Neste dia, em 1897, as coroações pontificas eram incluídas no Pontifical Romano

A coroação do Papa foi, durante quase um milénio, o rito culminante que sinalizava a ascensão de um novo Pontífice ao trono de São Pedro. A sua inclusão e posterior evolução no Pontifical Romano (o livro que prescreve os ritos episcopais) espelham a complexa relação entre o poder espiritual e a soberania temporal da Igreja.

Origens e o “Ordo Romanus” (Séculos IX a XI)

Nos primeiros séculos, a posse do Bispo de Roma limitava-se à sua consagração episcopal e entronização. Contudo, a partir do século IX, influenciada pelos ritos imperiais carolíngios, surge a necessidade de um sinal visível de autoridade soberana.

O rito inicial era simples e centrado no Phrygium (um barrete branco cónico), que evoluiria para a tiara. Nesta fase, a coroação ocorria frequentemente fora da basílica, na escadaria de São Pedro, marcando a distinção entre a ordem sagrada (bispo) e o encargo de governo (soberano).

A Formalização no Pontifical da Cúria (Séculos XII a XIII)

Com a reforma gregoriana e o aumento do prestígio papal, o rito foi formalmente codificado. É neste período que a Tiara ganha a sua segunda coroa (Bonifácio VIII) e, mais tarde, a terceira, simbolizando a jurisdição sobre a Igreja militante, padecente e triunfante.

O Pontifical Romano passou a incluir orações específicas que conferiam ao Papa o título de “Pai dos Príncipes e dos Reis, Reitor do Mundo”.

Foi introduzido o dramático rito do Sic transit gloria mundi (Assim passa a glória do mundo), onde se queimava uma mecha de estopa diante do Papa para recordá-lo da sua mortalidade em pleno triunfo.

A Codificação Tridentina e o Apogeu (Séculos XVI a XIX)

Após o Concílio de Trento, o Pontifical Romano de Clemente VIII (1596) e o de Bento XIV estabilizaram o rito. A coroação tornou-se uma cerimónia de esplendor barroco, celebrada na Basílica de São Pedro.

O rito era claramente distinguido da Missa: a coroação ocorria na varanda (Lógia) da Basílica, para que o povo pudesse ver o novo “Papa-Rei”. A fórmula litúrgica central era: “Recebe a tiara adornada com três coroas e sabe que és o Pai dos Príncipes e dos Reis…”

A Simplificação e o Abandono (Século XX)

A mudança de paradigma ocorreu com o Concílio Vaticano II.

  • Paulo VI (1963): Foi o último Papa a ser coroado segundo o rito do Pontifical Romano. Num gesto profético, ele depôs a sua tiara sobre o altar de São Pedro, oferecendo-a aos pobres.
  • A Reforma de João Paulo I e II: Em 1978, a Constituição Apostólica Romano Pontifici Eligendo ainda mencionava a coroação, mas João Paulo I recusou-a. João Paulo II seguiu o exemplo, substituindo a coroação pela Inauguração do Ministério Petrino.
  • Bento XVI e Francisco: O rito foi removido do cerimonial prático. Bento XVI eliminou a tiara até do brasão papal, substituindo-a pela mitra episcopal, enfatizando a primazia do ministério espiritual sobre o poder temporal.

Conclusão

A inclusão das coroações no Pontifical Romano documenta a transição do Papa de “Vigário de Pedro” para “Vigário de Cristo” com poderes universais, e a sua remoção atual reflete uma Igreja que busca retornar à simplicidade apostólica, focando no Pálio (símbolo do Bom Pastor) em vez da coroa.

Partilha esta publicação:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *