A Igreja celebra hoje a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

Ontem a Igreja celebrou a vitória, hoje volta os olhos para os que ainda caminham para ela. A Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, popularmente conhecida como Dia de Finados, é o dia em que a Igreja reza, em conjunto, por todas as almas que já morreram, sobretudo por aquelas que a tradição chama “esquecidas”, sem ninguém que já reze por elas.

Origem histórica

A prática de rezar pelos mortos é muito anterior a esta data. Já o segundo livro dos Macabeus, no Antigo Testamento, descreve Judas Macabeu a mandar oferecer um sacrifício pelos soldados caídos, “para que fossem livres do pecado” (2 Mac 12, 46), texto que a tradição cristã sempre usou para justificar a oração pelos falecidos. Nos primeiros séculos da Igreja, era comum recordar os mortos nas próprias liturgias e nos aniversários da sua morte.

A data fixa de 2 de novembro, porém, nasce de uma decisão concreta. Em 998, Santo Odilão, abade do mosteiro de Cluny, em França, instituiu nas casas dependentes da sua abadia uma comemoração anual por todos os fiéis defuntos, a realizar-se no dia seguinte ao de Todos os Santos. A prática espalhou-se rapidamente por outros mosteiros e, ao longo dos séculos XII e XIII, foi adoptada por toda a Igreja latina.

Uma particularidade histórica marca este dia até hoje. Em 1915, no meio da Primeira Guerra Mundial e do enorme número de mortos que ela produzia, o Papa Bento XV concedeu a todos os sacerdotes a possibilidade de celebrar três Missas neste dia, privilégio que normalmente não existe. A decisão reflectia a urgência pastoral de um tempo marcado pela morte em massa.

A festa na liturgia de hoje

Ao contrário da maioria dos dias do calendário, hoje a Igreja oferece várias combinações possíveis de leituras, a escolher consoante a comunidade. Mas o tom é sempre o mesmo.

O Livro da Sabedoria garante que “as almas dos justos estão nas mãos de Deus e nenhum tormento as poderá atingir” (Sb 3, 1). São Paulo, na Carta aos Romanos, liga a morte e ressurreição de Cristo à esperança de quem morre unido a Ele. E o Evangelho de São João traz uma promessa directa, colocada na boca do próprio Jesus, “não perderei nenhum dos que Ele me deu, mas hei de ressuscitá-los no último dia“ (Jo 6, 39).

Significado teológico

  • A comunhão dos santos. A Igreja professa, desde o Credo, que a morte não quebra os laços entre os crentes. Existe uma só Igreja em três estados, a peregrina (os que vivem na terra), a purgante (os que se purificam antes de ver Deus face a face) e a triunfante (os que já estão na glória). A oração de hoje é um acto concreto dessa comunhão.
  • A purificação depois da morte. A doutrina do Purgatório, muitas vezes mal compreendida, não é um segundo inferno nem um castigo adicional. É a afirmação de que o amor de Deus pode continuar a purificar quem morre já salvo mas ainda não plenamente pronto para a comunhão total com Ele.
  • A oração como acto de caridade. Rezar pelos mortos não é apenas consolo para quem chora. É, segundo a fé católica, um verdadeiro auxílio espiritual que pode ser oferecido a quem já partiu, um dos poucos gestos de caridade que atravessam a própria fronteira da morte.

As indulgências associadas a este dia

A Igreja liga a este período do ano uma prática espiritual antiga e muito concreta, a indulgência plenária aplicável às almas do Purgatório. Nos termos actuais, quem visita um cemitério e reza pelos defuntos pode obter uma indulgência plenária, aplicável exclusivamente às almas do Purgatório, em qualquer um dos oito dias entre 1 e 8 de novembro, desde que cumpridas as condições habituais, confissão sacramental, comunhão eucarística, oração pelas intenções do Papa e ausência de apego a qualquer pecado, mesmo venial. Nos restantes dias do ano, a mesma visita ao cemitério concede apenas indulgência parcial.

Existe ainda uma segunda indulgência plenária, específica do dia 2 de novembro, para quem visita uma igreja ou oratório e reza um Pai Nosso e o Credo, nas mesmas condições. É, na prática, um convite da Igreja a transformar a visita ao cemitério, tantas vezes feita por hábito ou por saudade, num acto espiritual com efeito real segundo a fé católica.

Como viver a festa hoje

  • Visitar o cemitério onde estão sepultados familiares ou amigos, levando a oração, não apenas as flores.
  • Participar na Missa, hoje celebrada em muitas paróquias precisamente pelas intenções de todos os defuntos da comunidade.
  • Rezar o terço pelos falecidos, dedicando cada mistério a uma pessoa ou grupo de pessoas específico.
  • Procurar cumprir as condições da indulgência plenária, se for essa a intenção, nomeadamente a confissão e a comunhão nos dias próprios.
  • Lembrar os “esquecidos”, quem morreu sem família que reze por ele, vítimas anónimas, ou apenas alguém de quem já ninguém mais se lembra pelo nome.

Um testemunho

Conta a tradição ligada à origem desta festa que um eremita, regressando de Jerusalém, terá sido levado por uma tempestade a uma ilha onde ouviu vozes de demónios a queixarem-se de que as orações dos monges de Cluny lhes arrancavam almas das mãos. Terá sido esse relato, chegado a Santo Odilão, que o levou a instituir a comemoração. É um episódio de contornos lendários, como tantos da hagiografia medieval, mas que a Igreja conservou precisamente porque traduz, de forma narrativa, uma convicção teológica séria, a oração dos vivos tem poder real sobre a sorte dos mortos.

Conclusão

A Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos não é um dia de tristeza sem esperança, mas de esperança que não finge que a morte não dói. A Igreja reza hoje, sem pressa, por todos os que já partiram, confiando que nenhuma alma se perde no esquecimento de Deus.

Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno, e que a luz perpétua os ilumine.

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