Neste dia, em 1258, as relíquias dos ossos de São Tomé eram transladadas para a Itália

A história de São Tomé, frequentemente lembrado pela sua dúvida inicial sobre a Ressurreição de Cristo, é uma narrativa notável de fé que o levou aos confins do mundo conhecido. A sua vida terminou na Índia, onde sofreu o martírio, mas a história dos seus restos mortais é uma odisseia fascinante que atravessa continentes e séculos, desde Mylapore a Edessa, Chios e, finalmente, Ortona, em Itália, onde a maioria das suas relíquias repousa hoje.

Introdução: O Apóstolo Missionário

Tomé, cujo nome em aramaico significa “gémeo”, é uma figura bíblica que se destaca pela sua honestidade e pelo seu desejo de evidências tangíveis (“Se não vir o sinal dos pregos nas suas mãos… não acreditarei“, Jo 20, 25). Depois de encontrar o Cristo ressuscitado e fazer a sua profissão de fé (“Meu Senhor e meu Deus!“, Jo 20, 28), Tomé tornou-se um dos mais zelosos missionários da Igreja primitiva.

A tradição, fortemente enraizada na Índia, atesta que Tomé viajou para o Oriente para pregar o Evangelho, chegando a Kerala por volta de 52 d.C. Ali fundou comunidades cristãs que existem até hoje — os “Cristãos de São Tomé” ou a Igreja Siro-Malabar. A sua missão terminou em martírio em Mylapore (perto da atual Chennai), cerca de 72 d.C., onde foi morto com uma lança. A data tradicional do seu martírio, 3 de julho, é hoje a sua festa litúrgica principal.

A Primeira Transladação: De Mylapore a Edessa (232 d.C.)

Após a sua morte, o corpo de São Tomé foi sepultado em Mylapore. No entanto, o seu túmulo não permaneceu na Índia para sempre. A 3 de julho de 232 d.C., as relíquias foram transladadas de Mylapore para a cidade de Edessa, na Mesopotâmia (atual Şanlıurfa, na Turquia).

Esta transladação foi um evento significativo para a cristandade oriental. Edessa tornou-se um importante centro de veneração de São Tomé. A presença das suas relíquias atraiu peregrinos e contribuiu para a difusão da devoção ao apóstolo no Médio Oriente. A data de 3 de julho passou a ser celebrada tanto como o dia do seu martírio quanto o dia da chegada das suas relíquias a Edessa.

A Dispersão e a Viagem para Ocidente: Chios e Ortona (Séculos XII e XIII)

Com o passar dos séculos e a mudança dos contextos geopolíticos, as relíquias de São Tomé tornaram-se vulneráveis. Por volta de 1141, com a ameaça crescente de conflitos na região de Edessa, os restos mortais foram movidos novamente para a segurança relativa da ilha grega de Chios (Quio).

A paragem em Chios foi temporária. A história das relíquias tomou um rumo decisivo a 6 de setembro de 1258, durante um período de instabilidade na ilha. Marinheiros da cidade portuária italiana de Ortona, liderados pelo capitão Leone degli Acciaioli, saquearam a ilha. O capitão, motivado por fervor religioso e talvez pela oportunidade de garantir um tesouro espiritual para a sua cidade, levou a maior parte do esqueleto do apóstolo.

As relíquias chegaram a Ortona a 6 de setembro de 1258, e foram recebidas com grande veneração. Foram instaladas na igreja principal da cidade, que mais tarde se tornaria a Basílica de São Tomé Apóstolo em Ortona. A cidade de Ortona tornou-se, a partir daí, o principal centro de custódia e veneração das relíquias do apóstolo no Ocidente.

A Sobrevivência à Guerra e a Veneração Moderna

As relíquias sobreviveram a vários conflitos ao longo dos séculos. Um episódio notável ocorreu a 20 de dezembro de 1943, durante a Batalha de Ortona na Segunda Guerra Mundial, quando a catedral foi severamente danificada, mas a cripta que guardava os ossos permaneceu intacta.

Hoje, a maior parte do corpo de São Tomé repousa em Ortona. Um osso (um fragmento do crânio) foi devolvido à Índia pelo Papa Paulo VI em 1964, como um gesto ecuménico e de reconhecimento da origem da missão do apóstolo. Outras pequenas porções encontram-se em vários locais do mundo, incluindo a Índia e a Grécia.

Conclusão

A história das relíquias de São Tomé é uma epopeia que reflete o dinamismo da fé cristã e a geografia da sua expansão. Desde o seu martírio na Índia no século I, passando pelas cidades do Médio Oriente e ilhas gregas, até encontrar o seu descanso final em Ortona no século XIII, a sua jornada simboliza a missão universal da Igreja. O “Apóstolo da Dúvida” tornou-se um dos maiores evangelizadores, e as datas de 3 de julho e 6 de setembro marcam a memória do seu sacrifício e da sua presença contínua entre os fiéis que buscam a sua intercessão.

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