O Terceiro Concílio de Constantinopla, realizado entre 7 de novembro de 680 e 16 de setembro de 681, foi o sexto concílio ecuménico da Igreja. Convocado pelo Imperador Bizantino Constantino IV, este sínodo histórico teve como missão resolver uma das mais subtis e persistentes controvérsias teológicas dos primeiros séculos do cristianismo: o Monotelismo. A sua definição dogmática sobre as duas vontades de Cristo solidificou a compreensão da Igreja sobre a Encarnação e restaurou a unidade religiosa entre o Oriente e o Ocidente.
Introdução: A Controvérsia Monotelita
Após as grandes definições cristológicas dos concílios anteriores (Niceia, Éfeso e Calcedónia), que estabeleceram que Jesus Cristo é uma só Pessoa com duas naturezas — divina e humana —, a questão movediça da vontade de Cristo surgiu como um novo ponto de discórdia.
O Monotelismo (do grego mono, uma, e thelema, vontade) foi uma doutrina proposta como uma solução de compromisso, principalmente por líderes bizantinos, para reintegrar os monofisitas (que acreditavam que Cristo tinha apenas uma natureza, a divina) na Igreja oficial. A teoria monotelita defendia que, embora Cristo tivesse duas naturezas, Ele agia através de uma única operação e vontade (thelesis), a divina.
Embora bem-intencionada em termos de política imperial de unificação religiosa, esta doutrina encontrou forte oposição no Ocidente. Teólogos ocidentais, liderados pelo Papa Agatão, argumentaram que negar a Cristo uma vontade humana distinta da Sua vontade divina comprometia a Sua plena humanidade e, por extensão, o mistério da salvação. Se Cristo não possuía uma vontade humana perfeita e livre, a humanidade não poderia ser verdadeiramente redimida.
O Concílio e a Presidência Imperial
O Imperador Constantino IV, ansioso por restaurar a paz religiosa no seu império, convocou o concílio. As sessões (dezoito no total) ocorreram numa sala abobadada do palácio imperial, com o Imperador a presidir pessoalmente às primeiras dez e à última sessão.
A delegação papal, enviada pelo Papa Agatão, desempenhou um papel preponderante. Agatão enviou uma carta dogmática (“Tomus de Agatão”) que defendia a posição das duas vontades, baseada na teologia ocidental, que se tornou a base para as decisões do concílio.
A Decisão Dogmática: Duas Vontades e Duas Operações
Após longos debates, a análise de textos patrísticos e a rejeição das posições monotelitas, o concílio emitiu a sua definição de fé solene. O documento final proclamou a ortodoxia das duas vontades e operações em Cristo:
“Nós glorificamos duas vontades naturais e duas operações naturais que, sem divisão, sem mudança, sem separação, sem confusão, se unem em Jesus Cristo.”
A doutrina estabeleceu que a vontade humana de Cristo não era oposta, mas subserviente e perfeitamente alinhada com a Sua vontade divina e omnipotente. O concílio, assim, completou a cristologia de Calcedónia, assegurando a integridade da humanidade e divindade de Cristo.
Condenações e o Caso do Papa Honório I
Para garantir a pureza doutrinal, o concílio anatemizou (excomungou) os principais defensores do Monotelismo, incluindo vários patriarcas de Constantinopla.
O momento mais controverso do concílio, do ponto de vista histórico, foi a condenação póstuma do Papa Honório I (m. 638). Honório I foi condenado não por ensinar formalmente a heresia, mas por ter sido ambíguo nas suas cartas anteriores sobre o assunto, que foram consideradas negligentes e favoráveis ao erro monotelita. Esta condenação geraria debates futuros sobre a infalibilidade papal, mas, no contexto da época, serviu para demonstrar que a ortodoxia se sobrepunha até à autoridade de um Papa falecido.
Conclusão: A Unidade na Fé
O Terceiro Concílio de Constantinopla foi um triunfo da ortodoxia e da colaboração ecuménica entre Roma e Constantinopla. A 16 de setembro de 681, o concílio encerrou, tendo conseguido o seu objetivo principal: restaurar a comunhão plena entre as duas sedes principais da Igreja e resolver, de uma vez por todas, as complexidades da doutrina sobre a Pessoa de Jesus Cristo. As suas definições permanecem como um pilar essencial da fé cristã, assegurando que a humanidade de Cristo é tão real e completa quanto a Sua divindade.
