Neste dia, em 451, começava o Concílio de Calcedónia, o quarto concílio ecuménico

O Concílio de Calcedónia, celebrado entre 8 de outubro e 1 de novembro de 451, na cidade de Calcedónia (atual Kadıköy, Turquia), foi o quarto concílio ecuménico da Igreja Católica e um dos mais decisivos para a definição da doutrina cristológica. Convocado pelo imperador Marciano e pela imperatriz Pulquéria, o concílio contou com a presença de mais de 500 bispos, a maioria oriunda do Oriente, tornando-se o maior concílio da Antiguidade.

Contexto Histórico

O século V foi marcado por debates intensos sobre a natureza de Cristo. Já os concílios anteriores – Niceia (325), Constantinopla (381) e Éfeso (431) – tinham afirmado a plena divindade do Filho e da Santíssima Trindade, além de proclamarem Maria como Theotokos (“Mãe de Deus”).

Contudo, novas controvérsias surgiram:

  • Nestorianismo: defendia que Cristo teria duas pessoas distintas – uma humana e uma divina – unidas apenas moralmente.
  • Monofisismo: afirmava, em oposição, que Cristo tinha apenas uma natureza (divina), absorvendo a humana.

Esta divisão teológica punha em causa a própria fé cristã e ameaçava a unidade da Igreja e do Império.

Os Trabalhos do Concílio

O Concílio de Calcedónia foi convocado para resolver definitivamente a questão da identidade de Cristo.

As principais decisões foram:

  1. Definição dogmática de Calcedónia (Definitio Fidei):
    O concílio proclamou solenemente que Jesus Cristo é “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”, uma só pessoa (hipóstase) em duas naturezas, divina e humana, “sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação”.
  2. Rejeição do monofisismo:
    Condenou-se a doutrina de Eutiques, monge de Constantinopla, que defendia a absorção da natureza humana pela natureza divina de Cristo.
  3. Confirmação da Carta de São Leão Magno:
    A célebre “Tome de Leão”, carta enviada pelo Papa Leão I Magno ao patriarca de Constantinopla, Flaviano, foi lida e aclamada pelos padres conciliares como a expressão da fé ortodoxa: “Pedro falou pela boca de Leão”.
  4. Questões disciplinares:
    O concílio promulgou 28 cânones, que tratavam da administração da Igreja e da hierarquia. Entre eles, o mais polémico foi o cânone 28, que concedia ao Patriarcado de Constantinopla uma primazia de honra logo a seguir a Roma, o que foi rejeitado pelo Papa Leão I.

Importância Teológica

O Concílio de Calcedónia foi um marco na definição da cristologia:

  • Rejeitou tanto o nestorianismo como o monofisismo.
  • Estabeleceu a base doutrinária que ainda hoje é central para a fé católica, ortodoxa e grande parte das tradições cristãs.
  • Garantiu que a Igreja professasse a fé num Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, salvador do género humano precisamente por assumir plenamente a nossa natureza.

Consequências e Divisões

Apesar da sua importância, o concílio provocou também divisões profundas:

  • Muitas comunidades orientais, especialmente no Egito, Síria e Arménia, não aceitaram a definição calcedonense e permaneceram fiéis ao monofisismo.
  • Estas comunidades formaram as chamadas Igrejas Ortodoxas Orientais (não calcedonianas), que ainda hoje existem, separadas da Igreja Católica e da Ortodoxa Bizantina.

Assim, embora tenha reforçado a unidade da fé, o concílio também abriu caminho a uma cisão que persiste até aos nossos dias.

A Relevância de Calcedónia Hoje

A definição de Calcedónia continua a ser a pedra angular da cristologia cristã. Ao afirmar que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o concílio protegeu a fé contra simplificações que poderiam negar a realidade da Encarnação ou da Redenção.

Para os católicos, o concílio lembra que a salvação foi realizada por Cristo precisamente porque Ele partilhou plenamente da nossa condição humana, sem deixar de ser o Filho eterno de Deus.

Conclusão

O Concílio de Calcedónia (451) foi um dos momentos mais importantes da história da Igreja. A sua definição dogmática sobre Cristo continua a ser central para a fé católica e para a compreensão do mistério da Encarnação. Embora tenha gerado divisões, permanece como um testemunho da busca da Igreja pela verdade sobre Jesus Cristo, fundamento da salvação do mundo.

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