Neste dia, em 1958, Angelo Roncalli era eleito como Papa João XXIII

A eleição do Papa João XXIII, em 28 de outubro de 1958, marcou um dos momentos mais inesperados e transformadores da história da Igreja Católica do século XX. Conhecido até então como Cardeal Angelo Giuseppe Roncalli, patriarca de Veneza, era considerado um candidato de transição, um homem simples, de temperamento afável e de idade avançada, mas a sua escolha acabaria por mudar profundamente o rumo da Igreja com o anúncio do Concílio Vaticano II e uma nova visão pastoral, aberta e esperançosa.

Contexto histórico e a morte de Pio XII

O pontificado de Pio XII (1939–1958) fora longo e intenso, marcado pela Segunda Guerra Mundial, pela reconstrução do pós-guerra e pelo início da Guerra Fria. Quando faleceu a 9 de outubro de 1958, o mundo encontrava-se dividido entre blocos ideológicos, e a Igreja enfrentava o desafio de se manter viva e relevante num contexto de rápidas transformações culturais e científicas.

O conclave que se seguiu à sua morte reuniu 51 cardeais, vindos de todos os continentes. A expectativa era grande, e muitos acreditavam que seria eleito um pontífice com perfil diplomático, capaz de manter a estabilidade e a continuidade da linha doutrinal de Pio XII.

O conclave de 1958

O conclave teve início a 25 de outubro de 1958, na Capela Sistina, sob o tradicional voto de segredo. Entre os nomes mais mencionados encontravam-se o do cardeal Giuseppe Siri, arcebispo de Génova, considerado conservador, e o do cardeal Gregorio Pietro Agagianian, patriarca arménio-católico, de perfil mais internacional.

O cardeal Roncalli, com 76 anos, era visto como uma figura conciliadora, afável e pastoral, mas sem grande peso político. Muitos pensavam que poderia ser um “papa de transição”, alguém que preparasse o caminho para futuras reformas, sem provocar mudanças bruscas.

Após 11 escrutínios ao longo de três dias, na manhã de 28 de outubro, festa dos Santos Apóstolos Simão e Judas, subiu finalmente o fumo branco. O cardeal decano anunciou a tradicional fórmula:

Annuntio vobis gaudium magnum: Habemus Papam! Eminentissimum ac reverendissimum Dominum, Dominum Angelum Josephum Roncalli, qui sibi nomen imposuit Ioannis XXIII.”

O mundo conhecia assim o novo pontífice: João XXIII.

A escolha do nome

Ao escolher o nome João XXIII, Roncalli surpreendeu desde logo o mundo. O nome “João” não era usado havia mais de cinco séculos, o último papa com esse nome, João XXII, reinara no século XIV. Além disso, existia uma antiga controvérsia histórica com um antipapa homónimo do século XV.

Contudo, João XXIII explicou que escolhera o nome “João” em homenagem ao seu pai camponês, a São João Batista e a todas as paróquias humildes dedicadas a este santo, como um sinal de simplicidade e de renovação espiritual. O gesto foi interpretado como um símbolo da sua natureza pastoral e próxima do povo.

A surpresa do “Papa bom”

Logo após a eleição, o novo papa conquistou o coração dos fiéis com a sua afabilidade, humildade e sorriso constante. Era descrito como o “Papa bom” (Il Papa buono), uma expressão que refletia o seu estilo simples, paterno e profundamente humano.

A sua primeira bênção “Urbi et Orbi”, dada da varanda da Basílica de São Pedro, foi marcada por um tom de ternura e espontaneidade. Em vez de discursos solenes, João XXIII dirigiu-se aos fiéis com palavras diretas e calorosas, convidando-os à esperança e à paz.

Um pontificado que superou todas as expectativas

Embora muitos esperassem um pontificado breve e de transição, João XXIII surpreendeu o mundo católico ao convocar, em 25 de janeiro de 1959, o Concílio Vaticano II — o primeiro concílio ecuménico em quase um século. O objetivo, segundo as suas próprias palavras, era promover o aggiornamento (“atualização”) da Igreja, aproximando-a do mundo moderno sem renunciar à sua essência espiritual.

Com esse gesto, João XXIII revelou-se não apenas um pastor bondoso, mas também um visionário. O Concílio viria a transformar profundamente a liturgia, o diálogo ecuménico e a relação da Igreja com a sociedade contemporânea.

Um papa de paz e diálogo

Durante o seu pontificado (1958–1963), João XXIII também se destacou pela sua ação diplomática. Interveio em favor da paz durante a crise dos mísseis de Cuba (1962), enviando uma mensagem aos líderes das duas superpotências — John F. Kennedy e Nikita Khrushchov — apelando à prudência e à reconciliação.

O seu empenho pela paz mundial valeu-lhe o respeito de líderes de todas as ideologias e religiões. Em 1963, publicou a encíclica Pacem in Terris, dirigida “a todos os homens de boa vontade”, onde defendia os direitos humanos, a justiça social e o desarmamento nuclear.

A morte e o legado

João XXIII faleceu a 3 de junho de 1963, após uma breve doença, deixando um profundo vazio no coração dos fiéis. A sua morte foi chorada por católicos e não católicos, e o mundo recordou-o como um símbolo de bondade e renovação espiritual.

O Concílio que ele convocara prosseguiu sob o seu sucessor, Paulo VI, e transformou-se no acontecimento eclesial mais importante do século XX.

Em 2000, foi beatificado por São João Paulo II, e em 27 de abril de 2014, o Papa Francisco canonizou-o, reconhecendo o seu papel fundamental na abertura da Igreja ao mundo contemporâneo.

Conclusão

A eleição do Papa João XXIII foi um dos grandes “sopros do Espírito” na história recente da Igreja. O pontífice que muitos julgavam provisório tornou-se o arquiteto de uma nova era eclesial, marcada pela misericórdia, pelo diálogo e pela renovação.

Com o seu coração aberto, a sua voz de pastor e o seu olhar sereno, João XXIII deixou um legado que continua vivo: o de uma Igreja que não teme abrir as janelas ao mundo, para que entre o ar fresco do Espírito Santo, exatamente como ele desejou no início do seu pontificado.

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