A Cruz de São Damião é um dos símbolos mais conhecidos do franciscanismo e está intimamente ligada ao início da vocação de São Francisco de Assis. Mais do que uma simples obra de arte, esta cruz tornou-se um ícone espiritual, pois foi diante dela que Francisco recebeu a sua missão de “reparar a Igreja de Cristo”. Ao longo dos séculos, a cruz teve vários destinos, até chegar ao local onde se encontra atualmente, sempre venerada pelos fiéis e pelos frades menores.
A origem da Cruz de São Damião
A cruz é um crucifixo bizantino pintado sobre madeira, datado do século XII. De estilo românico orientalizante, representa Cristo crucificado, mas não em sofrimento, mas sim glorioso e sereno, com os olhos abertos e o corpo ereto, sinal de vitória sobre a morte.
Em torno de Cristo estão diversas figuras:
- No topo, a mão do Pai que acolhe Jesus;
- À direita e esquerda, a Virgem Maria, São João, Maria Madalena, Maria de Cléofas e o centurião romano;
- Abaixo, pequenas figuras que representam santos, anjos e testemunhas da crucifixão.
Esta cruz encontrava-se originalmente na igreja arruinada de São Damião, nos arredores de Assis.
São Francisco diante da Cruz
Por volta de 1205, num momento de crise e busca espiritual, Francisco entrou na pequena igreja de São Damião, então quase em ruínas. Diante da cruz, rezou pedindo luz para a sua vida. Foi então que ouviu uma voz saída do crucifixo, que lhe disse:
“Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja, que está em ruínas.”
Inicialmente, Francisco interpretou este pedido de forma literal: começou a reconstruir com as próprias mãos a pequena igreja de São Damião, usando pedras e pedindo esmolas. Mais tarde, compreenderia que a missão de “reparar a Igreja” tinha um significado muito mais vasto: renovar a vida espiritual da Igreja de Cristo.
A Cruz de São Damião, portanto, está ligada ao início da Ordem dos Frades Menores e ao carisma franciscano.
O percurso da Cruz ao longo da história
Igreja de São Damião
Durante muitos anos, a cruz permaneceu no altar da igreja de São Damião. Foi nesse local que Santa Clara de Assis e as suas companheiras rezaram diante dela após fundarem a Ordem das Clarissas, vivendo junto ao convento que ali nasceu.
Trasladação para São Jorge e para a Basílica de Santa Clara
Após a morte de Santa Clara em 1253, as irmãs mudaram-se para a nova Basílica de Santa Clara, construída em Assis para acolher o corpo da santa. Juntamente com a comunidade, também a Cruz de São Damião foi trasladada, passando a ser guardada no mosteiro das clarissas.
A cruz foi colocada no coro do convento, longe do olhar público, e assim permaneceu durante séculos, como relíquia preciosa da vida de Francisco e Clara.
As saídas extraordinárias da Cruz
Durante quase oito séculos, a Cruz de São Damião permaneceu no convento das clarissas. Contudo, em tempos recentes, saiu de modo excecional:
- 22 de março de 1953: por ocasião do 700.º aniversário da morte de Santa Clara, a cruz foi exposta solenemente em Assis. A celebração atraiu milhares de peregrinos e marcou um dos primeiros momentos em que a cruz deixou o clausuro do convento.
- 15 a 19 de junho de 2016: a cruz saiu novamente do mosteiro das clarissas para ser exposta durante o encontro do Papa Francisco com os jovens em Assis, no âmbito do Ano da Misericórdia. O evento sublinhou o elo espiritual entre o Papa que leva o nome de Francisco e a cruz que inspirou o santo.
Estas saídas são raríssimas, pois as clarissas sempre guardaram a cruz como objeto sagrado, evitando que fosse tratada apenas como peça de arte.
O estado atual
Hoje, a Cruz de São Damião encontra-se na Basílica de Santa Clara, em Assis, exposta numa capela lateral, protegida e visível para os fiéis. Milhares de peregrinos acorrem todos os anos para rezar diante dela, recordando o chamado que transformou Francisco e que continua a inspirar homens e mulheres em todo o mundo.
Uma réplica fiel encontra-se atualmente no altar da igreja de São Damião, permitindo que os peregrinos revivam o momento histórico em que Francisco ouviu o apelo de Cristo.
Conclusão
A Cruz de São Damião não é apenas um ícone medieval, mas um sinal vivo do encontro entre Deus e São Francisco. O chamado que dali brotou ecoou na fundação de uma das maiores ordens religiosas da Igreja e continua a interpelar os cristãos de hoje: reparar e renovar a Igreja, vivendo o Evangelho em simplicidade, fraternidade e pobreza.
As raras saídas da cruz em 1953 e 2016 mostram que, apesar do seu valor histórico e artístico, a cruz é sobretudo um símbolo espiritual que transcende o tempo, recordando que a verdadeira glória da cruz é a vitória de Cristo e o chamado à conversão.
