No dia 9 de Julho de 1860, uma das mais brutais perseguições contra cristãos do século XIX teve lugar em Damasco, na Síria, então sob domínio do Império Otomano. Estima-se que mais de 20 mil cristãos tenham sido mortos num acto de violência sistemática, motivado por tensões religiosas e políticas profundamente enraizadas na região. Este massacre, que durante décadas permaneceu esquecido ou minimizado, marca um capítulo trágico da história da presença cristã no Médio Oriente.
Contexto histórico: tensões sectárias no Império Otomano
Durante o século XIX, o Império Otomano enfrentava uma série de crises internas e pressões externas. A crescente interferência das potências europeias, aliada ao nacionalismo crescente entre as diferentes comunidades étnicas e religiosas, criava um ambiente instável. No Levante, particularmente no Líbano e na Síria, a coexistência entre drusos, muçulmanos e cristãos maronitas e ortodoxos tornou-se cada vez mais frágil.
Em 1860, já se tinham verificado violentos confrontos entre drusos e maronitas no Monte Líbano, nos quais milhares de cristãos foram mortos. Estas tensões rapidamente alastraram-se até Damasco, uma cidade com uma importante minoria cristã.
O massacre em Damasco
A 9 de Julho de 1860, hordas de fanáticos, instigados por líderes locais e pela passividade — e até cumplicidade — das autoridades otomanas, lançaram-se sobre os bairros cristãos da cidade. Durante vários dias, igrejas foram incendiadas, casas saqueadas e famílias inteiras exterminadas. Entre os mortos contavam-se mulheres, crianças, idosos e clérigos. O número total de vítimas ultrapassou os 20 mil cristãos.
O massacre foi particularmente cruel. Muitos foram queimados vivos nas suas casas e igrejas. Relatos da época falam de padres degolados diante dos seus fiéis e de freiras violadas e assassinadas. O bairro cristão de Bab Tuma, em Damasco, foi praticamente arrasado.
O emir argelino Abb-al-Kadar, embora fosse grande defensor do islão, deu asilo a 1.500 cristãos. Entre os refugiados havia religiosas Filhas da Caridade e religiosos Jesuítas, Paulinos e Franciscanos, que chegaram a sofrer tortura nas mãos da multidão violenta. Os franciscanos foram atormentados com o facão dos beduínos e com as baionetas dos turcos.
A intervenção europeia e as consequências
A brutalidade dos acontecimentos chocou profundamente a opinião pública europeia. França, que se via como protectora dos cristãos do Levante, exigiu uma resposta firme. O sultão otomano Abdulmejid I acabou por enviar tropas para restabelecer a ordem, e alguns dos instigadores foram julgados e executados. Contudo, as medidas punitivas foram insuficientes para restaurar a confiança da população cristã.
Muitos cristãos abandonaram Damasco e o Levante, dando início a ondas migratórias rumo à Europa e às Américas. O massacre de 1860 marcou, para muitos, o início do lento declínio da presença cristã autóctone em várias regiões do Médio Oriente.
Mártires e memória
Entre os mortos encontravam-se sacerdotes e leigos cuja fé heroica perante a perseguição foi reconhecida pela Igreja. O mais conhecido é São Nimatullah Kassab al-Hardini, que embora não tenha morrido no massacre, viveu na mesma época e testemunhou de perto a perseguição. Muitos dos mártires de Damasco são hoje lembrados como vítimas da fé, mesmo sem uma canonização formal.
Em 1926, o Papa Pio XI beatificou três mártires melquitas assassinados durante esses dias de fúria. E, em 2001, durante a sua visita à Síria, São João Paulo II prestou homenagem às vítimas cristãs da perseguição otomana.
A 1 de julho de 2024, o Papa Francisco presidiu um consistório ordinário de cardeais, que aprovou a canonização de 15 pessoas, incluindo os Mártires de Damasco. Eles foram canonizados pelo mesmo pontífice a 20 de outubro de 2024.
Conclusão
O massacre de Damasco é um lembrete doloroso de como o ódio religioso pode gerar uma violência desumana. Num tempo em que os cristãos continuam a ser perseguidos em várias partes do mundo, recordar estes mártires não é apenas um acto de memória histórica, mas também um apelo à liberdade religiosa, à dignidade humana e à reconciliação entre os povos.
