Neste dia, em 1826, o Papa Leão XII visitava as oficinas de Thorvaldsen

Na manhã de 18 de outubro de 1826, o pó de mármore das oficinas da Piazza Barberini, em Roma, foi testemunha de um encontro improvável. O Papa Leão XII, conhecido pelo seu rigor e conservadorismo, quebrou o protocolo do Vaticano para visitar o estúdio do maior escultor da época: o dinamarquês Bertel Thorvaldsen. O que tornava este gesto extraordinário era o facto de Thorvaldsen ser luterano, um “estrangeiro” do norte, cujas mãos estavam a esculpir o repouso eterno de um Pontífice no coração da Basílica de São Pedro.

O Cenário na Piazza Barberini

As oficinas de Thorvaldsen eram, na década de 1820, o destino obrigatório de reis, intelectuais e artistas que visitavam Roma. Ocupando antigos estábulos e estúdios perto do Palácio Barberini, o local fervilhava com modelos em gesso de deuses gregos e figuras bíblicas.

Quando o cortejo papal chegou, Thorvaldsen recebeu Leão XII com a dignidade de quem sabia que a arte era uma linguagem universal. O Papa percorreu as salas, admirando as formas neoclássicas puras que devolviam a Roma a glória da escultura antiga. Foi um momento de reconhecimento absoluto: a Igreja Católica, através do seu líder máximo, rendia homenagem ao talento de um artista que, embora de outra confissão, captava como ninguém a solenidade do sagrado.

O Monumento a Pio VII: O Coração da Visita

O motivo central que levou Leão XII ao ateliê foi o acompanhamento dos trabalhos do Monumento Funerário de Pio VII. Esta obra, encomendada pelo Cardeal Consalvi (secretário de Estado de Pio VII), foi uma escolha audaz e polémica na época, precisamente por ter sido entregue a um não-católico.

Ao observar os modelos da obra, Leão XII pôde contemplar a grandiosidade da composição:

  • O Papa Entronizado: Pio VII aparece sentado, em atitude de oração e humildade, despojado de triunfalismos excessivos.
  • As Alegorias: Ladeando o trono, as figuras da Fortaleza (vestida com a pele de um leão) e da Sabedoria Divina (com o livro da lei) personificam as virtudes do falecido pontífice.
  • O Estilo: Thorvaldsen impôs um rigor neoclássico que contrastava com os túmulos barrocos adjacentes na Basílica de São Pedro, trazendo uma nova serenidade à arte fúnebre papal.

Um Legado de Ecumenismo Artístico

A visita de 1826 silenciou as críticas de quem achava impróprio que um luterano erguesse um monumento num local tão sagrado. Leão XII, ao abençoar o trabalho de Thorvaldsen naquela manhã de outubro, afirmou que a Beleza é um caminho para Deus que transcende fronteiras dogmáticas.

O Monumento a Pio VII foi finalmente instalado na Capela Clementina da Basílica de São Pedro em 1831, permanecendo até hoje como a única obra de um artista não-católico naquele templo, um testemunho eterno do dia em que um Papa cruzou a praça para saudar um mestre da pedra.

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