No dia 2 de novembro de 2019, o Papa Francisco quebrou uma tradição pessoal. Pela primeira vez desde o início do seu pontificado, em vez de celebrar a Missa de Fiéis Defuntos num cemitério monumental de Roma ou no Vaticano, o Santo Padre decidiu descer ao subsolo da Via Salaria para visitar as Catacumbas de Priscila. Este gesto, carregado de simbolismo, marcou a sua primeira visita oficial a uma catacumba enquanto Papa.
As Catacumbas de Priscila
Consideradas um dos mais impressionantes complexos arqueológicos da Roma Subterrânea, as Catacumbas de Priscila estendem-se por cerca de 13 quilómetros de túneis escavados em tufo, distribuídos por vários níveis. O local é célebre por albergar a “Capela Grega”, onde se encontram frescos do século II com uma vivacidade cromática impressionante, e pelo icónico nicho que conserva a representação mais antiga da Virgem Maria com o Menino Jesus.
Além do seu valor artístico, o complexo destaca-se pela sua densidade histórica: serviu de última morada a sete Papas e a inúmeros mártires, o que lhe conferiu o título de “Rainha das Catacumbas”. A estrutura revela hoje, através de restaurações modernas a laser, o quotidiano e a fé de uma comunidade que transformou as entranhas da terra num santuário de resiliência.
A Homilia: Memória, Esperança e Identidade
Durante a sua homilia, proferida de improviso, o Papa Francisco centrou-se em três conceitos fundamentais que as catacumbas evocam: a memória, a esperança e a identidade. Francisco sublinhou que celebrar os mortos numa catacumba é um exercício de memória que nos liga às nossas raízes. No entanto, alertou que essa memória não deve ser um saudosismo estéril, mas sim uma fonte de esperança. “As catacumbas”, afirmou o pontífice, “são lugares de esperança, porque ali se aguarda a ressurreição”.
O Papa também estabeleceu um paralelo doloroso com a atualidade. Recordou que a identidade cristã continua a ser testada em muitas partes do mundo, referindo-se aos “cristãos de hoje que sofrem perseguições, talvez mais do que nos primeiros séculos”, e que são forçados a viver a sua fé em segredo.
Um Elo com o Legado de Paulo VI
Embora a visita de Francisco tenha tido um caráter mais litúrgico do que a visita programática de Paulo VI em 1965, ambas partilham a mesma premissa: a necessidade de a Igreja se reconhecer na pobreza e na simplicidade. Ao celebrar entre os túmulos dos mártires, Francisco reafirmou a sua visão de uma “Igreja em saída”, que não teme as periferias — nem mesmo as do subsolo.
Conclusão
A visita às Catacumbas de Priscila permanece como um dos momentos mais marcantes da agenda espiritual de Francisco. Ao emergir daquelas galerias milenares, o Papa deixou uma mensagem clara: a Igreja só pode caminhar para o futuro se souber honrar o silêncio e o sacrifício daqueles que a construíram na obscuridade. Foi um dia em que o sucessor de Pedro voltou às fundações de uma fé que, como ele próprio disse, “não é uma ideia, mas uma vida que se vive na esperança”.
