reis, a contemplação deste grande mistério. Esta solenidade conduz-nos a uma das cenas mais belas e simbólicas do Evangelho: a visita dos Reis Magos ao Menino Jesus. Estes homens vindos do Oriente, guiados por uma estrela, representam muito mais do que uma piedosa tradição natalícia. A sua presença junto do presépio revela o alcance universal da salvação e ocupa um lugar central na fé e na história da Igreja.
O testemunho do Evangelho
O único Evangelho que menciona os Reis Magos é o de São Mateus. O texto diz apenas que “magos do Oriente” chegaram a Jerusalém à procura do “rei dos judeus que acaba de nascer” (cf. Mt 2, 1-12). O Evangelho não indica quantos eram, nem os chama reis, nem menciona os seus nomes. O essencial, para São Mateus, não está nos detalhes biográficos, mas no significado do gesto: homens estrangeiros reconhecem em Jesus o Messias.
A palavra “mago” designava, na antiguidade, sábios ou estudiosos dos astros, frequentemente associados à Pérsia ou à Babilónia. Eram homens que procuravam a verdade, e essa procura levou-os até Cristo.
De magos a reis
A identificação dos magos como “reis” surge mais tarde, à luz da leitura cristã do Antigo Testamento. Textos como o Salmo 72 — “os reis de Társis e das ilhas trarão presentes” — e o profeta Isaías — “os reis caminharão à tua luz” (Is 60) — passaram a ser interpretados como profecias cumpridas na visita dos magos.
Assim, a Igreja foi vendo neles não apenas sábios, mas reis que se inclinam diante do verdadeiro Rei, reconhecendo a sua autoridade não política, mas divina.
Porque são três?
O número três não é indicado no Evangelho, mas consolidou-se muito cedo na tradição cristã devido aos três presentes oferecidos a Jesus: ouro, incenso e mirra. Estes dons têm um profundo significado teológico: o ouro reconhece a realeza de Cristo, o incenso a sua divindade e a mirra antecipa a sua morte redentora.
A partir do século III, a iconografia cristã já representa habitualmente três magos, número que se tornou universal na tradição ocidental.
Os nomes dos Reis Magos
Os nomes Gaspar, Melchior (ou Belchior) e Baltasar não aparecem na Bíblia. Surgiram pela primeira vez em textos apócrifos e crónicas históricas como o Excerpta et Collectanea, atribuído a São Beda, o Venerável (século VIII).
- Melchior: Significa “Meu Rei é Luz”. É tradicionalmente representado como um ancião de barbas brancas, simbolizando a Europa e a velhice.
- Gaspar: Significa “Aquele que vai inspecionar” ou “Tesoureiro”. Representado como um jovem imberbe, simboliza a Ásia e a juventude.
- Baltasar: Significa “Deus manifesta o Rei”. É representado como um homem negro, simbolizando a África e a maturidade.
Esta tripartição servia para representar a totalidade da humanidade conhecida (os três continentes e as três idades do homem) prostrada diante de Cristo.
Cada nome passou a simbolizar também os diferentes povos da humanidade. Com o tempo, os Reis Magos foram representados como pertencentes a diferentes idades e continentes, sublinhando que Cristo veio para todos, sem distinção de raça ou cultura.
A visão da Igreja ao longo da história
Desde os primeiros séculos, a Igreja viu nos Reis Magos um sinal claro da universalidade da salvação. Enquanto os pastores representam Israel simples e fiel, os magos representam os povos pagãos que, guiados pela razão e pela criação, chegam até Cristo.
Os Padres da Igreja, como Santo Agostinho e São Leão Magno, sublinharam que os magos foram os primeiros não-judeus a reconhecer Jesus como Senhor. A sua adoração é, por isso, uma antecipação da missão evangelizadora da Igreja.
Ao longo da história, a Igreja viu nos Magos o modelo do cientista e do buscador da verdade que, através da razão e da observação da natureza (a estrela), chega à fé. As suas relíquias, segundo a tradição, repousam na Catedral de Colónia, na Alemanha, que se tornou um dos maiores centros de peregrinação da Europa.
A Epifania: Deus que Se manifesta
A festa da Epifania não celebra apenas a chegada dos Reis Magos, mas a manifestação de Cristo ao mundo. Deus revela-Se não apenas a um povo, mas a toda a humanidade. Este momento recorda-nos que o caminho para a cruz começa com uma manifestação de glória, ainda que escondida na humildade de um Menino.
Os Reis Magos ensinam-nos a procurar, a caminhar, a adorar e a regressar por um caminho novo. Depois de encontrarem Cristo, “voltaram para a sua terra por outro caminho” (Mt 2, 12). Esta é a verdadeira Epifania: ninguém encontra Cristo e permanece igual.
Um ensinamento para hoje
Os Reis Magos continuam a falar ao cristão de hoje. Convidam-nos a levantar os olhos, a não nos contentarmos com respostas fáceis, a reconhecer Jesus como Rei do nosso coração. A sua história lembra-nos que a fé é caminho, busca e adoração.
Na sua humildade diante do presépio, os Reis Magos mostram-nos que a verdadeira sabedoria termina sempre de joelhos.
