Neste dia, em 1215, tinha início o Quarto Concílio de Latrão

Realizado em Roma em novembro de 1215, o Quarto Concílio de Latrão (Latrão IV) é amplamente considerado o concílio ecuménico mais importante da Idade Média. Convocado pelo Papa Inocêncio III, um dos pontífices mais poderosos e influentes da história da Igreja, o concílio tinha como objetivo abordar uma vasta gama de questões que definiam a vida da cristandade ocidental, desde a doutrina e a moralidade clerical até à organização de uma nova cruzada. O concílio foi um testemunho do poder e da autoridade centralizados do papado medieval.

Introdução: O Contexto de Pleno Poder Papal

O início do século XIII marcou o apogeu do poder papal. Inocêncio III via-se não apenas como o líder espiritual da Igreja, mas como a autoridade moral suprema da Europa, com o direito de intervir em assuntos temporais dos reinos e impérios. O seu objetivo ao convocar este concílio era estabelecer uma legislação abrangente para toda a cristandade, unificar práticas e combater abusos.

O concílio reuniu uma assembleia impressionante de líderes eclesiásticos: mais de 400 bispos, 800 abades e priores, e representantes de quase todos os monarcas e cidades-estado europeias. Esta afluência maciça sublinhou a centralidade de Roma e a seriedade dos temas a serem debatidos.

O concílio decorreu entre 11 e 30 de novembro de 1215, com uma única e solene sessão pública final no último dia, onde os 70 cânones (decretos) preparados pela cúria papal foram lidos e aprovados.

Cânones Doutrinais: A Fé Definida

O concílio produziu definições doutrinais cruciais que moldaram a teologia católica:

  • A Transubstanciação (Cânone 1, Firmiter credimus): Este foi um dos atos teológicos mais significativos do concílio. Embora a crença na presença real de Cristo na Eucaristia fosse antiga, Latrão IV formalizou o termo “transubstanciação” para explicar a mudança substancial do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo. Esta definição tornou-se a base da doutrina eucarística católica.
  • A Trindade e a Criação: O concílio reafirmou a fé na Trindade e condenou as heresias que a negavam, como a dos Cátaros (ou Albigenses), que professavam um dualismo entre o bem e o mal.

Cânones Disciplinares e de Reforma

A maioria dos 70 cânones focou-se na reforma da vida da Igreja e dos fiéis. Estes decretos tiveram um impacto profundo na vida quotidiana dos católicos:

  • Confissão e Comunhão Anual (Cânone 21, Omnis utriusque sexus): Talvez o cânone mais conhecido. Exigiu que todo cristão, ao atingir a idade da razão, se confessasse pelo menos uma vez por ano e recebesse a Eucaristia pelo menos na Páscoa. Esta regra garantiu um nível mínimo de prática religiosa e controlo pastoral em toda a cristandade.
  • Formação do Clero: O concílio exigiu uma melhor formação e moralidade para o clero, proibindo abusos como a simonia (compra e venda de ofícios eclesiásticos) e o concubinato clerical.
  • Vestes Específicas: Ordenou que os clérigos usassem vestes distintas do laicado, sublinhando a sua separação e papel sagrado.
  • Novas Ordens e Educação: Proibiu a criação de novas ordens religiosas sem aprovação papal e ordenou o estabelecimento de escolas em catedrais para a educação dos clérigos.

A Organização da V Cruzada

Inocêncio III utilizou o concílio para promover a V Cruzada à Terra Santa. Foram aprovadas medidas financeiras, como um imposto de 1/20 sobre todos os rendimentos eclesiásticos durante três anos, para financiar a expedição. O Papa também apelou à paz na Europa para que os reis pudessem focar-se na luta contra o Islão.

Conclusão: O Legado do Concílio

O Quarto Concílio de Latrão foi o ponto culminante do poder papal medieval. A sua legislação abrangente tocou em quase todos os aspetos da vida cristã e eclesiástica, desde a mais alta teologia até à prática devocional dos fiéis. A 30 de novembro de 1215, ao aprovar os seus decretos, o concílio não só formalizou o dogma da Transubstanciação, mas também cimentou a estrutura da Igreja e a sua influência na Europa, deixando um legado que perdurou inalterado até às reformas do Concílio de Trento, no século XVI, e, em muitos aspetos, até ao Concílio Vaticano II.

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