Neste dia, em 2000, o João Paulo II tornou-se o primeiro papa a visitar o Muro das Lamentações

A 26 de março de 2000, durante a sua peregrinação jubilar à Terra Santa, São João Paulo II tornou-se o primeiro papa da história a visitar o Muro das Lamentações (Kotel), em Jerusalém. O gesto, carregado de simbolismo espiritual e histórico, representou um momento decisivo na aproximação entre a Igreja Católica e o povo judeu após séculos de tensões, incompreensões e sofrimento.

A imagem do Papa, já bastante debilitado mas profundamente recolhido, a inserir um papel com uma oração nas fendas do Muro, percorreu o mundo e permanece como uma das mais poderosas expressões do compromisso da Igreja com a reconciliação.

Contexto da Visita

A visita de João Paulo II a Israel e aos territórios palestinianos foi o culminar de décadas de esforços para melhorar as relações entre a Igreja Católica e o judaísmo, seguindo as diretrizes do Concílio Vaticano II. O pontífice polaco tinha um histórico notável de diálogo inter-religioso, tendo sido o primeiro papa a visitar uma sinagoga em Roma em 1986. A peregrinação de março de 2000 teve como objetivo promover a paz, a reconciliação e aprofundar os laços entre as duas fés.

Um gesto histórico no coração de Jerusalém

A visita de João Paulo II ao Muro das Lamentações aconteceu num contexto muito especial: o Grande Jubileu do Ano 2000, ocasião em que o Papa viajou à Terra Santa para rezar nos lugares que testemunharam a vida, morte e ressurreição de Cristo.

Naquele domingo, 26 de março de 2000, o Papa, já com a saúde fragilizada, aproximou-se do Muro Ocidental (Muro das Lamentações) a passos lentos. Acompanhado por líderes religiosos locais, tocou nas pedras antigas do Muro e rezou em silêncio durante vários minutos, num momento de profunda introspeção e respeito.

Seguindo a tradição judaica de colocar bilhetes com orações nas fendas do Muro, João Paulo II inseriu um envelope com uma mensagem escrita à mão. A oração, um pedido de perdão a Deus pelos pecados cometidos contra o povo judeu ao longo da história, foi um gesto poderoso e um ponto central do seu pedido de “purificação da memória” da Igreja.

A oração dizia:
Deus dos nossos pais, Vós escolhestes Abraão e a sua descendência para levarem o vosso Nome às nações: estamos profundamente tristes pela conduta daqueles que, ao longo da história, fizeram sofrer os vossos filhos; e, pedindo o vosso perdão, queremos comprometer-nos a viver uma autêntica fraternidade com o povo da Aliança. Ámen.

Este texto, deixado simbolicamente no Muro, foi uma extensão do pedido de perdão pronunciado dias antes em Roma, no Dia do Perdão (12 de março de 2000), em que a Igreja reconheceu os pecados cometidos por cristãos ao longo da história — incluindo o antissemitismo.

O Muro é o último vestígio visível do Segundo Templo de Jerusalém, destruído pelos romanos no ano 70. Desde então, tornou-se o principal local de oração e peregrinação do judaísmo.

Reações no mundo judaico e internacional

A visita foi recebida com enorme emoção. Líderes judeus de Israel e da diáspora elogiaram o gesto como um testemunho de sinceridade e humildade.
Muitos judeus presentes no local aproximaram-se espontaneamente do Papa, apertando-lhe a mão ou agradecendo-lhe.

A nível internacional, foi um dos gestos mais amplamente divulgados do Ano Jubilar, reforçando a imagem de João Paulo II como papa da reconciliação, do diálogo e da paz.

O Precedente para Papas Futuros

O gesto pioneiro de João Paulo II estabeleceu um precedente significativo para os seus sucessores. O Papa Bento XVI visitou o Muro em 12 de maio de 2009, onde rezou pela paz e deixou uma oração entre as pedras.

Da mesma forma, o Papa Francisco, em 26 de maio de 2014, também visitou o local, tocando as pedras e rezando em silêncio. O seu gesto mais emblemático foi o encontro, ao lado do Muro, com um rabino judeu, seu amigo de longa data, e um líder muçulmano. Os três rezaram juntos, abraçados, diante do Muro — um momento de extraordinário significado inter-religioso.

Um gesto que mudou a história

A visita de João Paulo II ao Muro das Lamentações teve um impacto duradouro nas relações judaico-católicas. Foi vista como um gesto de humildade e reconciliação que ajudou a sarar feridas históricas e a construir pontes de entendimento mútuo.

O bilhete original com a oração foi posteriormente removido do Muro e entregue ao Museu do Holocausto Yad Vashem em Jerusalém. A sua ação solidificou a visita papal ao Muro das Lamentações como um elemento-chave das peregrinações papais à Terra Santa e um símbolo contínuo do compromisso da Igreja com o diálogo e a paz.

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