As Catacumbas de São Calisto, situadas na Via Ápia Antiga, em Roma, não são apenas um monumento de arqueologia cristã; são o testemunho silencioso da fé dos primeiros séculos. Este complexo, que se estende por cerca de 20 quilómetros de galerias em quatro níveis, guarda a memória de mártires e pontífices, tendo passado por um ciclo fascinante de glória, esquecimento e redescoberta.
A Fundação e a Administração de Calisto (Século II – III)
As origens do complexo remontam ao final do século II, quando a comunidade cristã de Roma começou a criar núcleos de sepulturas em terrenos privados. No entanto, a data fundamental é o início do século III, quando o Papa Zeferino confiou ao seu diácono, Calisto, a administração desta área na Via Ápia. Pela primeira vez, a Igreja possuía um cemitério comunitário e oficial, deixando de depender de terrenos de famílias nobres. Calisto organizou as galerias de forma sistemática, e o local acabou por receber o seu nome, tornando-se o coração logístico e espiritual da Roma cristã subterrânea.
O Período de Ouro e a Veneração dos Mártires (Séculos III – IV)
Durante o século III, São Calisto tornou-se o “Panteão” da Igreja primitiva. Foi aqui que se estabeleceu a Cripta dos Papas, servindo de repouso final para os sucessores de Pedro que enfrentavam as perseguições romanas. Após o Édito de Milão em 313, com a paz de Constantino, o local transformou-se num grandioso centro de peregrinação. Foram construídas escadas de acesso, lucernários para iluminação e decorações mais ricas. Fiéis de todo o império viajavam até aqui para rezar junto aos túmulos de figuras como Santa Cecília e o jovem mártir da Eucaristia, São Tarcísio, cujos restos mortais atraíam multidões.
As Invasões e a Transladação de Relíquias (Séculos VIII – IX)
A decadência do complexo começou com o declínio do Império Romano. Nos séculos VIII e IX, as catacumbas, situadas fora dos muros de proteção da cidade, tornaram-se vulneráveis aos saques das invasões bárbaras (como as dos Longobardos e Sarracenos). Para proteger os restos sagrados, os Papas tomaram uma decisão drástica: entre 750 e 850 d.C., milhares de relíquias de mártires e os corpos dos próprios pontífices foram retirados das catacumbas e transladados para as basílicas dentro das muralhas de Roma (como a de Santa Praxedes ou Santa Maria em Trastevere).
O Longo Milénio de Silêncio (Século X – 1849)
Com a saída das relíquias, o interesse religioso pelas catacumbas desapareceu. Sem manutenção e proteção, as entradas desmoronaram, a vegetação cobriu os acessos e o complexo de São Calisto mergulhou num esquecimento quase absoluto a partir do século X. Durante quase mil anos, a localização exata da Cripta dos Papas tornou-se um mito arqueológico. Embora alguns peregrinos e exploradores ocasionais tivessem visitado partes isoladas das catacumbas romanas nos séculos seguintes, o verdadeiro “coração” de São Calisto permaneceu selado e ignorado até à chegada providencial de Giovanni Battista de Rossi em meados do século XIX.
O “Pequeno Vaticano”: A Descoberta da Cripta dos Papas
O ponto de viragem na história moderna de São Calisto ocorreu no século XIX, pela mão de Giovanni Battista de Rossi, o pai da arqueologia cristã. Em 1849, De Rossi encontrou um fragmento de mármore com a inscrição “NELIUS MARTYR”, que identificou como pertencente ao Papa Cornélio. Este achado foi a bússola que o guiou até à maior descoberta da sua carreira.
A 6 de janeiro de 1852, o Papa Pio IX cria a Comissão de Arqueologia Sagrada para proteger estes locais.
A 11 de maio de 1854, após escavações meticulosas, De Rossi penetrou no que viria a chamar o “Pequeno Vaticano”: a Cripta dos Papas. Neste espaço sagrado, encontrou as lápides e os restos mortais de nove pontífices do século III (incluindo Ponciano, Antero, Fabiano, Lúcio e Eutiquiano). As inscrições originais em grego, a língua oficial da Igreja Romana naquela época, confirmaram que aquele fora o cemitério oficial da Igreja de Roma. A emoção da descoberta foi tal que o Papa Pio IX, ao visitar o local pouco depois, ajoelhou-se em lágrimas perante a evidência da continuidade histórica da sua cátedra.
Quem está sepultado?
A cripta serviu como local de repouso oficial para os sucessores de Pedro durante grande parte do século III. Estima-se que 16 papas tenham sido sepultados em todo o complexo de São Calisto, mas nesta cripta específica foram encontrados restos ou inscrições de 9 pontífices:
- Ponciano, Antero, Fabiano, Lúcio e Eutiquiano: cujas lápides originais foram identificadas.
- Sisto II: o mártir mais célebre do local, martirizado nas próprias catacumbas durante a perseguição de Valeriano em 258.
Características Arquitetónicas e Inscrições
- Inscrições em Grego: As lápides encontradas por De Rossi tinham inscrições em grego, que era a língua litúrgica e oficial da Igreja em Roma nos primeiros séculos.
- O Título “Mártir”: Em algumas lápides (como as de Fabiano e Ponciano), a abreviatura grega para “mártir” (MPT) foi acrescentada posteriormente, testemunhando o reconhecimento imediato do seu sacrifício pela comunidade.
- As Colunas e o Altar: No século IV, o Papa Dâmaso transformou a cripta num santuário, instalando quatro colunas esculpidas e um altar, cujas bases ainda são visíveis, para permitir a celebração da missa sobre os túmulos dos mártires.
A Epígrafe de São Dâmaso
Um dos elementos mais marcantes é a reprodução de uma grande inscrição em métrica poética deixada pelo Papa Dâmaso no século IV. No texto, ele exalta a memória dos mártires e termina com uma frase de profunda humildade:
“Eu, Dâmaso, desejaria ter aqui sepultado os meus restos, mas temo perturbar as cinzas santas dos mártires.”
O Estado de Conservação
Quando De Rossi descobriu a cripta em 11 de maio de 1854, ela estava preenchida até ao teto com terra e detritos acumulados durante mil anos. Após a limpeza, revelou-se um espaço retangular com várias lóculos (nichos de sepultura) nas paredes. Embora as relíquias tenham sido levadas para igrejas no século IX, as lápides quebradas e os fragmentos de mármore permitiram reconstruir a história do local com precisão científica.
Curiosidade: A Ligação com Santa Cecília
Imediatamente ao lado da Cripta dos Papas encontra-se a Cripta de Santa Cecília. Antigamente, estas duas salas estavam ligadas, permitindo que os peregrinos passassem da veneração aos chefes da Igreja para a veneração da famosa mártir romana, cujo corpo foi encontrado intacto séculos depois.
Paulo VI e a Memória dos Mártires
A relevância espiritual das catacumbas foi reafirmada no século XX por diversos pontífices, mas a visita de São Paulo VI em setembro de 1965 revestiu-se de um simbolismo especial. Ocorrendo nos meses finais do Concílio Vaticano II, a descida de Paulo VI às profundezas de São Calisto foi um gesto de regresso às origens. O Papa quis ligar as reformas do Concílio à “Igreja das Catacumbas”, lembrando que a Igreja do futuro devia ter a mesma coragem e simplicidade dos primeiros mártires. Este evento preparou o caminho para que, anos mais tarde, a gestão do local fosse consolidada sob o carisma dos Salesianos, garantindo que o local permanecesse um centro de evangelização activa.
Conclusão
As Catacumbas de São Calisto são um livro de pedra onde se lê a história da Igreja. Desde a sua fundação pelo diácono Calisto no século III, passando pelo seu abandono no século X devido às invasões, até à redescoberta triunfal de De Rossi em 1854, o local nunca deixou de falar ao coração da cristandade. A visita de Paulo VI em 1965 e a instituição da Via Lucis em 1990 lembram-nos que o testemunho dos papas e mártires ali sepultados continua vivo, convidando os peregrinos de hoje a serem, também eles, “caminhantes da luz” no mundo moderno.
