Neste dia, em 1209, o Papa Alexandre III aprovava a Ordem dos Franciscanos

A história da Igreja Católica é marcada por encontros providenciais que alteraram o curso da civilização ocidental. Nenhum, talvez, seja tão carregado de simbolismo e consequência histórica como o ocorrido na primavera de 1209, quando um jovem mercador de Assis, vestido de burel e descalço, se apresentou perante o homem mais poderoso da Europa: o Papa Inocêncio III. Este encontro, que resultou na aprovação oral da Regra Franciscana, não foi apenas um ato administrativo, mas a resposta mística a um sonho que salvou a Igreja da ruína institucional.

O Despertar de um Carisma: 24 de Fevereiro de 1209

Antes do encontro em Roma, o movimento franciscano teve o seu “batismo” prático. A 24 de fevereiro de 1209, na pequena capela da Porciúncula, Francisco ouviu o Evangelho da festa de São Matias. As palavras sobre a missão dos apóstolos — que não deveriam possuir ouro, nem prata, nem sacos, nem calçado — atingiram-no com a força de um raio. Francisco exclamou: “É isto que eu quero, é isto que eu procuro, é isto que eu desejo fazer com todo o meu coração!”.

Despojou-se do cinto de couro, adotou uma corda e começou a pregar a paz e a penitência. Rapidamente, atraiu companheiros. Quando o grupo atingiu o número simbólico de doze (Francisco e mais onze), o “Poverello” decidiu que era hora de procurar a legitimidade da Igreja. Sem a bênção de Roma, seriam apenas mais um grupo de “iluminados” ou, pior, seriam confundidos com as heresias pauperistas que assolavam o sul da Europa.

A Viagem a Roma e a Hesitação de Inocêncio III

Em abril de 1209, os doze penitentes de Assis chegaram a Roma. O contexto era de um contraste absoluto. De um lado, Francisco, representando a pobreza radical e a simplicidade evangélica; do outro, Inocêncio III, um jurista brilhante que tinha elevado o papado ao zénite da teocracia medieval.

Inocêncio III era um Papa pragmático. Quando Francisco lhe apresentou a sua “Regra Primitiva” — um pequeno texto composto quase inteiramente por passagens bíblicas — o Pontífice hesitou. A proposta de viver sem qualquer propriedade, mendigando o pão diário, parecia-lhe impraticável e perigosa para a saúde física dos frades. O Papa temia que o entusiasmo inicial de Francisco desse lugar ao desespero ou à revolta quando a dureza da vida se fizesse sentir.

O Sonho de Latrão: O Ombro que Ampara a Igreja

É aqui que a história entra no domínio do sobrenatural, imortalizado mais tarde pelos frescos de Giotto na Basílica de Assis. Segundo a tradição registada por São Boaventura, o Papa teve um sonho profético após o seu primeiro encontro com Francisco.

Inocêncio III viu a Basílica de São João de Latrão — a catedral de Roma e “mãe de todas as igrejas” — a inclinar-se perigosamente, prestes a desmoronar-se. No sonho, um homem pequeno, de aspeto humilde e vestido com uma túnica grosseira, aproximou-se da base da basílica e, colocando o seu ombro contra as pedras que cediam, amparou todo o edifício, impedindo a sua queda.

Ao acordar, o Papa reconheceu imediatamente o homem do sonho: era o mendigo de Assis que ele acabara de dispensar. Inocêncio III compreendeu que a renovação espiritual que Francisco propunha era a “coluna” de que a Igreja necessitava para sobreviver à corrupção e à riqueza que a estavam a sufocar por dentro.

16 de Abril de 1209: A Aprovação Oral

Movido pela visão e pela intercessão do Cardeal João de São Paulo, o Papa convocou novamente Francisco. A 16 de abril de 1209, num gesto de enorme significado jurídico e espiritual, Inocêncio III deu a aprovação oral ao estilo de vida dos “Frades Menores”.

Este ato consistiu em três pontos fundamentais:

  1. Aprovação da Regra: O Papa autorizou-os a viver em pobreza absoluta segundo o Evangelho.
  2. Mandato de Pregação: Concedeu-lhes o direito de pregar a penitência em todo o mundo cristão, uma função que, até então, era estritamente reservada aos bispos e sacerdotes autorizados.
  3. A Tonsura: O Papa ordenou que os doze recebessem a tonsura clerical (o corte de cabelo em círculo), transformando o grupo de leigos em membros do clero menor, o que os colocava sob a proteção direta da Santa Sé e os protegia de acusações de heresia por parte de bispos locais.

Embora não tenha sido um documento escrito (a chamada Regula Bullata só viria em 29 de novembro de 1223), a aprovação oral de 1209 foi a certidão de nascimento oficial da Ordem Franciscana.

O Impacto: De Latrão ao Mundo

A decisão de Inocêncio III foi uma das mais astutas do seu pontificado. Ao “oficializar” Francisco, ele canalizou o desejo de reforma e pobreza para dentro da Igreja, em vez de permitir que ele se tornasse uma força antagónica externa. Francisco, por sua vez, demonstrou que a verdadeira reforma não se faz contra o Papa, mas com o Papa.

A aprovação oral permitiu que a Ordem explodisse em crescimento. Em poucos anos, os doze tornaram-se milhares. Em novembro de 1215, durante o IV Concílio de Latrão, Inocêncio III confirmou novamente perante toda a cristandade a sua aprovação aos franciscanos, consolidando o movimento como o braço missionário de Roma. Neste concílio, embora tenha sido proibida a criação de novas regras religiosas para evitar a fragmentação da Igreja, a regra de Francisco foi excecionada por já ter recebido a aprovação oral prévia do Papa.

A forma jurídica final da Ordem, tal como a conhecemos hoje, foi selada com a Bula Solet Annuere do Papa Honório III, a 29 de novembro de 1223. Este documento aprovou a chamada Regula Bullata (Regra Bulada), que é a regra definitiva da Ordem.

Conclusão

A fundação da Ordem Franciscana, selada pela aprovação oral de 16 de abril de 1209, é o testemunho de um encontro improvável entre a autoridade jurídica e o carisma místico. Inocêncio III teve a sabedoria de ver para além dos pés descalços e das roupas sujas de Francisco, reconhecendo nele o “reparador” da Igreja que o próprio Cristo pedira em São Damião.

O sonho da Basílica de Latrão continua a ser, em 2025, um símbolo da missão franciscana: ser o ombro que, através da humildade e da pobreza, sustenta as estruturas da Igreja quando estas parecem vacilar sob o peso do poder e do materialismo. Ao abraçar Francisco, Inocêncio III não apenas aprovou uma regra; ele garantiu que a Igreja Católica mantivesse o seu coração batendo ao ritmo do Evangelho.

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