A Beata Alexandrina Maria da Costa (1904-1955), mais conhecida como Beata Alexandrina de Balazar, é uma das figuras mais marcantes da espiritualidade católica portuguesa do século XX. Mulher simples, nascida numa aldeia do norte de Portugal, transformou a sua vida de sofrimento físico em oferta total a Cristo, tornando-se testemunha viva do poder da Eucaristia e da união íntima com Jesus.
Infância e juventude
Alexandrina nasceu a 30 de março de 1904, em Balazar, concelho da Póvoa de Varzim. Filha de camponeses humildes, cresceu num ambiente profundamente cristão. Desde cedo, destacou-se pela piedade, pelo gosto em rezar e por uma sensibilidade particular para com os pobres e doentes.
Com apenas 14 anos, viveu um episódio que marcaria toda a sua existência: ao tentar defender-se de uma tentativa de agressão, atirou-se pela janela de sua casa para escapar, caindo de uma altura de quatro metros. A queda provocou lesões irreversíveis na coluna vertebral, que a deixaram progressivamente paralisada.
A partir dos 21 anos, ficou totalmente dependente, passando o resto da vida acamada. O sofrimento, porém, não a levou ao desespero: ofereceu-se a Cristo como vítima pela salvação das almas, entregando todos os seus padecimentos pela Igreja, pelos pecadores e pelo triunfo do Coração Imaculado de Maria.
Experiência mística e união com Cristo
Ao longo dos anos, Alexandrina viveu experiências místicas intensas, entre elas visões, êxtases e o dom das chagas invisíveis de Cristo. Durante vários anos, revivia semanalmente a Paixão de Jesus, em êxtase, experimentando no corpo e na alma os sofrimentos do Senhor.
Mas o ponto culminante da sua vida mística deu-se a partir de 27 de março de 1942, quando, de forma inexplicável, deixou de se alimentar de qualquer comida ou bebida, vivendo apenas da Sagrada Eucaristia. Este fenómeno extraordinário prolongou-se durante 13 anos e 7 meses, até à sua morte.
Alimentar-se unicamente da Eucaristia
A decisão de Alexandrina em aceitar viver apenas da Eucaristia não foi uma escolha humana, mas uma resposta a uma graça especial. Nos seus escritos espirituais, relata que Jesus lhe pediu esta entrega total, para ser sinal vivo do poder da Eucaristia e da centralidade deste sacramento na vida da Igreja.
Médicos, sacerdotes e testemunhas atestaram que, durante todo esse período, Alexandrina recusava qualquer alimento, mantendo apenas a comunhão diária como único sustento. Apesar da fraqueza física aparente, conservava lucidez e uma força interior que impressionava todos os que a visitavam.
Exames médicos e investigações
O caso de Alexandrina despertou curiosidade e também ceticismo. Para esclarecer a veracidade do fenómeno, foi submetida a observações médicas rigorosas.
Em julho de 1943, permaneceu 30 dias internada no Hospital da Póvoa de Varzim, sob vigilância contínua de médicos e enfermeiros, para garantir que não recebia qualquer alimento. Durante esse período, não ingeriu nada além da Eucaristia, e, ao contrário do que seria esperado, sobreviveu sem apresentar sinais de desnutrição compatíveis com a ausência de comida.
Os relatórios médicos confirmaram o facto extraordinário, sem encontrarem explicação científica plausível. Para a Igreja, este testemunho foi interpretado como sinal místico, não apenas para edificação dos fiéis, mas sobretudo para destacar a força espiritual da presença real de Cristo na Eucaristia.
Últimos anos e morte
A condição física de Alexandrina continuou a agravar-se, mas o seu espírito permanecia sereno e alegre. Recebia constantemente visitas de fiéis, sacerdotes e até de investigadores estrangeiros.
Tornou-se conhecida como a “Santinha de Balazar”, e muitos peregrinos recorriam a ela em busca de conselhos e oração. Alexandrina oferecia o seu sofrimento pela Igreja e pelo mundo, pedindo constantemente a consagração da humanidade ao Imaculado Coração de Maria – algo que foi atendido, ainda que de forma parcial, pelo Papa Pio XII em 1942.
Faleceu a 13 de outubro de 1955, na mesma data em que, 38 anos antes, ocorrera a última aparição de Nossa Senhora em Fátima. O seu funeral foi acompanhado por uma multidão que já a venerava como santa.
Beatificação e legado espiritual
O processo de canonização de Alexandrina iniciou-se em 1967, culminando com a sua beatificação em 25 de abril de 2004, em Roma, presidida pelo Papa São João Paulo II.
Hoje, o seu túmulo, na igreja paroquial de Balazar, é local de peregrinação constante. A Beata Alexandrina é lembrada como modelo de entrega a Cristo, de amor à Eucaristia e de confiança inabalável em Deus, mesmo no meio do sofrimento.
Conclusão
A vida da Beata Alexandrina de Balazar é um testemunho poderoso de que a Eucaristia é verdadeiramente fonte de vida. O facto extraordinário de se ter sustentado apenas do Corpo de Cristo durante mais de treze anos, comprovado por exames médicos e observado por numerosos fiéis, continua a desafiar a ciência e a inspirar a fé.
A sua história convida-nos a redescobrir a centralidade da Eucaristia na vida cristã, lembrando que, como ela própria dizia: “A Eucaristia é a minha vida. Sem Jesus, não posso viver.”
