Neste dia, em 1889, o Papa Leão XIII instruía Madre Cabrini a seguir a sua missão nos EUA

A história da Igreja Católica e, em particular, a história da assistência aos migrantes, foi profundamente marcada por um encontro singular no Vaticano, a 10 de janeiro de 1889. Neste dia, a humilde fundadora italiana, Francisca Xavier Cabrini, que mais tarde se tornaria a primeira santa canonizada dos Estados Unidos e padroeira dos imigrantes, recebeu do Papa Leão XIII uma orientação que mudaria o rumo da sua vida e da sua missão. Longe do seu sonho de missionar na distante China, ela foi direcionada para a crescente e desesperada comunidade de imigrantes italianos em Nova Iorque.

O Contexto: Sonhos Orientais e Necessidades Ocidentais

Nascida em Sant’Angelo Lodigiano, na Lombardia, a 15 de julho de 1850, Francisca Xavier Cabrini foi uma criança de saúde frágil, mas de vontade de ferro. Desde cedo, a sua vocação missionária foi clara, inspirada pela vida e obra de São Francisco Xavier, o grande apóstolo jesuíta do Oriente. O seu sonho ardente era partir para a China, uma terra exótica e distante que representava o pináculo do fervor missionário da época.

A fundação do seu instituto, as Missionárias do Sagrado Coração de Jesus, em 1880, foi o primeiro passo para concretizar este desejo. Durante anos, ela trabalhou incansavelmente em Itália, estabelecendo escolas e orfanatos, sempre com o olhar voltado para a Ásia. No entanto, a Divina Providência tinha outros planos, que começaram a desenhar-se através do seu bispo local, Dom Giovanni Battista Scalabrini, ele próprio um apóstolo dos migrantes. Scalabrini alertou-a para o drama dos milhares de italianos que, fugindo da pobreza e da desunião política na sua terra natal, embarcavam em navios precários rumo à “terra das oportunidades”: a América.

Estes imigrantes chegavam a portos como o de Nova Iorque desorientados, sem dinheiro, sem a mínima assistência material ou espiritual, e muitas vezes explorados. A Arquidiocese de Nova Iorque, ciente desta crise humanitária e espiritual, contactou o Papa Leão XIII a pedir ajuda, especificamente missionários italianos que pudessem comunicar na língua dos recém-chegados e entender a sua cultura.

A Audiência de 10 de Janeiro de 1889

Em setembro de 1887, Madre Cabrini tinha viajado a Roma pela primeira vez para procurar a aprovação papal para o seu instituto e para discutir a sua missão na China. O Papa Leão XIII, um pontífice com uma profunda sensibilidade social, evidenciada mais tarde na sua encíclica “Rerum Novarum”, já a tinha em alta consideração, chegando a referir-se a ela como uma “mulher muito inteligente e de grandes virtudes… é uma santa“.

A audiência privada de 10 de janeiro de 1889, na Sala Clementina do Palácio Apostólico, foi o momento da viragem. Madre Cabrini, com a sua saúde frágil e a sua determinação inabalável, apresentou-se perante o Santo Padre. Inicialmente, ela não levantou a questão da América, mas sim a do Oriente, expressando o seu desejo de seguir o seu patrono, São Francisco Xavier, para a China.

O Papa Leão XIII ouviu-a pacientemente. Conhecedor da situação dos imigrantes nos Estados Unidos e da urgência do pedido da Arquidiocese de Nova Iorque, ele proferiu as palavras que se tornariam um marco na história da Igreja: “Não para o Oriente, minha filha, mas para o Ocidente”.

Esta frase icónica não foi apenas um conselho; foi uma instrução papal direta. Leão XIII viu em Madre Cabrini a pessoa ideal para esta missão desafiadora. Continuou, orientando-a especificamente: “Os bispos dos Estados Unidos estão a pedir freiras que possam cuidar dos milhares de imigrantes italianos. Vão para Nova Iorque!“.

A Obediência e a Partida

Para Madre Cabrini, mulher de uma fé inabalável e obediência exemplar, as palavras do Papa foram a voz de Deus. Apesar da sua desilusão inicial por não ir para a China, ela aceitou a vontade divina manifesta através do Vigário de Cristo. A sua vocação missionária não se limitava a uma geografia específica, mas sim a um povo que necessitava de Cristo.

A partir desse encontro, os preparativos para a viagem transatlântica começaram. A 23 de março de 1889, com apenas seis outras irmãs, Madre Cabrini embarcou num navio a vapor rumo a Nova Iorque. A viagem foi difícil, partilhando os mesmos desconfortos e incertezas dos imigrantes que ela viria a servir.

A chegada a Nova Iorque, em 31 de março de 1889, não foi menos desafiadora, enfrentando condições precárias de alojamento e a indiferença de alguns. Mas a sua coragem e a sua confiança na providência divina, fortalecidas pela missão direta do Papa, permitiram-lhe superar os obstáculos.

O Impacto da Decisão Papal

A obediência de Madre Cabrini à orientação do Papa Leão XIII resultou numa obra monumental. Em vez de uma missão na China, ela construiu um império de caridade nas Américas. Em 30 anos de intensa atividade, fundou 67 casas – incluindo escolas, orfanatos e, notavelmente, o Columbus Hospital em Nova Iorque – em oito países, estendendo a sua obra até à Argentina e ao Brasil.

O encontro de 10 de janeiro de 1889 não foi apenas uma nota de rodapé na história. Foi o momento em que a visão da Igreja se expandiu para além das fronteiras tradicionais, reconhecendo a urgência pastoral da diáspora italiana. A sabedoria do Papa Leão XIII e a santidade e determinação de Madre Cabrini convergiram para responder a uma das maiores crises humanitárias do final do século XIX e início do século XX.

Conclusão

Madre Cabrini, a “pequena e fraca professora lombarda”, como ela própria se via, tornou-se a “heroína dos tempos modernos”, defendendo destemidamente os direitos dos imigrantes e construindo pontes de esperança e caridade. A sua vida é um testemunho poderoso de como a obediência a uma orientação inspirada pode ter um impacto transformador no mundo. O seu legado, como padroeira dos migrantes, perdura até hoje, lembrando a todos a dignidade de cada pessoa e a importância do acolhimento.

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