Neste dia, em 2021, o Papa Francisco visitava o Iraque onde foi alvo de dois atentados suicidas

Entre os dias 5 e 8 de março de 2021, o Papa Francisco realizou a primeira viagem papal ao Iraque, um país marcado por anos de conflito, perseguição de cristãos e reconstrução. Esta visita ganhou uma importância extraordinária tanto pelo seu valor simbólico como pelos riscos que envolvia. Por ocasião da publicação no final de 2024 de excertos da sua autobiografia, vieram também à luz os detalhes de tentativas de atentado contra ele durante essa jornada.

O cenário antes da viagem

O Iraque era, e permanece, uma das zonas mais vulneráveis para cristãos e para quem se aventura numa missão de paz. Após o domínio do Estado Islâmico em várias regiões (2014-2017), sobretudo em cidades como Mosul, a comunidade cristã ficou profundamente ferida e muitos patrimónios religiosos foram destruídos.
Adicionalmente, a pandemia de Covid-19 persistia, o que tornou a logística da visita ainda mais complexa.

O Papa Francisco insistiu em realizar a viagem, dizendo-se «peregrino de paz» e afirmando que o Iraque era «o berço da civilização e da fé» — e por isso merecia ser visitado.

A visita: etapas essenciais e encontros históricos

Durante os quatro dias de viagem, o Papa percorreu diversas cidades iraquianas, encontrou-se com líderes religiosos muçulmanos xiitas, realizou missas públicas e fez gestos de reconciliação e esperança. Dos momentos mais significativos:

  • Em 5 de março, chegada a Bagdade e encontro com autoridades civis e religiosas.
  • Em 6 de março, visita à cidade de Najaf, onde se encontrou com o Ayatollah Ali al‑Sistani, um dos mais altos líderes xiitas, em gesto histórico de diálogo inter-religioso.
  • Em 7 de março, visita a Mosul, onde custodiou as ruínas de igrejas destruídas, orou pelos mártires e apelou ao perdão entre as comunidades.
  • Em 8 de março, celebração em Erbil, região do Curdistão iraquiano, no estádio “Franso Hariri”, junto a milhares de pessoas.

O Papa sublinhou:
A maior blasfémia é profanar o nome de Deus odiando os nossos irmãos e irmãs.” (na visita a Najaf)

Tentativas de atentado reveladas

Em dezembro de 2024, a imprensa internacional divulgou excertos de uma autobiografia do Papa Francisco intitulada Hope (“Esperança”), na qual o pontífice revelou que durante a sua visita ao Iraque foram detectadas e neutralizadas duas tentativas de atentado suicida.

Logo à chegada a Bagdade, o Vaticano foi informado que a polícia iraquiana, com ajuda de serviços de inteligência britânicos, tinha detetado uma jovem suicida com explosivos encaminhada para Mosul com intenção de atacar o evento papal.

Simultaneamente, um veículo tipo carrinha com explosivos dirigia-se em alta velocidade para o mesmo local. Segundo o Papa, perguntou no dia seguinte à gendarmaria vaticana o que aconteceu, e a resposta foi lacónica: “They’re no longer here.” («Eles já não estão aqui»).

Apesar deste risco grave, a viagem prosseguiu. O Papa refletiu na autobiografia que este era também «o fruto envenenado da guerra». Em contrapartida, autoridades locais iraquianas negaram que houvesse qualquer plano concreto de ataque, afirmando que a visita decorreu com normalidade e que as notícias surgidas seriam fruto de informação incorreta.

Este contexto de risco real eleva a visita à categoria de gesto de bravura e de missão, não apenas pastoral, mas também de presença profética num território ferido.

Impacto e legado da visita

A viagem de março de 2021 representa vários marcos e consequências duradouras:

  • Foi a primeira visita papal ao Iraque, dando voz aos cristãos de uma das comunidades mais perseguidas do mundo.
  • Reforçou o compromisso da Igreja com a reconciliação inter-religiosa, destacando o encontro com al-Sistani como um “momento de viragem”.
  • Acendeu esperança nas comunidades cristãs do país: o Papa declarou que «vocês são os irmãos e irmãs da Assíria antiga, não estão sozinhos».
  • Demonstrou que a Igreja assume também o risco em situações extremas, reafirmando que «o Evangelho vai até às periferias do sofrimento».
  • A revelação das tentativas de atentado em 2024 reforça a percepção de que a visita não foi apenas simbólica mas “arriscada”, aumentando a admiração por esse gesto de fé.

Conclusão

A visita do Papa Francisco ao Iraque foi muito mais do que uma viagem diplomática ou pastoral: foi um acto de fé, de presença e de risco. Nos dias de 5 a 8 de março de 2021, o pontífice tornou-se símbolo vivo de solidariedade e “peregrino de paz” em terras marcadas pela guerra e pela dor.

Os relatos de tentativas de atentado — divulgados posteriormente — não diminuem o mérito da iniciativa; pelo contrário, elevam-no. Eles lembram que a paz exige coragem, que a reconciliação implica vulnerabilidade, e que a Igreja, quando entra nas periferias do mundo, o faz sabendo que há caminhos perigosos, mas também cheios de esperança.

Que este exemplo inspire todos os fiéis a sair dos seus confortos e a levar a luz de Cristo mesmo aos lugares mais escuros — onde o grito humano se intesifica, mas onde a Palavra do Senhor continua a ecoar:

Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.” (Jo 10,10)

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