A devoção a Nossa Senhora das Dores de Chandavila é um dos fenómenos marianos mais recentes aprovados pela Igreja Católica, oferecendo aos fiéis um caminho de consolo, conversão e confiança na intercessão de Maria. Esta devoção tem as suas raízes nas aparições ocorridas em 1945, na localidade de La Codosera (Extremadura, Espanha), perto da fronteira com Portugal. Em agosto de 2024, o Dicastério para a Doutrina da Fé da Santa Sé deu o seu “nihil obstat”, autorizando oficialmente a veneração desta invocação mariana.
Contexto histórico e geográfico
La Codosera é um município raiano da Província de Badajoz, na comunidade autónoma da Extremadura, situado junto à fronteira portuguesa. Por volta de 1945, a Península Ibérica vivia ainda as consequências da Guerra Civil Espanhola (1936-39) e o final da Segunda Guerra Mundial aproximava-se, num contexto de grande sofrimento humano e espiritual.
A localidade de Chandavila, uma zona rural perto de La Codosera, seria o palco das aparições marianas que deram origem à devoção.
As aparições (1945)
a) Primeira vidente – Marcelina Barroso Expósito
Em 27 de maio de 1945, por volta das 15h, a menina Marcelina Barroso Expósito, de dez anos, relatou ter visto uma forma no céu enquanto caminhava com a prima. A visão evoluiu para a figura da Virgem Maria, sob o título de Nossa Senhora das Dores, manifestando-se sobre um castanheiro, rodeada de “luminosa constelação” e vestida com um manto negro bordado de estrelas.
Marcelina ouviu dela as palavras: “Quer vir comigo?”, ao que ela respondeu “Sim, Senhora”. Nessa ocasião, a Virgem pediu-lhe que voltasse à tarde com doze velas acesas e que se prostrasse de joelhos sobre um terreno de ouriços de castanheiro, espinhos e pedras, ato que se realizou sem que Marcelina sofresse ferimento algum — considerado por muitos presente como milagre.
b) Segunda vidente – Afra Brígido Blanco
Nos dias seguintes, em 30 de maio de 1945, Afra Brígido Blanco, de 17 anos, também relatou visões no mesmo local. Ela descreveu ver uma formação em nuvens em forma de cruz, e posteriormente a Virgem das Dores. Afra entrou em êxtase e mais tarde teria estigmas associados à Paixão de Cristo.
c) O pedido da Virgem
Nas aparições, a Virgem Maria teria pedido a recitação do Rosário, penitência, reparação pelos pecados do mundo e construção de uma capela naquele lugar. Também houve pedidos de missa mensal naquele local.
O Santuário de Chandavila
Após as aparições, em 1947, foi iniciada a construção de uma pequena capela junto ao castanheiro do local das aparições, posteriormente substituída por uma igreja maior dedicada à Nossa Senhora das Dores. A igreja e a zona tornaram-se destino de peregrinação, servindo como local de devoção e encontro para fiéis de Espanha e Portugal. O 27 de maio passou a ser data anual de romaria no local.
Reconhecimento pela Igreja
Em 22 de agosto de 2024, o Dicastério para a Doutrina da Fé enviou carta assinada pelo cardeal Víctor Manuel Fernández ao arcebispo de Mérida-Badajoz, D. José Rodríguez Carballo, na qual autoriza o “nihil obstat” para a devoção em Chandavila.
O texto afirma que, embora não se verifique uma certeza sobre a autenticidade sobrenatural de todas as aparições, existem «muitos aspectos positivos que indicam a ação do Espírito Santo em tantos peregrinos… nas conversões, curas e outros sinais preciosos».
Este reconhecimento permite que o santuário continue a oferecer aos fiéis “um lugar de paz interior, consolo e conversão”.
Mensagem central e espiritualidade
A devoção a Nossa Senhora das Dores de Chandavila transmite mensagens que se alinham profundamente com o Mistério Pascal de Cristo e o Coração materno de Maria:
- Confiança na Virgem como Mãe consoladora, que sustém nas tribulações (“Não temas, nada te acontecerá”).
- Penitência e reparação, caminho proposto para a conversão e a paz interior.
- União de dor e esperança: Maria das Dores que contempla o Filho crucificado e oferece-se como refúgio para os sofredores.
- Ecumenismo e fronteira: o local fronteiriço entre Espanha e Portugal enfatiza a dimensão de encontro e unidade, convida à peregrinação transfronteiriça.
Impacto e peregrinação
O Santuário de Chandavila tornou-se ponto de referência na região da Extremadura, com peregrinações anuais. Em 2020, celebrou-se o Ano Jubilar dos 75 anos das aparições. Muitos peregrinos relatam conversões, paz interior, graças alcançadas e instâncias de cura, veteranas na narrativa devocional do lugar. A carta do Dicastério sublinha essas experiências como “sinais valiosos” da espiritualidade do lugar.
Data litúrgica e festa local
A festa de Nossa Senhora das Dores de Chandavila é celebrada no dia 27 de maio, em memória da primeira aparição a Marcelina em 1945. Totus Tuus Na região, essa data é marcada por romarias, celebrações eucarísticas, adoração e testemunhos de fé.
Conclusão
A devoção a Nossa Senhora das Dores de Chandavila é um convite aberto à confiança, conversão e consolo, lembrando-nos que Maria está presente junto dos que sofrem, dos que buscam e dos que esperam.
A aprovação eclesial reforçam que esta devoção pode ser vivida com segurança na Igreja como expressão legítima da fé católica.
Para nós, hoje, Chandavila é sinal de que o “caminho do Calvário” não se faz sozinho — Maria caminha connosco, oferecendo o seu manto e o seu abraço. E no silêncio daquela castanheira, sob o céu de Extremadura, ainda ecoa o convite: “Quer vir comigo?”
“Confiai, mesmo quando não vedes; caminhai de joelhos, mesmo quando o caminho tem espinhos; a Mãe está ao vosso lado.”
