Neste dia, em 1506, o Papa Júlio II promulgava bula que aprovava o Tratado de Tordesilhas

A 24 de janeiro de 1506, o Papa Júlio II emitiu a bula Ea quae pro bono pacis (que em latim significa “Aquelas [coisas] que para a promoção da paz”). Este documento pontifício foi um ato de validação crucial que conferiu a autoridade moral e eclesiástica da Santa Sé ao já existente Tratado de Tordesilhas, o acordo que dividiu o mundo “descoberto e por descobrir” entre as potências ibéricas de Portugal e Castela.

O Contexto: Divisão do Mundo e as Disputas de 1493

Após a primeira viagem de Cristóvão Colombo em 1492, as potências marítimas de Portugal e Espanha entraram em rota de colisão sobre quem tinha direito a explorar e colonizar as novas terras. O Papa Alexandre VI tentou resolver a disputa em 1493 com uma série de bulas, nomeadamente a Inter caetera, que estabelecia uma linha de demarcação.

No entanto, o Rei D. João II de Portugal não ficou satisfeito com a linha de Alexandre VI, que considerava desfavorável aos interesses portugueses, e iniciou negociações diretas com os Reis Católicos. Estas negociações resultaram no Tratado de Tordesilhas, assinado a 7 de junho de 1494. O tratado moveu a linha de demarcação para 370 léguas a oeste de Cabo Verde, uma posição que, sem o saberem na altura, garantia a Portugal o domínio sobre o futuro Brasil.

A Necessidade da Aprovação Papal

Embora o Tratado de Tordesilhas fosse um acordo bilateral entre as duas coroas, na lei internacional da época, a sanção do Papa era fundamental. Um acordo com a aprovação pontifícia tinha um peso moral e uma legitimidade acrescida, reconhecida pelas outras nações católicas e prevenindo, idealmente, futuras contestações.

Foi o Rei D. Manuel I de Portugal quem solicitou formalmente ao Papa Júlio II a confirmação do tratado. O objetivo da bula Ea quae pro bono pacis era, como o nome indica, garantir a paz e evitar conflitos entre as duas nações católicas no seu esforço de expansão global.

O Conteúdo e Significado da Bula de 1506

A bula de Júlio II ratificou o acordo de 1494. O Papa reconheceu a legitimidade do compromisso assumido por Portugal e Castela, confirmando a divisão do globo em duas áreas de influência exclusivas.

Pontos-chave da bula:

  • Validação Eclesiástica: A bula conferiu a aprovação da Santa Sé ao que era, até então, apenas um acordo secular.
  • Política do Mare Clausum: A bula reforçou o conceito de “mar fechado” ou “esfera de influência exclusiva”, onde apenas as potências ibéricas tinham direito de navegação e comércio nas suas respetivas zonas.
  • Autoridade Moral: A aprovação papal desencorajou outras nações católicas (como a França ou a Inglaterra) de desafiarem abertamente o monopólio ibérico nos territórios ultramarinos, pelo menos durante algum tempo.

Conclusão: Um Marco na História da Colonização

Ea quae pro bono pacis de 1506 foi um documento de grande importância na história da expansão marítima. Solidificou o mapa do mundo colonial que se desenhava no início do século XVI e deu o carimbo da autoridade papal a uma das divisões territoriais mais consequentes da história.

Embora o Tratado de Tordesilhas e as bulas associadas tenham sido subsequentemente ignorados por outras potências europeias nos séculos seguintes, a Ea quae pro bono pacis permanece como um marco histórico que ilustra o poder e a influência da Santa Sé nos assuntos internacionais na aurora da Idade Moderna, ao tentar arbitrar e pacificar a divisão do mundo entre os dois primeiros impérios globais.

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