A proclamação de São Bernardo de Claraval como Doutor da Igreja Universal, a 20 de agosto de 1830, pelo Papa Pio VIII, foi um reconhecimento formal da Igreja Católica da profundidade e do significado universal da sua doutrina, da sua santidade de vida e da sua contribuição monumental para a teologia e a vida monástica do século XII.
Bernardo (1090–1153), abade cisterciense, místico, pregador incansável, reformador e conselheiro de papas e reis, foi uma das figuras mais influentes do seu tempo. A sua eloquência, o seu zelo pela reforma e a sua teologia centrada no amor místico valeram-lhe o título de Doctor Mellifluus (“Doutor Melífluo” ou “que destila mel”).
Vida e Vocação
Nascido no Castelo de Fontaines, perto de Dijon, na Borgonha, França, numa família nobre, Bernardo recebeu uma educação esmerada. Aos 22 anos, decidiu entrar na vida monástica e escolheu a nova e rigorosa Ordem de Cister, que procurava restaurar a pureza da Regra de São Bento, marcada pela simplicidade, oração e trabalho manual.
Em 1115, com apenas 25 anos, foi enviado para fundar um novo mosteiro num vale que viria a chamar-se Claraval (Clairvaux), do qual se tornou abade. Sob a sua liderança carismática, Claraval floresceu e tornou-se o centro de uma vasta rede de mosteiros cistercienses por toda a Europa. Bernardo foi um reformador incansável, que restaurou o fervor monástico e exerceu uma influência moral e política imensa.
Atuou como conselheiro de papas, reis e bispos, ajudou a resolver o Cisma Papal de 1130, pregou a Segunda Cruzada e combateu heresias (como a de Pedro Abelardo). A sua vida foi uma síntese notável de intensa contemplação mística e ação incansável no mundo.
Obras-Primas e Contribuições Teológicas
A obra de São Bernardo é vasta, eloquente e centrada na espiritualidade, no amor divino e na devoção a Maria. As suas obras principais incluem:
- Sermões sobre o Cântico dos Cânticos (Sermones super Cantica Canticorum): A sua obra-prima mística, que consiste em 86 sermões que exploram o livro bíblico como uma alegoria do amor místico entre Cristo (o Esposo) e a alma (a Esposa), e a Igreja. É um clássico perene da espiritualidade ocidental.
- Numerosos Sermões: Deixou centenas de sermões para festas litúrgicas e ocasiões especiais, que se destacam pela sua eloquência, profundidade teológica e zelo pastoral.
- Tratados: Escreveu tratados importantes, como De Diligendo Deo (“Sobre Amar a Deus”), que delineia os quatro graus do amor a Deus, e De Consideratione (“Sobre a Consideração”), um manual prático de governo e espiritualidade dedicado ao seu antigo monge que se tornou o Papa Eugénio III.
A sua teologia é marcada por uma profunda devoção mariana (é o autor da famosa oração Memorare) e uma ênfase na humanidade de Cristo como o caminho para Deus Pai.
O Reconhecimento Universal: Doutor da Igreja (1830)
A influência da sua doutrina e a profundidade da sua obra transcenderam a sua época. Bernardo de Claraval foi canonizado em 1174 pelo Papa Alexandre III.
A 20 de agosto de 1830, o Papa Pio VIII proclamou São Bernardo de Claraval o 23.º Doutor da Igreja Universal. Este título reconheceu formalmente a profundidade da sua teologia, a sua santidade de vida e a validade universal do seu ensinamento, que unia a erudição com um profundo zelo pastoral e uma vida de santidade acessível a todos os estados de vida.
Ao conceder este título, Pio VIII reconheceu a importância da sua doutrina para todos os fiéis, e a sua capacidade de ser um mestre da vida espiritual e um reformador incansável da Igreja.
Conclusão
São Bernardo de Claraval permanece como uma figura monumental na história da Igreja e um farol de misticismo, eloquência e zelo reformador. A sua vida de monge, abade, pregador e diplomata oferece uma via de diálogo profundo entre a fé, a ação no mundo e a busca incessante pela união com Deus na vida contemplativa.
O reconhecimento como Doutor da Igreja Universal solidifica a sua importância e destaca a riqueza da sua doutrina, provando que a grandeza espiritual e teológica se manifesta tanto na quietude do mosteiro quanto na liderança da Igreja. O seu legado é um convite permanente ao amor de Deus, à oração e ao compromisso com a reforma contínua da Igreja e do mundo.
