Neste dia, em 1889, o Papa Leão XIII escreveu a primeira encíclica inteiramente dedicada a São José

A presença de São José na liturgia e no magistério da Igreja Católica percorreu um longo caminho de silêncio e discrição, espelhando a própria vida do carpinteiro de Nazaré. Se hoje o seu nome ressoa em todas as Missas do rito romano, deve-se a um processo de reconhecimento teológico que teve o seu primeiro grande marco no século XIX e a sua conclusão definitiva já no século XXI.

O Marco de Leão XIII: Quamquam Pluries

O primeiro grande impulso para a oficialização da devoção a São José veio do Papa Leão XIII. Em 15 de agosto de 1889, o Pontífice publicou a encíclica Quamquam Pluries, o primeiro documento magisterial inteiramente dedicado ao esposo de Maria. Num período de grandes transformações sociais e desafios para a Igreja, Leão XIII apresentou José não apenas como um santo de devoção privada, mas como o Patrono da Igreja Universal.

Nesta encíclica, o Papa estabeleceu uma analogia bíblica profunda: tal como o José do Egipto guardou o trigo para salvar o povo da fome, o José de Nazaré guardou o “Pão da Vida” para a salvação da humanidade. Como fruto prático deste documento, Leão XIII redigiu a famosa oração “A vós, São José, recorremos na nossa tribulação”, concedendo indulgências a quem a recitasse e prescrevendo a sua leitura após o Rosário durante o mês de outubro.

O Caminho para o Altar: João XXIII

Apesar da força da Quamquam Pluries, o nome de São José permanecia ausente da Oração Eucarística, a parte mais solene da Missa. Foi o Papa João XXIII quem, em 1962, durante as sessões do Concílio Vaticano II, decidiu inserir o nome do Santo no Cânone Romano (Oração Eucarística I). Esta foi uma decisão de enorme impacto, pois o texto do Cânone não sofria alterações significativas há mais de mil anos. João XXIII desejava que o protetor da Sagrada Família fosse também o protetor da renovação conciliar.

A Plenitude Litúrgica com Francisco e Bento XVI

Contudo, após a reforma litúrgica de Paulo VI, as novas Orações Eucarísticas (II, III e IV) — as mais utilizadas no quotidiano das paróquias — não incluíram inicialmente a menção ao Santo. Esta lacuna foi finalmente preenchida a 1 de maio de 2013, através do decreto Paternas vices.

Embora o decreto tenha sido promulgado sob o pontificado do Papa Francisco, ele concretizou um desejo expresso pelo Papa Bento XVI, que acolhera inúmeras petições de fiéis e teólogos. Com esta mudança, o nome de São José passou a ser invocado obrigatoriamente logo após o da Virgem Maria em todas as principais Orações Eucarísticas do Missal Romano, com a fórmula: “com São José, seu esposo”.

Conclusão

Desde a fundamentação doutrinária de Leão XIII em 1889 até à reforma litúrgica de 2013, a Igreja percorreu um caminho de “justiça” para com aquele que a Bíblia chama de “O Justo”. Ao inscrever o seu nome no Missal, a Igreja reconhece que o mistério da Eucaristia, que atualiza o sacrifício de Cristo, está intimamente ligado àquele que primeiro segurou o Salvador nos braços. José já não é apenas uma figura do presépio; é uma presença viva e constante no coração do mistério eucarístico.

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