Neste dia, em 1965, cerca de 40 bispos assinaram o Pacto das Catacumbas

A 16 de novembro de 1965, a poucos dias do encerramento do Concílio Vaticano II, um grupo de cerca de 40 bispos de todo o mundo reuniu-se nas Catacumbas de Santa Domitila, em Roma. Longe das luzes da Basílica de São Pedro e do fausto cerimonial do Vaticano, estes prelados celebraram a Eucaristia no silêncio dos túmulos dos mártires. No final da celebração, assinaram um documento que viria a mudar o curso da história eclesiástica moderna: o Pacto das Catacumbas.

Um Gesto Contra a Corrente

Este compromisso, intitulado originalmente “Pacto por uma Igreja serva e pobre”, surgiu como uma resposta direta ao apelo de João XXIII por uma “Igreja dos pobres”. Liderados pelo carismático bispo brasileiro D. Hélder Câmara, os signatários sentiam que as reformas do Concílio precisavam de um testemunho pessoal radical por parte da hierarquia.

Ao escolherem as catacumbas, estes bispos procuravam um regresso simbólico à pureza do cristianismo primitivo. Ali, onde os primeiros cristãos se reuniam em tempos de perseguição, sem poder político ou riqueza material, o pacto foi selado como uma promessa de despojamento.

Os Treze Compromissos do Despojamento

O texto do pacto é composto por 13 pontos que visavam transformar o modo como um bispo exerce o seu ministério. Entre as promessas mais contundentes estavam:

  1. A Pobreza Pessoal: O compromisso de viver numa habitação comum, de comer de forma simples e de utilizar meios de transporte humildes.
  2. A Renúncia aos Títulos: A rejeição de nomes que evocassem poder ou prestígio, como “Eminência”, “Excelência” ou “Monsenhor”, preferindo ser tratados apenas como “Padre” ou “Bispo”.
  3. O Despojamento de Símbolos: A renúncia ao uso de ouro ou prata nas vestes e insígnias, substituindo-os por materiais simples.
  4. A Justiça Social: O dever de colocar a luta pelos direitos dos pobres e subdesenvolvidos no centro da ação pastoral, sem nunca se aliarem a regimes ou elites que perpetuassem a desigualdade.

Para os signatários, a Igreja não poderia ser uma voz credível de esperança se estivesse presa a privilégios medievais ou alianças financeiras obscuras.

Do Silêncio ao Legado Global

Curiosamente, o Pacto das Catacumbas não foi amplamente divulgado pelos canais oficiais do Vaticano na época. Paulo VI, embora simpático à causa (como demonstrara na sua própria visita às catatumbas meses antes), preferiu não formalizar o documento como norma canónica para evitar divisões no seio do episcopado.

No entanto, o pacto espalhou-se como fogo em palha seca através das redes informais de bispos. Em pouco tempo, o número de signatários subiu de 40 para mais de 500. Este documento tornou-se a carta magna que fundamentou a Conferência de Medellín em 1968 e deu o impulso decisivo para a Teologia da Libertação na América Latina e para as Comunidades Cristãs de Base.

A Ressonância no Pontificado de Francisco

Durante décadas, o espírito das catacumbas pareceu adormecido, mas nunca desapareceu. Com a eleição do Papa Francisco em 2013, o pacto voltou ao centro do debate. Ao escolher o nome de Francisco de Assis, ao abdicar do palácio apostólico e ao insistir numa “Igreja pobre para os pobres”, o atual pontífice está, na prática, a viver os pontos estabelecidos em 1965.

Em 2019, durante o Sínodo para a Amazónia, um grupo de bispos renovou este compromisso nas mesmas catacumbas, provando que o Pacto das Catacumbas não é uma relíquia do passado, mas um programa de reforma contínua. Ele permanece como um lembrete desconfortável e necessário de que o verdadeiro poder da Igreja não reside na sua pedra, mas na sua proximidade com aqueles que sofrem.

Conclusão

Em suma, o Pacto das Catacumbas representa um dos momentos mais proféticos e desassossegadores da história contemporânea da Igreja Católica. Mais do que um documento de intenções, foi um grito de consciência que recordou à instituição a sua verdadeira essência: a de ser uma “Igreja serva”, despida de triunfalismos e privilégios.

Embora tenha nascido na penumbra do subsolo romano, a luz deste compromisso atravessou décadas, influenciando gerações de pastores que viram na pobreza evangélica não uma carência, mas uma forma superior de liberdade. Hoje, numa era marcada por crises de credibilidade e profundas desigualdades globais, o espírito daquelas quarenta assinaturas originais permanece mais atual do que nunca. O pacto continua a interpelar não apenas a hierarquia, mas todos os fiéis, a redescobrirem que o caminho para o futuro da fé passa, invariavelmente, pelo regresso à simplicidade e pela solidariedade radical com os descartados da sociedade.

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