Neste dia, em 1930, o Papa Pio XI proclamava São Camilo de Lellis e São João de Deus como Co-padroeiros dos Enfermeiros

A 28 de agosto de 1930, o Papa Pio XI, um pontífice atento às necessidades práticas da Igreja e do mundo, emitiu o Breve Pontifício Expedit Plane (ou Expedit Hac Plane), um documento que uniu, de forma indissociável, duas das maiores figuras da caridade na história da Igreja: São Camilo de Lellis e São João de Deus. Através deste ato solene, Pio XI declarou-os Co-Patronos Celestiais de todos os Enfermeiros e de todas as Associações de Enfermagem do mundo.

Esta proclamação foi um marco significativo que reconheceu formalmente a dignidade e a vocação da profissão de enfermagem aos olhos da Igreja, oferecendo-lhe não um, mas dois modelos de santidade, dedicação e cuidado abnegado.

O Contexto da Proclamação: Uma Profissão em Evolução

No início do século XX, a enfermagem estava a passar por um processo de profissionalização crescente, largamente influenciado pelos métodos introduzidos por Florence Nightingale no século anterior. A Igreja reconheceu a necessidade de acompanhar esta evolução, assegurando que, juntamente com a competência técnica, o cuidado espiritual e a ética cristã permanecessem no centro da profissão.

Leão XIII já havia proclamado São Camilo padroeiro dos hospitais e enfermos em 1886. Pio XI, em 1930, deu um passo além, focando-se especificamente nos profissionais que dedicavam as suas vidas à arte de cuidar. A escolha de Camilo de Lellis e João de Deus como co-padroeiros foi particularmente feliz, pois ambos, com as suas vidas e carismas distintos, representavam as facetas essenciais do cuidado cristão.

Dois Modelos de Zelo e Caridade

São João de Deus (1495-1550): O Fundador da Misericórdia em Granada

Nascido em Portugal, João Cidade (mais tarde João de Deus) teve uma juventude aventureira como soldado e pastor antes de experimentar uma conversão radical na cidade de Granada, em Espanha. A sua vida mudou após ouvir um sermão de São João de Ávila.

Movido por uma caridade ardente, dedicou-se a recolher os doentes, os pobres, os sem-abrigo e os loucos que encontrava nas ruas. João de Deus não tinha métodos organizados no início; a sua caridade era um impulso do coração que o levava a pedir esmolas para sustentar o seu refúgio e a cuidar pessoalmente dos mais desamparados, muitas vezes carregando-os às costas.

A sua obra cresceu e deu origem à Ordem Hospitaleira de São João de Deus (Irmãos de São João de Deus ou Hospitaleiros), que se espalhou pelo mundo. Ele é lembrado pela sua humildade, pela sua paciência inesgotável e pelo seu total abandono à Providência Divina no serviço dos mais necessitados.

São Camilo de Lellis (1550-1614): O Revolucionário do Cuidado Hospitalar

Camilo, cuja vida já foi abordada anteriormente, trouxe para o cuidado dos doentes a organização, a dignidade e a profissionalização. A sua conversão num hospital, onde mais tarde se tornou superintendente, levou-o a fundar a Ordem dos Ministros dos Enfermos (Camilianos).

Camilo introduziu inovações que transformaram a enfermagem da época: a limpeza dos espaços, a observação metódica dos sintomas, a atenção à nutrição e, crucialmente, a elevação do ato de cuidar a um ministério sagrado, cimentado no “quarto voto” de servir os doentes mesmo com risco da própria vida.

A Unidade na Diversidade dos Carismas

Ao unir estes dois santos como co-patronos, Pio XI sublinhou que a enfermagem católica deve combinar os pontos fortes de ambos os carismas:

  • A Abnegação de João de Deus: Que nos recorda a necessidade da compaixão pura, da entrega total e da confiança radical em Deus perante a miséria humana.
  • A Organização de Camilo de Lellis: Que nos ensina que a caridade deve ser inteligente, metódica e profissional, garantindo a dignidade e a eficácia no cuidado.

A 28 de agosto de 1930, através do Expedit Plane, o Papa Pio XI ofereceu um modelo de serviço que é, simultaneamente, profundamente humano e divinamente inspirado. O seu ato reconheceu que a enfermagem é mais do que uma profissão; é uma vocação que exige a cabeça fria e organizada de Camilo e o coração quente e misericordioso de João de Deus.

Conclusão

Hoje, os milhões de enfermeiros católicos em todo o mundo encontram nestes dois gigantes da caridade os seus guias e intercessores, lembrando-se que cada ato de cuidado é um serviço prestado ao próprio Cristo.

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