A Procissão de Nossa Senhora da Saúde, uma das mais antigas e emblemáticas manifestações religiosas de Lisboa, tem as suas origens no século XVI, nascido de um profundo ato de fé e gratidão do povo lisboeta. O seu início remonta a 1570, ano em que, pela primeira vez, se realizou uma procissão em honra de Nossa Senhora da Saúde, em cumprimento de um voto feito durante um período de grande aflição causado pela peste que assolava a cidade.
Contexto histórico: Lisboa assolada pela peste
Durante a segunda metade do século XVI, Lisboa foi várias vezes atingida por epidemias devastadoras. Em 1569, uma violenta peste bubónica espalhou-se pela capital portuguesa, provocando a morte de milhares de pessoas. O pânico e o sofrimento eram tais que muitos acreditavam estar a viver um castigo divino.
Perante a doença, um grupo de artilheiros prometeu erigir uma capela em honra de Nossa Senhora da Saúde se fossem poupados à epidemia. A construção da Capela de Nossa Senhora da Saúde (também conhecida como Ermida de Nossa Senhora da Saúde ou Capela de São Sebastião) e a instituição da procissão foram o cumprimento dessa promessa.
Pouco tempo depois, a epidemia começou a ceder, e, em sinal de gratidão, cumpriu-se o prometido: nasceu assim a Procissão de Nossa Senhora da Saúde.
Devido à sua origem e à ligação com o voto dos artilheiros, a procissão é também conhecida como Procissão dos Artilheiros de São Jorge, e a presença de militares das Forças Armadas, GNR, PSP e Bombeiros, juntamente com bandas militares, é uma das suas características distintivas, evidenciando o seu forte cunho militar e cívico
A primeira procissão – 1570
A primeira Procissão de Nossa Senhora da Saúde teve lugar a 20 de abril de 1570, percorrendo as ruas de Lisboa com grande devoção popular. A imagem mariana, que viria a ser venerada sob a invocação de Nossa Senhora da Saúde e de São Sebastião, foi levada solenemente até ao local onde hoje se ergue a Igreja de Nossa Senhora da Saúde, junto ao Martim Moniz.
O povo de Lisboa acorreu em massa à procissão, que rapidamente se tornou uma das mais participadas da cidade. O cortejo era acompanhado por autoridades civis, religiosas e militares, em sinal de ação de graças pela cessação da peste.
O Percurso e a Celebração
O cortejo processional tem um percurso tradicional de cerca de 1600 a 2000 metros pelas artérias históricas da cidade, partindo e regressando à Capela de Nossa Senhora da Saúde, no Poço do Borratem. O itinerário típico inclui:
- Rua do Benformoso
- Rua da Palma
- Praça da Figueira
- Rua dos Condes de Monsanto
- Poço do Borratem (regresso à Capela)
Além da imagem de Nossa Senhora da Saúde, a procissão incorpora outros andores, como os de Santa Ana, Santo António, Santa Bárbara, São Sebastião e uma imagem de São Jorge a cavalo.
A procissão é um evento popular, muito ligado ao povo da Mouraria, e a sua importância cultural é tal que foi eternizada no fado “Há festa na Mouraria”, interpretado por Amália Rodrigues. Na noite anterior à procissão principal, realiza-se habitualmente a Procissão das Velas, que segue um percurso diferente, da Capela de Nossa Senhora da Saúde até à Igreja de São Domingos.
A procissão foi interrompida em alguns períodos da história portuguesa. Ela realizou-se até 1910, altura em que foi interrompida na sequência da Implantação da República, só se retomando a devoção em 1940, e em 1974, após a Revolução dos Cravos, interromper-se-ia uma segunda vez até 1981. Também, mais recentemente, durante a pandemia de COVID-19, mas regressou às ruas, mantendo viva uma tradição secular da capital. Figuras públicas, como o Presidente da República, costumam acompanhar o cortejo, realçando a sua relevância institucional.
A devoção e o templo de Nossa Senhora da Saúde
A imagem de Nossa Senhora da Saúde passou a ser venerada numa pequena ermida construída para o efeito, inicialmente ligada à Confraria de São Sebastião, o santo tradicionalmente invocado contra as epidemias. Com o tempo, a devoção mariana cresceu de tal forma que, em 1662, foi fundada a Real Irmandade de Nossa Senhora da Saúde e de São Sebastião, que passou a organizar anualmente a procissão.
Mais tarde, a ermida deu lugar à atual Igreja de Nossa Senhora da Saúde, situada no Largo Martim Moniz, cuja construção foi concluída no século XVIII, preservando o espírito e a tradição original da devoção lisboeta.
Significado e espiritualidade da procissão
Desde a sua origem, a procissão tem representado um voto de fé, esperança e agradecimento. A figura de Nossa Senhora da Saúde tornou-se símbolo de proteção divina em tempos de aflição e doença, invocada não só contra a peste, mas também contra todas as enfermidades físicas e espirituais.
O cortejo processional, que anualmente percorre as ruas da Mouraria e da Baixa lisboeta, é um momento de profunda religiosidade popular, reunindo confrarias, ordens religiosas, autoridades e milhares de fiéis.
A tradição ao longo dos séculos
A Procissão de Nossa Senhora da Saúde é, ainda hoje, uma das mais antigas tradições religiosas vivas de Lisboa, com mais de 450 anos de história ininterrupta — apenas suspensa em raros períodos, como durante guerras ou pandemias.
Durante o século XVIII, a procissão adquiriu caráter oficial, com a presença da Casa Real Portuguesa, tornando-se um dos eventos religiosos mais importantes do calendário lisboeta. A devoção espalhou-se também por outras regiões do país, onde surgiram capelas e festas dedicadas a Nossa Senhora da Saúde.
Mesmo nos séculos XX e XXI, a procissão mantém uma forte adesão popular. A Real Irmandade de Nossa Senhora da Saúde e de São Sebastião continua a organizar o evento, que ocorre geralmente no primeiro domingo de maio, saindo da Igreja dos Mártires e terminando na Igreja da Saúde.
Curiosidades históricas
- A primeira imagem de Nossa Senhora da Saúde foi talhada em madeira e vestida com trajes nobres, símbolo da realeza espiritual de Maria.
- O padrinho régio da Irmandade foi, durante séculos, o Rei de Portugal, o que demonstra o prestígio da devoção.
- A procissão foi considerada, por muitos cronistas, “a mais antiga e venerável de Lisboa”, tendo sobrevivido ao Terramoto de 1755.
- A devoção inspirou ainda outras celebrações em Portugal e no estrangeiro, especialmente entre comunidades portuguesas emigradas.
Conclusão
A Procissão de Nossa Senhora da Saúde, iniciada em 1570, é muito mais do que uma tradição religiosa: é um símbolo da gratidão e da fé do povo lisboeta perante as adversidades da história.
Nascida do sofrimento causado pela peste, transformou-se numa celebração de esperança e vida nova, perpetuando a confiança na intercessão materna de Maria.
Mais de quatro séculos depois, o voto de 1570 continua a cumprir-se, ano após ano, como testemunho vivo da ligação profunda entre Lisboa, Nossa Senhora e a fé cristã.
