A Igreja celebra hoje a Apresentação de Nossa Senhora

A Apresentação de Nossa Senhora, também conhecida como Festa da Apresentação da Santíssima Virgem Maria ou simplesmente como a Apresentação de Maria, é uma festa cristã que celebra a dedicação da Virgem Maria ao serviço divino desde a sua infância.

História

A fonte desta tradição não é a Escritura canónica, mas um texto apócrifo do século II conhecido como Protoevangelho de Tiago. De acordo com o relato, os pais da Virgem Maria, Joaquim e Ana, que não podiam ter filhos, receberam uma mensagem de que teriam um filho. Como agradecimento pela graça da filha que nasceu, Joaquim e Ana decidiram consagrá-la a Deus e levaram-na, aos três anos, para o Templo em Jerusalém.

Maria permaneceu no Templo até os doze anos, quando foi confiada a José, o seu novo guardião. De acordo com a tradição copta, Joaquim morreu quando Maria tinha seis anos de idade e a mãe quando ela tinha oito. Ainda que sem nenhum fundamento histórico, a tradição serve para demonstrar que Maria, mesmo na infância, já estava completamente dedicada a Deus. É deste relato que surgiu a festa da Apresentação de Maria.

Festa

A festa nasceu no Oriente. Em 543, o imperador Justiniano dedicou em Jerusalém, perto do local do antigo Templo, uma grande basílica conhecida como Nea Church, “a Nova [Igreja de Maria]”, e é a essa dedicação, celebrada a 21 de novembro, que a data ficou ligada. A devoção espalhou-se rapidamente pelas igrejas bizantinas entre os séculos VI e VIII, muito antes de chegar ao Ocidente.

No Ocidente latino, a festa demorou séculos a fixar-se. Só no século XIV começou a ganhar terreno, e foi o Papa Sisto IV, em 1472, quem a introduziu oficialmente no calendário romano. Passou depois por avanços e recuos, até ser confirmada de forma definitiva pelo Papa Sisto V em 1585, mantendo-se desde então, com pequenos ajustes, como memória obrigatória no calendário universal.

Celebração litúrgica

Para a Igreja Católica, no dia da Apresentação de Maria, “nós celebramos a dedicação de si própria que Maria fez a Deus desde a sua tenra infância sob a inspiração do Espírito Santo, que preencheu-a com a sua graça…“. O papa Paulo VI, na sua encíclica de 1974, Marialis Cultus, escreveu que “apesar do seu conteúdo apócrifo, [a história da Apresentação] apresenta elevados e exemplares valores e avança veneráveis tradições de origem nas igrejas orientais“.

As três festas do Nascimento, Santo Nome de Maria e a Apresentação no Templo correspondem, no ciclo mariano, com as três primeiras festas do ciclo de Jesus, o Nascimento de Jesus (Natal), o Santo Nome de Jesus e a Apresentação de Jesus no Templo.

A festa na liturgia de hoje

Por não ter base num relato bíblico, esta memória não tem leituras próprias fixas, celebra-se com os textos do Comum da Virgem Maria, escolhidos pela própria comunidade entre um conjunto de opções previstas pela Igreja. É comum escolher-se o Evangelho em que uma mulher, no meio da multidão, exclama a Jesus, “bem-aventurado o ventre que te trouxe”, ao que Jesus responde, “antes, bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam” (Lc 11, 27 a 28). É uma resposta que resume bem o sentido da própria festa, a grandeza de Maria não está primeiro no episódio narrado, mas na total disponibilidade a Deus que esse episódio quer representar.

Significado teológico

  • Uma vida inteiramente consagrada desde o início. Ainda que o episódio narrado não seja historicamente certo, a Igreja usa-o para afirmar algo que crê verdadeiro, Maria foi, desde a infância, totalmente entregue a Deus, sem reserva, preparando o “sim” que daria décadas depois na Anunciação.
  • Prenúncio da vida consagrada. Por celebrar uma criança oferecida por inteiro a Deus, esta festa tornou-se, ao longo dos séculos, padroeira simbólica da vida religiosa contemplativa, sobretudo dos mosteiros de clausura, cuja vocação é justamente essa entrega total, escondida do mundo.
  • A fé não começa na idade adulta. A festa lembra que a resposta a Deus pode amadurecer desde os primeiros anos de vida, e não é, por isso, apenas uma decisão reservada à idade adulta ou a momentos de crise.

Uma data ligada à vida contemplativa

Em 1953, o Papa Pio XII escolheu precisamente este dia para instituir o Pro Orantibus Day, o dia de oração pelos religiosos e religiosas de vida contemplativa, aqueles que vivem em clausura, dedicados quase exclusivamente à oração e ao silêncio, longe da vida pública. A escolha da data não foi acidental, a menina apresentada no Templo tornou-se, séculos depois, símbolo natural de todas as vidas que se oferecem inteiramente a Deus, sem procurar reconhecimento nem visibilidade.

Como viver a festa hoje

  • Rezar pelas comunidades contemplativas, mosteiros e conventos de clausura, muitas vezes esquecidos por quem vive uma fé mais activa e visível.
  • Reler o episódio de Lucas 11, 27 a 28, perguntando o que significa, na própria vida, “ouvir a palavra de Deus e guardá-la”, para lá de qualquer grande gesto exterior.
  • Entregar a Deus, em oração, as crianças da própria família, pedindo que cresçam, como Maria, em disponibilidade interior.
  • Visitar ou apoiar um mosteiro de clausura, ainda que apenas com uma oferta ou uma carta, reconhecendo o valor de uma vida entregue sem exposição pública.
  • Perguntar-se sobre a própria entrega a Deus, se ela é feita apenas em momentos pontuais ou se atravessa, como se pede hoje, toda a vida.

Celebração Adicional

Também a 21 de novembro, celebra-se a festa mais famosa de Maria, Nossa Senhora da Saúde, instituída na então República do Vêneto, em 1630, que, depois, se espalhou por toda parte. Esta recorrência e tradição tiveram origem depois da epidemia, que atingiu todo o norte da Itália, tendo levado o governo local a organizar uma procissão a Nossa Senhora, prometendo construir um templo, dedicado a Maria, se a cidade sobrevivesse à pandemia. Algumas semanas depois, houve uma brusca diminuição da doença e, em novembro de 1631, foi declarado o fim definitivo da emergência pandémica. Desde então, a Virgem recebeu o título de “Nossa Senhora da Saúde”. A promessa foi cumprida com a construção da basílica, inaugurada em 28 de novembro de 1687, chamada Santa Maria da Saúde.

Conclusão

A festa de hoje não pede que se confirme um episódio da infância de Maria, pede que se aprenda algo com ele, que a entrega a Deus pode, e talvez deva, começar antes de se ter a vida toda decidida.

Nossa Senhora da Apresentação, ensinai-nos a entregar-nos a Deus sem reservas.

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