Neste dia, em 1886, o Papa Leão XIII proclamava São Camilo de Lellis como Padroeiro dos Enfermos

No dia 22 de junho de 1886, o Papa Leão XIII, num pontificado marcado pela atenção às realidades sociais e caritativas, emitiu um Breve Apostólico que teria um impacto duradouro no mundo da saúde e da fé católica. Através deste documento, ele proclamou solenemente São Camilo de Lellis como o Padroeiro Celestial de todos os Hospitais e Enfermos.

Esta proclamação foi um reconhecimento formal da Igreja a uma vida que revolucionou o conceito de cuidado aos doentes no século XVI, introduzindo a dignidade e o amor como elementos essenciais da assistência médica. Leão XIII, que já havia proclamado São Vicente de Paulo como patrono das sociedades de caridade no ano anterior, completou a díade da misericórdia organizada, oferecendo modelos para a caridade social e para a assistência hospitalar.

A Conversão e a Vocação para a Enfermagem

A vida de Camilo de Lellis (1550-1614) foi, ela própria, um testemunho de conversão e redenção. Filho de um oficial militar, Camilo cresceu sem grandes cuidados maternos e com uma educação negligenciada. A sua juventude foi marcada pelo jogo compulsivo e uma vida desregrada, seguindo a carreira militar como mercenário.

Após uma úlcera persistente no pé o incapacitar para o serviço militar, Camilo procurou tratamento no Hospital de Santiago dos Incuráveis, em Roma. Lá, a sua conduta indisciplinada levou à sua expulsão. Contudo, em 1575, uma experiência de conversão profunda ao ouvir um sermão franciscano mudou radicalmente o rumo da sua vida.

Regressou ao hospital, mas desta vez com uma nova vocação: servir os doentes. Camilo ficou chocado com as condições desumanas e a negligência a que os pacientes estavam sujeitos. Os enfermeiros da época eram muitas vezes prisioneiros ou pessoas sem vocação, que viam o seu trabalho como uma obrigação penosa. Camilo sentiu o chamado para mudar esta realidade, introduzindo um “cuidado com o coração”, vendo em cada enfermo o próprio Cristo sofredor.

A Revolução do Cuidado: A Ordem Camiliana

Motivado pela sua visão, Camilo fundou a “Companhia dos Servos dos Pobres Enfermos”, que mais tarde se tornaria a Ordem dos Clérigos Regulares Ministros dos Enfermos (os Padres Camilianos), aprovada em 1586 e com votos solenes em 1591.

A inovação de São Camilo foi notável:

  • O Quarto Voto: Para além dos votos tradicionais de pobreza, castidade e obediência, os camilianos faziam um quarto voto de “servir os pobres enfermos, mesmo com perigo da própria vida”.
  • Assistência Integral: Camilo enfatizava o cuidado do corpo e da alma. Para ele, a capela era o quarto do doente e o altar era a cama onde Cristo jazia.
  • Dignidade e Respeito: Insistiu na limpeza, na higiene e na gentileza, elevando o ato de enfermagem de uma tarefa servil para um ministério sagrado.
  • Organização e Formação: Criou regras para o cuidado dos doentes e formou os seus religiosos com rigor, sendo considerado um precursor da moderna enfermagem e, por alguns, da Cruz Vermelha.

Leão XIII e a Estandardização da Caridade

A proclamação de 22 de junho de 1886 por Leão XIII deve ser entendida no contexto do seu vasto programa de resposta católica aos desafios da modernidade, que culminaria na Rerum Novarum. O Papa procurava não apenas inspirar caridade individual, mas sim promover a ação social e assistencial organizada da Igreja.

Ao declarar São Camilo patrono dos hospitais e enfermos, o Papa ofereceu um modelo de excelência para todas as instituições de saúde católicas e para os profissionais de saúde. A mensagem era clara: o cuidado do doente deve ser guiado pelo amor evangélico e pela competência profissional, princípios que Camilo incorporou séculos antes.

Impacto da Proclamação:

  • Reconhecimento do Ministério da Saúde: Elevou o cuidado dos doentes a um nível de missão e vocação sagrada dentro da Igreja.
  • Modelo para Profissionais: Ofereceu aos médicos, enfermeiros e capelães um intercessor e um modelo de dedicação abnegada.
  • Dignidade do Enfermo: Reforçou a importância de tratar os doentes com a máxima dignidade, uma lição que permanece vital na ética médica contemporânea.

Legado e Relevância Contínua

A 22 de junho de 1886 permanece uma data marcante que canonizou, em termos de padroado, o método e a espiritualidade de São Camilo de Lellis. O seu legado vive na Ordem Camiliana, que continua a servir em hospitais e missões de saúde em todo o mundo.

Numa era de avanços tecnológicos na medicina, a figura de São Camilo recorda-nos que o centro de todo o cuidado de saúde deve ser a pessoa humana sofredora. Ele continua a ser o “Doutor do Coração” que nos ensina que, para fazer o bem às almas, é preciso primeiro dar o necessário ao corpo que padece, e que o amor é a melhor de todas as terapias.

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