Neste dia, em 1822, era erguido o Obelisco de Pincio com aprovação do Papa Pio VII

Entre os muitos obeliscos que pontuam o horizonte de Roma, o do Pincio ocupa um lugar especial, não pela sua antiguidade faraónica (que não possui), mas pelo seu percurso atribulado e por representar um dos últimos grandes atos de spolia urbana e restauro papal. A ação decisiva do Papa Pio VII em 1822 garantiu que este monumento encontrasse o seu descanso final e proeminente no Monte Pincio.

A Origem: Um Memorial ao Favorito de Adriano

O Obelisco do Pincio, com 9,24 metros de altura, é único entre os obeliscos romanos por não ser um troféu de guerra egípcio original. Foi encomendado pelo Imperador Adriano (r. 117–138 d.C.) como um monumento funerário para o seu jovem e amado favorito, Antínoo. Antínoo morreu tragicamente afogado no Rio Nilo, no Egito, em 130 d.C., e foi subsequentemente divinizado pelo imperador, que fundou cidades e ordenou a criação de inúmeras estátuas e monumentos em sua memória.

Os hieróglifos que cobrem o obelisco não celebram um faraó, mas sim a divinização de Antínoo, uma fusão fascinante de tradições egípcias e romanas.

Um Percurso Errante e Esquecido

O obelisco teve uma vida itinerante antes de chegar ao Pincio. Erguido originalmente no Egito, foi eventualmente transportado para Roma pelo Imperador Heliogábalo no século III d.C. para decorar o Circus Varianus (perto de onde hoje se encontra a estação de comboios Termini).

Com a queda do Império Romano, o circo caiu em ruínas e o obelisco desabou e desapareceu sob a terra e a vegetação. Foi redescoberto em 1570, partido em dois pedaços. Passou então por várias propriedades romanas, acabando nos jardins do Palazzo Barberini no século XVII. Durante mais de um século, permaneceu lá, caído e largamente esquecido.

A Intervenção de Pio VII e a Visão de Valadier

A entrada em cena do Papa Pio VII marcou o ponto de viragem para o monumento. Após o seu regresso do cativeiro napoleónico em 1814, Pio VII dedicou-se a restaurar a cidade de Roma e a sua autoridade, reabilitando monumentos e melhorando a infraestrutura urbana.

O arquiteto e urbanista de renome, Giuseppe Valadier, que estava a trabalhar na remodelação monumental da área da Piazza del Popolo e do Monte Pincio, propôs a ideia de usar o obelisco esquecido para coroar o novo terraço panorâmico.

Pio VII aprovou a iniciativa, vendo nela a oportunidade de completar a remodelação urbana e de afirmar a sua visão para a cidade. A ação papal não foi apenas um ato de mecenato artístico; foi uma afirmação de domínio sobre o passado pagão de Roma, integrando-o na paisagem cristã papal.

A Data Concreta da Ereção: 20 de Agosto de 1822

O ponto culminante deste projeto foi a ereção do obelisco na sua localização atual. A data exata é conhecida e celebrada na própria inscrição no pedestal. No dia 20 de agosto de 1822, o obelisco foi finalmente içado e fixado no topo do Pincio, um feito de engenharia que coroou o trabalho de Valadier.

A inscrição latina comemora a data: “XI KAL SEPTEMB ANNO MDCCC XXII” (O décimo primeiro dia antes das Calendas de Setembro do ano 1822).

Legado

A ereção do Obelisco do Pincio por Pio VII foi mais do que a simples adição de uma peça ao museu a céu aberto que é Roma. Foi a finalização de um importante eixo urbanístico que ligava a cidade velha, a Piazza del Popolo e a nova área verde pública do Pincio.

O Papa Pio VII, que havia resistido ao poder avassalador de Napoleão, deixou a sua própria marca física e duradoura na Cidade Eterna com este monumento. O obelisco, originalmente um memorial pagão, tornou-se, pela vontade papal, parte integrante do cenário que, ainda hoje, oferece uma das vistas mais espetaculares sobre Roma e a cúpula de São Pedro, simbolizando a permanência da Igreja através das épocas.

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