Sabia que… o nome da “Missa do Galo” tem a sua origem ligada à Basílica de Santa Maria Maior?

Para as famílias católicas em Portugal e no mundo hispânico, a noite de 24 de dezembro fica marcada pelo reencontro à volta da mesa da Consoada, que culmina com a ida à igreja para celebrar a Missa do Galo. Embora a maioria de nós associe o nome a antigas lendas populares, como a de que um galo teria cantado à meia-noite para anunciar ao mundo o nascimento do Menino Jesus, a verdadeira origem desta expressão é, na verdade, muito mais histórica, litúrgica e romana.

Sabia que a instituição desta celebração noturna e o próprio nome “Missa do Galo” nasceram na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma? Vamos recuar até ao século V para compreender esta ligação fascinante.

O Papa Sisto III e a “Belém do Ocidente”

Oficialmente, a Igreja Católica chama a esta celebração “Missa da Noite” (integrada na tríade litúrgica do Natal, que inclui também a Missa da Aurora e a Missa do Dia). Mas a tradição de celebrar a Eucaristia exatamente à meia-noite começou por volta do ano 432 com o Papa Sisto III.

Após o Concílio de Éfeso ter proclamado solenemente que a Virgem Maria é a Mãe de Deus (Theotokos), o Papa decidiu reconstruir e ampliar a Basílica de Santa Maria Maior no monte Esquilino, em Roma. Para tornar o templo ainda mais especial, mandou construir no seu interior uma réplica exata da gruta da Natividade de Belém.

Devido a este pormenor, e por acolher mais tarde as sagradas relíquias do Santo Presépio (as tábuas da manjedoura de Jesus), a basílica passou a ser carinhosamente apelidada de a “Belém do Ocidente”. O Papa Sisto III instituiu então o costume de ali celebrar uma Missa solene na noite de Natal, precisamente no momento em que começava o novo dia.

Mas de Onde Vem a Expressão “ad galli cantus”?

A transição do horário para o nome “Missa do Galo” deve-se à forma como os antigos romanos dividiam o tempo. Naquela época, a noite não era contabilizada por horas digitais, mas sim por quatro turnos ou vigílias militares.

O terceiro turno terminava por volta da meia-noite e o quarto turno começava logo a seguir. Este período inicial da madrugada, que coincidia com o início do novo dia, era designado em latim como “ad galli cantus” (ou seja, “ao cantar do galo”), por ser o momento em que estas aves começavam a cantar para anunciar a transição das trevas para a luz do amanhecer.

Como o Papa celebrava a Eucaristia de Natal na réplica da gruta da Basílica de Santa Maria Maior precisamente à hora do ad galli cantus, o povo romano e os peregrinos começaram a chamar-lhe a “Missa do cantar do galo”. Com o passar dos séculos, as línguas latinas da Península Ibérica — o português e o espanhol — herdaram e encurtaram esta expressão histórica, transformando-a na nossa terna Missa do Galo.

O Simbolismo Cristão do Galo

Para além do fator temporal romano, o galo carrega um simbolismo profundamente cristão que justifica a persistência do nome. Na tradição da Igreja, o galo é visto como um símbolo de vigilância, fidelidade e testemunho.

Sendo a ave que anuncia o fim da noite e o nascimento do sol, ela simboliza o próprio Jesus Cristo, o verdadeiro “Sol Nascente” que veio dissipar as trevas do pecado e da morte. Celebrar a Missa do Galo é, por isso, um convite a acordar do sono espiritual e a acolher, com alegria e vigilância, a Luz do Mundo que acaba de nascer na pobreza de um presépio.

Na próxima noite de Natal, quando se preparar para ir à sua paróquia participar nesta celebração, lembre-se de que está a repetir um gesto com mais de 1600 anos de história, que nos une diretamente ao Papa e à primeira grande igreja mariana do mundo.

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