A Basílica do Sagrado Coração de Jesus, mais conhecida como a Basílica da Estrela, é um dos ícones arquitetónicos de Lisboa, mas a sua importância transcende a beleza do seu estilo tardo-barroco e neoclássico. A sua consagração, a 15 de novembro de 1789, marcou um momento inédito na história da Igreja Católica: foi o primeiro templo no mundo a ser formalmente consagrado com o título do Sagrado Coração de Jesus.
Introdução: Uma Promessa de Rainha
A história da Basílica da Estrela começa com um voto solene feito pela Rainha D. Maria I de Portugal. Consumida pela ansiedade de garantir um herdeiro varão que assegurasse a continuidade da dinastia de Bragança, a rainha prometeu a Deus que, se o seu desejo fosse atendido, ergueria um majestoso templo em honra do Sagrado Coração de Jesus.
A graça foi concedida com o nascimento do príncipe D. José em 1761. Embora a construção só tenha começado em 1779 e o príncipe tenha morrido tragicamente antes da conclusão do edifício em 1789, a rainha manteve a sua promessa. A basílica ergueu-se como um monumento de gratidão e devoção real.
A Consagração e um Título Inédito
A 15 de novembro de 1789, a basílica foi solenemente consagrada numa cerimónia que durou vários dias, com grande pompa e a presença da corte. O que torna este evento único na história eclesiástica é o seu título oficial: Basílica do Sagrado Coração de Jesus.
A devoção ao Sagrado Coração de Jesus, embora já popularizada em França através das revelações a Santa Margarida Maria Alacoque no século XVII, e incentivada por vários papas, ainda não tinha um templo principal dedicado em todo o mundo católico.
O gesto da Rainha D. Maria I e a consagração do templo em Lisboa foram, assim, um ato pioneiro. A Basílica da Estrela tornou-se o farol global desta devoção, antecipando em quase um século a instituição da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus como festa universal pela Igreja.
O Impacto da Devoção
A escolha do título da basílica reflete a profundidade da fé da rainha e o crescente interesse pela devoção ao Sagrado Coração, que enfatiza o amor misericordioso de Cristo pela humanidade. A construção do templo em Lisboa contribuiu significativamente para a difusão desta prática devocional em Portugal e no Império Português, influenciando outras construções e a piedade popular.
A proeminência da basílica ajudou a cimentar a devoção na consciência católica global, preparando o terreno para a sua aceitação universal posterior.
O Presépio Monumental de Machado de Castro
Além do seu significado religioso e arquitetónico, a basílica é um importante repositório de arte sacra portuguesa. Numa sala anexa à basílica, os visitantes podem admirar uma das obras de arte mais extraordinárias do património nacional: o monumental presépio da autoria do mestre escultor Joaquim Machado de Castro (1731–1822), um dos maiores artistas portugueses do seu tempo.
A obra é fascinante não só pela sua escala, mas pela sua composição. Formado por mais de 500 figuras esculpidas em cortiça e terracota, o presépio oferece uma representação detalhada e quase etnográfica da sociedade portuguesa da época, juntamente com a cena tradicional da Natividade. É uma peça de arte que capta o espírito do século XVIII e a genialidade do seu criador, sendo um dos maiores e mais valiosos presépios do mundo.
Conclusão: Um Monumento de Fé e Inovação
A Basílica da Estrela, com a sua cúpula icónica e o seu inestimável presépio, é um tesouro de Lisboa. Contudo, o seu maior legado reside no seu pioneirismo espiritual. Consagrada a 15 de novembro de 1789, foi a primeira igreja no mundo a ostentar o título do Sagrado Coração de Jesus. Permanece como um testemunho duradouro do voto de uma rainha e um marco na história da devoção católica, um local onde a arquitetura, a arte e a fé se encontram no coração de Lisboa.
