A 24 de maio de 1988, festa de Nossa Senhora Auxiliadora, o Papa João Paulo II, através da Carta Apostólica Iuvenum Patris (Pai da Juventude), proclamou solenemente São João Bosco como “Pai e Mestre da Juventude“. Este ato não foi apenas uma formalidade eclesiástica, mas um reconhecimento profundo e um relançamento do carisma salesiano para o mundo contemporâneo, no centenário da morte do santo de Turim.
Contexto
O ano de 1988 marcou o centenário da morte de Dom Bosco (31 de janeiro de 1888). A Igreja, e em particular a Família Salesiana, olhava para trás com gratidão e para a frente com esperança. O mundo de 1988, embora diferente do Piemonte do século XIX, apresentava desafios persistentes para a juventude: a marginalização, a pobreza, a falta de orientação moral e a vulnerabilidade social.
João Paulo II, ele próprio um Papa com uma sensibilidade especial para os jovens (mais tarde criaria as Jornadas Mundiais da Juventude), compreendeu que a mensagem e o método de Dom Bosco permaneciam não apenas relevantes, mas urgentes. A proclamação visava destacar a atualidade da pedagogia salesiana e a santidade de vida do seu fundador como um modelo perene para educadores, pastores e jovens em todo o mundo.
A Carta Apostólica Iuvenum Patris
O documento papal é uma análise profunda da vida, obra e espiritualidade de Dom Bosco. João Paulo II não se limitou a um elogio, mas delineou as bases do que constitui a essência do trabalho salesiano, justificando os títulos de “Pai” e “Mestre”.
Dom Bosco como “Pai” da Juventude:
O título de “Pai” (Patris) reflete a dimensão da paternidade espiritual e do amor incondicional que Dom Bosco nutria pelos seus rapazes. Para ele, todo o ato educativo era, antes de tudo, um ato de amor. A sua famosa frase: “Basta que sejais jovens para que eu vos ame imensamente“, capta esta essência.
A paternidade de Dom Bosco manifestava-se:
- Na Aceitação Incondicional: Ele acolhia todos os jovens, sem distinção de classe social ou passado problemático.
- Na Presença Ativa (Assistência): Dom Bosco insistia que o educador salesiano devia estar no meio dos jovens, partilhando as suas vidas, jogos e dificuldades. A sua pedagogia baseava-se na presença constante e carinhosa do adulto responsável.
- Na Criação de um Ambiente Familiar: O Oratório de Valdocco era uma casa, um pátio, uma escola e uma paróquia. O ambiente familiar e acolhedor era a chave para a regeneração dos jovens marginalizados.
Dom Bosco como “Mestre” da Juventude:
O título de “Mestre” (Mestre) reconhece a eficácia e a genialidade do seu Sistema Preventivo. Dom Bosco não era apenas um benfeitor, mas um pedagogo inovador que desenvolveu um método educativo baseado em três pilares:
- Razão (Ragione): O educador deve dialogar, explicar as regras, fazer apelos à inteligência e à liberdade do jovem. Evita-se o autoritarismo cego.
- Religião (Religione): A dimensão espiritual e a fé são o fundamento de toda a ação educativa. A religião oferece o sentido último da vida e a força moral para as escolhas éticas.
- Amabilidade/Amor (Amorevolezza): O amor pedagógico, que não é sentimentalismo, mas uma caridade pastoral ativa, que se manifesta na bondade, paciência e dedicação do educador. “Fazei-vos amar antes de vos fazer temer”.
O sistema preventivo opõe-se ao sistema repressivo da época, que se baseava na punição e na desconfiança. Dom Bosco queria formar cidadãos honestos e bons cristãos, através da alegria, do jogo, do trabalho e da oração.
O Legado do Título
A proclamação de 1988 teve um impacto profundo na Família Salesiana e na Igreja em geral. Solidificou a identidade salesiana em torno da missão central: a salvação da juventude.
- Para a Família Salesiana: Ajudou a reafirmar a fidelidade ao carisma original, inspirando o aprofundamento teológico e pedagógico do Sistema Preventivo e a expansão da obra salesiana em novos contextos culturais.
- Para a Igreja: Apresentou um modelo concreto e eficaz de pastoral juvenil, que inspirou a criação de novas metodologias e a valorização do papel dos leigos na educação e evangelização dos jovens.
A 24 de maio de 1988, João Paulo II não apenas honrou um santo, mas ofereceu ao mundo uma bússola para navegar os desafios da educação das novas gerações. Dom Bosco permanece, assim, vivo e atual, como o “Pai e Mestre da Juventude” que continua a guiar o caminho de milhões de jovens e educadores em todo o planeta.
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