Neste dia, em 1884, o Papa Leão XIII escrevia a oração a São Miguel Arcanjo

A oração a São Miguel, atribuída ao Papa Leão XIII, é uma prece que pede a São Miguel Arcanjo que, pela virtude divina, defenda os fiéis das ciladas do demónio e os conduza à salvação. A oração foi inspirada por uma visão que o Papa Leão XIII teve, na qual viu espíritos malignos sobrevoando Roma, e foi publicada como parte das “Orações Leoninas“, rezadas após a Missa.  

Contexto histórico

O século XIX foi um tempo de intensas mudanças políticas e sociais na Europa. A Igreja Católica enfrentava a perda dos Estados Pontifícios, a crescente influência de ideologias anticlericais e o avanço do secularismo. Foi neste contexto que o Papa Leão XIII (pontificado de 1878 a 1903), um homem profundamente sensível ao combate espiritual, tomou a decisão de compor uma oração especial a São Miguel Arcanjo, o príncipe das milícias celestes.

A devoção a São Miguel já era antiga na Igreja, remontando ao século V, quando lhe foi dedicado o famoso Santuário do Monte Gargano, em Itália. Contudo, a oração que hoje é conhecida em todo o mundo nasceu de um acontecimento marcante e até misterioso, ocorrido em 13 de outubro de 1884, segundo testemunhos da época.

O episódio da visão de Leão XIII

Após celebrar a Missa na manhã de 13 outubro de 1884, Leão XIII, já idoso, ficou subitamente imóvel diante do altar, com o olhar fixo e expressão de pavor. Alguns testemunhos afirmam que o Papa parecia ter entrado em êxtase, permanecendo imóvel por cerca de dez minutos.

De acordo com relatos próximos ao Vaticano, Leão XIII teria tido uma visão sobrenatural. Satanás aparecia diante do trono de Deus e pedia permissão para tentar a Igreja durante cem anos, de modo a destruí-la.

Profundamente impressionado com esta experiência, Leão XIII dirigiu-se imediatamente ao seu gabinete e, ainda abalado, escreveu de próprio punho uma oração especial a São Miguel Arcanjo, pedindo proteção contra os ataques do maligno.

A composição da oração

A oração original composta por Leão XIII é mais longa do que a forma breve que se popularizou. Ela foi publicada pela primeira vez em latim e depois traduzida para as várias línguas da Igreja.

Forma breve (mais conhecida, de 1886):

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate; sede o nosso refúgio contra as maldades e ciladas do demónio. Ordene-lhe Deus, instantemente o pedimos; e vós, príncipe da milícia celeste, pela virtude divina, precipitai no inferno a Satanás e a todos os espíritos malignos, que andam pelo mundo para perder as almas. Ámen.

Esta versão foi integrada por Leão XIII às Orações Leoninas em 1886, tornando-se obrigatória após cada Missa rezada.

Forma longa (mais rara, publicada em 1890):

Além da versão curta, Leão XIII também compôs uma versão mais extensa, com linguagem de exorcismo, destinada ao uso em contextos específicos de combate espiritual. Nesta, pede-se explicitamente a libertação da Igreja e da sociedade do poder das forças infernais.
Esta oração foi incluída no Rituale Romanum de 1890 como parte das fórmulas de exorcismo simples, e ainda hoje pode ser utilizada por sacerdotes.

Sentido espiritual da oração

A criação da oração por Leão XIII não se deve apenas ao episódio da visão, mas também à sua convicção de que a Igreja enfrentava não apenas lutas políticas, mas sobretudo uma batalha espiritual.
São Miguel é evocado como:

  • Defensor da Igreja contra os ataques do maligno.
  • Protetor dos fiéis na luta diária contra o pecado.
  • Guia da Igreja militante para a vitória final em Cristo.

Difusão e obrigatoriedade

  • 1886 – Leão XIII acrescenta a Oração de São Miguel às Orações Leoninas, tornando a sua recitação obrigatória após a Missa rezada em todo o mundo.
  • 1930 – Pio XI orienta que a oração seja recitada “pela conversão da Rússia” diante da perseguição comunista.
  • 1964 – Após o Concílio Vaticano II, a obrigatoriedade é retirada pela Instrução Inter Oecumenici.

Apesar da supressão oficial, a oração nunca desapareceu da prática dos fiéis e permanece uma das mais difundidas do catolicismo.

Redescoberta no século XX

O Papa São João Paulo II deu um impulso renovado à oração. Em 24 de abril de 1994, após o Regina Caeli, disse:

“Peço a todos que não a esqueçam, mas que a recitem para obter ajuda na batalha contra as forças das trevas. Embora já não seja recitada no fim da Missa, convido a retomá-la em uso pessoal e comunitário.”

O próprio Papa Francisco, em 2018, também pediu aos fiéis que rezassem diariamente o Rosário em outubro, concluindo com a oração a São Miguel, como proteção contra os ataques do demónio à Igreja.

Conclusão

A Oração a São Miguel Arcanjo, criada por Leão XIII após a visão de 1884, é um dos mais poderosos testemunhos da consciência da Igreja sobre a realidade do combate espiritual.
Do seu contexto histórico de lutas políticas e culturais nasceu uma súplica que ultrapassou fronteiras e séculos, permanecendo viva até hoje como arma espiritual dos cristãos.

Seja na sua forma breve, recitada por milhões de fiéis, seja na sua versão longa, usada em ritos de exorcismo, a oração recorda-nos que a luta contra o mal não se vence apenas com forças humanas, mas com a proteção divina:

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate!

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