No dia 29 de setembro de 2019, a Praça de São Pedro, no Vaticano, testemunhou um evento artístico e político sem precedentes em quatro séculos. Durante o 105.º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, o Papa Francisco inaugurou a escultura “Angels Unawares” (Anjos sem o saberem), quebrando um jejum decorativo que durava desde o século XVII.
Um Marco Histórico e Artístico
A instalação desta obra pelo escultor canadiano Timothy Schmalz representou a primeira vez, em cerca de 400 anos, que uma nova escultura foi adicionada ao conjunto arquitetónico da Praça de São Pedro. Desde que as últimas estátuas de santos foram colocadas sobre a colunata de Bernini, a praça permanecera intocada no seu desenho barroco. Ao permitir esta “intrusão” contemporânea, o Papa Francisco enviou uma mensagem clara: a Igreja deve ser um organismo vivo que responde aos dramas do presente.
A Composição: 140 Rostos, Uma Só Humanidade
A escultura, fundida em bronze e argila, estende-se por seis metros de comprimento. Ela não retrata uma figura isolada, mas uma balsa compacta onde se comprimem 140 figuras de migrantes e refugiados de diferentes épocas e contextos históricos:
- Vêem-se judeus fugindo da Alemanha nazi;
- Famílias sírias escapando da guerra civil;
- Migrantes africanos atravessando o Mediterrâneo;
- Até a Sagrada Família (Jesus, Maria e José) está subtilmente representada na multidão, recordando que o próprio Cristo foi um refugiado no Egito.
O Mistério das Asas: Hebreus 13, 2
O título da obra provém de uma exortação bíblica da Epístola aos Hebreus: “Não vos esqueçais da hospitalidade, pois por ela alguns, sem o saberem, hospedaram anjos” (Hebreus 13, 2).
O detalhe mais impactante da escultura é a presença de um par de asas de anjo que emergem do centro da massa humana. Estas asas sugerem que, dentro de cada grupo de refugiados, Deus está presente de forma invisível. A mensagem teológica é profunda: ao acolher o migrante necessitado, a humanidade está, na verdade, a acolher o próprio sagrado.
A Intencionalidade do Papa Francisco
A inauguração de 2019 foi um ato de “reparação simbólica”. Francisco quis que a escultura estivesse num local de passagem obrigatória para os chefes de Estado e peregrinos de todo o mundo. A obra serve como um exame de consciência coletivo sobre a crise migratória global, transformando a Praça de São Pedro num espaço de denúncia e acolhimento.
Embora inicialmente pensada como uma instalação temporária, a força da sua mensagem levou o Vaticano a mantê-la como uma presença permanente, criando um diálogo visual entre as estátuas dos santos no topo da colunata e o sofrimento da “Igreja peregrina” no chão da praça.
Conclusão
“Angels Unawares” é mais do que uma obra de arte; é um manifesto em bronze. Ao lado do obelisco egípcio e das fontes barrocas, este barco de migrantes recorda-nos que a fé cristã não se vive apenas no esplendor dos monumentos, mas na lama e na esperança daqueles que buscam uma vida digna. Desde 2019, quem entra na Praça de São Pedro é confrontado com a ideia de que o Reino de Deus pode estar escondido no rosto de um estranho à espera de acolhimento.
