Neste dia, em 2020, o Papa Francisco introduzia três novas invocações à Ladainha Lauretana de Nossa Senhora

A 20 de junho de 2020, na data em que a Igreja celebra a memória do Imaculado Coração de Maria, o Papa Francisco introduziu uma mudança histórica na venerável Ladainha Lauretana de Nossa Senhora. Através de uma carta da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, dirigida aos presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, o Pontífice acrescentou três novas invocações marianas: Mater Misericordiae (Mãe de Misericórdia), Mater Spei (Mãe da Esperança) e Solacium Migrantium (Conforto dos Migrantes).

Este ato, embora possa parecer um pequeno ajuste litúrgico, reflete uma profunda sensibilidade pastoral e um desejo de sintonizar as orações da Igreja com as necessidades e os desafios do mundo contemporâneo, dando continuidade a uma tradição de séculos de atualização da ladainha.

Uma Tradição Viva e em Evolução

A Ladainha de Nossa Senhora, que ganhou o nome de “Lauretana” pela sua associação com o Santuário de Loreto e a sua aprovação solene pela Bula Redditam do Papa Sisto V em 1587, nunca foi um texto estático e imutável. Ao longo dos séculos, vários Papas adicionaram novas invocações, refletindo a evolução da teologia mariana e as ênfases pastorais de cada época.

Por exemplo, o Papa São João Paulo II acrescentou “Mãe da Igreja” em 1980 e “Rainha das famílias” em 1995. Estes acréscimos demonstram que a oração é um organismo vivo, capaz de incorporar novas dimensões da fé e da devoção do povo de Deus. A decisão do Papa Francisco insere-se perfeitamente nesta tradição, respondendo aos “sinais dos tempos” e às realidades vividas pelos fiéis no século XXI.

As Três Novas Invocação e o Seu Significado

As três invocações foram cuidadosamente escolhidas para realçar aspetos da maternidade espiritual de Maria que são particularmente relevantes para o pontificado de Francisco e para o mundo atual.

1. Mater Misericordiae (Mãe de Misericórdia)

Esta invocação, que na verdade é antiga e já aparece na oração Salve Rainha, foi colocada logo após “Mãe da Igreja” (Mater Ecclesiae). A ênfase na misericórdia tem sido uma marca central do ministério do Papa Francisco, especialmente evidente durante o Jubileu Extraordinário da Misericórdia (2015-2016). Ao incluir este título na ladainha, o Papa recorda que Maria é o primeiro refúgio e o rosto materno da ternura de Deus, um porto seguro para todos os que buscam o perdão e o consolo divinos.

2. Mater Spei (Mãe da Esperança)

Inserida após “Mãe da divina graça” (Mater divinae gratiae), esta invocação ressoa fortemente num mundo frequentemente marcado pela ansiedade, incerteza e crises — como a pandemia de COVID-19 que assolava o mundo na altura da adição. Maria é apresentada como um farol de esperança, aquela que acreditou na Palavra do Senhor contra todas as probabilidades e que acompanha a Igreja peregrina na sua jornada rumo à Jerusalém celeste.

3. Solacium Migrantium (Conforto dos Migrantes)

Talvez a mais distintiva e contemporânea das três, esta invocação foi adicionada após “Refúgio dos pecadores” (Refugium peccatorum). O tema da migração é uma preocupação humanitária e pastoral premente para o Papa Francisco, que frequentemente apela à solidariedade e ao acolhimento dos migrantes e refugiados. Ao invocar Maria como “Conforto dos Migrantes”, a Igreja reconhece a dor e a vulnerabilidade de milhões de pessoas deslocadas, colocando-as sob a proteção especial da Virgem e sublinhando a responsabilidade cristã de os acolher.

Implementação e Legado

A carta da Congregação para o Culto Divino, assinada pelo Cardeal Robert Sarah, Prefeito na altura, e pelo Arcebispo Arthur Roche, Secretário, não impôs uma data de entrada em vigor imediata, mas sim a indicação para que as Conferências Episcopais tomassem as medidas necessárias para inserir os novos títulos nos textos oficiais da Ladainha da Santíssima Virgem Maria nas respetivas línguas vernáculas.

Conclusão

A adição destas três invocações pelo Papa Francisco, a 20 de junho de 2020, é um testemunho da vitalidade da oração na Igreja. Mostra como uma devoção antiga pode permanecer relevante e responder às necessidades espirituais de cada geração, enriquecendo o diálogo com a Mãe de Deus e, por meio Dela, o encontro com Cristo, o seu Filho.

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