A imagem de Nossa Senhora “Salus Populi Romani” (em latim, Salvação do Povo Romano) é um dos ícones marianos mais venerados do cristianismo. Guardada na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, há séculos é considerada protetora da cidade e invocada em tempos de guerra, epidemias e calamidades. Ao longo da história, papas e fiéis recorreram a este ícone como sinal de esperança e fé.
Origens da Imagem
A tradição atribui a autoria da Salus Populi Romani ao próprio evangelista São Lucas, que teria pintado a Virgem Maria com o Menino Jesus. Essa crença, embora piedosa e de valor devocional, não encontra fundamento histórico seguro.
Estudos artísticos modernos indicam que o ícone é de origem bizantina, datado provavelmente entre os séculos XI e XIII. A imagem mostra a Virgem Maria de rosto sério e olhar compassivo, segurando o Menino Jesus no braço esquerdo. Jesus, por sua vez, ergue a mão em bênção enquanto segura um livro, sinal da Palavra de Deus.
Chegada a Roma
A história da chegada da imagem a Roma envolve lendas e relatos antigos. Acredita-se que a imagem tenha chegado de Creta no ano 590 d.C., durante o pontificado do Papa Gregório Magno , que a recebeu pessoalmente na sua chegada, trazida num barco florido do rio Tibre.
O primeiro registo seguro situa o ícone em Santa Maria Maior desde, pelo menos, o século XIII. Desde então, o povo romano viu nesta imagem um sinal de proteção especial da Mãe de Deus sobre a cidade.
Devoção ao longo da História
Idade Média e Renascimento
Durante a Idade Média, a imagem foi venerada sobretudo em contextos litúrgicos da Basílica de Santa Maria Maior.
Nos séculos XV e XVI, ganhou grande notoriedade. Durante a peste e outros períodos de sofrimento coletivo, a Salus Populi Romani era levada em procissões solenes pelas ruas de Roma, pedindo a intercessão da Virgem Maria para proteger a cidade.
Em 1531, por ocasião de uma peste, o Papa Clemente VII mandou levar a imagem em procissão pelas ruas de Roma, reforçando a tradição de recorrer à Mãe de Deus em tempos de crise.
Século XIX – A Epidemia de Cólera
No século XIX, a devoção conheceu novo auge. Em 1837, quando Roma foi atingida por uma epidemia de cólera, o Papa Gregório XVI ordenou uma procissão com a imagem, invocando a intercessão de Maria. Muitos relatos dão conta de que após essa invocação a epidemia diminuiu significativamente na cidade.
Século XX – A Guerra e os Papas
No século XX, a Salus Populi Romani foi novamente invocada em momentos de dor e conflito.
- O Papa Bento XV (1914-1922) rezou diante da imagem pedindo a paz durante a Primeira Guerra Mundial.
- O Papa Pio XII também a venerava, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, quando Roma enfrentava bombardeamentos e instabilidade.
Linha do Tempo da Imagem Salus Populi Romani
- Século V (data tradicional, sem precisão) – Segundo a tradição, a imagem teria sido pintada por São Lucas Evangelista, embora os estudos modernos apontem para origem bizantina, provavelmente entre os séculos IX e XI.
- 432–440 – Durante o pontificado do Papa Sisto III, a Basílica de Santa Maria Maior é construída após o Concílio de Éfeso (431), que proclamou Maria como Theotokos (Mãe de Deus). É aí que a imagem encontra o seu lugar definitivo.
- 590 – Durante a grande peste em Roma, o Papa São Gregório Magno leva a imagem em procissão pelas ruas da cidade, pedindo o fim da epidemia. Segundo a tradição, o arcanjo São Miguel apareceu sobre o Castel Sant’Angelo, anunciando o fim da peste. A partir deste episódio, a imagem ganha o título de “Salus Populi Romani” (Salvação do Povo Romano).
- 13 de agosto de 1837 – O Papa Gregório XVI ordena uma solene procissão com a imagem pelas ruas de Roma para pedir a intercessão da Virgem contra uma epidemia de cólera. A peste diminui significativamente após a procissão, e a devoção popular intensifica-se.
- 1931 (15 de agosto) – No 15º centenário do Concílio de Éfeso, o Papa Pio XI leva a imagem em procissão até a Praça de São Pedro, diante de uma multidão de fiéis, reafirmando a importância da devoção mariana.
- 1954 (1 de novembro) – Durante o Ano Mariano proclamado por Pio XII, a imagem é novamente levada à Praça de São Pedro. O Papa, que tinha profunda devoção à Virgem, consagra o mundo ao Imaculado Coração de Maria.
- 2000 (15 de agosto) – No Jubileu do Ano 2000, o Papa São João Paulo II manda restaurar a imagem e reza diante dela, reforçando a tradição de cada Papa confiar o seu pontificado à Salus Populi Romani.
- 2013 (14 de março) – No dia seguinte à sua eleição, o Papa Francisco visita a Basílica de Santa Maria Maior e reza diante da imagem, confiando-lhe o seu pontificado. Desde então, mantém o hábito de visitar o ícone antes e depois de cada viagem apostólica internacional.
- 2020 (27 de março) – Durante a pandemia de COVID-19, o Papa Francisco reza diante da imagem e a leva espiritualmente para a celebração extraordinária de oração na Praça de São Pedro, marcada pela famosa bênção Urbi et Orbi em plena noite chuvosa.
A Salus Populi Romani e os Papas Recentes
A partir de São João Paulo II, a relação dos papas com este ícone tornou-se ainda mais próxima.
- João Paulo II tinha grande devoção a Nossa Senhora sob este título e deixou na Basílica de Santa Maria Maior uma rosa de ouro em homenagem à imagem.
- Bento XVI também a venerava e rezava diante dela em ocasiões especiais.
- O Papa Francisco, desde o início do seu pontificado em 2013, manteve uma tradição pessoal: sempre que realiza uma viagem apostólica, vai rezar diante da Salus Populi Romani antes de partir e ao regressar. Esta devoção reforçou ainda mais a proximidade do povo com este ícone mariano.
O Ícone Hoje
Atualmente, a Salus Populi Romani encontra-se na Capela Paulina (ou Borghese), dentro da Basílica de Santa Maria Maior, em Roma.
Em 2018, foi alvo de um cuidadoso restauro realizado pelo Vaticano, que revelou cores e detalhes originais, preservando a sua beleza e integridade histórica.
Todos os anos, milhares de peregrinos visitam a basílica para venerar a imagem, considerada não apenas um símbolo de Roma, mas um tesouro espiritual de toda a Igreja Católica.
Significado Espiritual
O título Salus Populi Romani expressa a convicção de que Maria é intercessora e protetora do povo cristão, em especial dos romanos. O ícone tornou-se um símbolo da confiança na Virgem Maria como Mãe da Igreja e refúgio em tempos de aflição.
O Papa Francisco, em diversas homilias diante da imagem, sublinhou que Maria é a mãe que protege, guia e nunca abandona os filhos de Deus.
Conclusão
A história da Salus Populi Romani é inseparável da história de Roma e da Igreja. Desde as suas origens bizantinas até à atualidade, esta imagem acompanhou o povo cristão em momentos de dor, epidemias, guerras e esperança.
Mais do que uma obra de arte, ela é expressão viva da fé e confiança em Maria, a Mãe de Deus, que continua a ser invocada como “Salvação do Povo Romano” e de todos os fiéis espalhados pelo mundo.
