A bandeira do Estado da Cidade do Vaticano é um dos símbolos nacionais mais distintos e reconhecidos do mundo, com o seu formato quadrado único e as cores amarelo e branco. Embora a sua forma atual seja relativamente moderna, a sua história está ligada à evolução do poder temporal do papado e a eventos cruciais da história italiana e da Igreja Católica. A sua adoção formal, após os Tratados de Latrão em 1929, marcou o renascimento do Vaticano como um Estado soberano.
A Primeira Adoção: Pio VII e as Cores Originais
A história da bandeira papal começa muito antes da bandeira atual. No entanto, as cores amarelo e branco que hoje conhecemos foram introduzidas pelo Papa Pio VII (1800-1823) num período de grande turbulência.
Antes da Revolução Francesa, a bandeira papal era tradicionalmente vermelha e dourada, ou vermelha e amarela. No entanto, com a invasão francesa da península Itálica e a criação de repúblicas satélite, a situação mudou.
O Papa Pio VII, no entanto, tinha muito claro que Napoleão queria sujeitar os Estados Pontifícios e, a 13 de março de 1808, ordenou que os soldados que tinham permanecido leais, substituíssem as cores romanas do uniforme pelas cores amarelo e branco. Três dias depois, Pio VII comunicou por escrito essa disposição ao Corpo Diplomático e o documento correspondente foi considerado, posteriormente, como a “certidão de nascimento” das cores da bandeira do Estado da Cidade do Vaticano.
Este gesto foi uma resposta direta à tentativa de Napoleão Bonaparte de anexar os territórios papais e de as suas tropas usarem as cores papais antigas. Ao mudar a bandeira, Pio VII demarcou a sua soberania e rejeitou a apropriação dos seus símbolos por parte de Napoleão.
Esta bandeira amarela e branca tornou-se o estandarte de facto dos Estados Pontifícios.
A Formal Adoção Após o Tratado de Latrão (1929)
Após a captura de Roma em 1870 pelo Reino de Itália, os Estados Pontifícios deixaram de existir, e o Papa considerou-se “prisioneiro do Vaticano”. Durante quase 60 anos, o Vaticano não foi um estado soberano reconhecido internacionalmente, e a bandeira caiu em desuso como símbolo nacional.
A situação mudou drasticamente a 11 de fevereiro de 1929, com a assinatura dos Tratados de Latrão entre a Santa Sé e o Reino de Itália, liderado por Benito Mussolini. Estes tratados reconheceram a soberania do novo Estado da Cidade do Vaticano.
A 8 de junho de 1929: A nova bandeira do Estado da Cidade do Vaticano foi formalmente adotada e hasteada pela primeira vez. A bandeira manteve as cores amarelo e branco introduzidas por Pio VII, mas adotou um formato quadrado (uma raridade para bandeiras nacionais) e incluiu o brasão de armas do Vaticano na faixa branca.
Uso, Simbolismo e Curiosidades
A bandeira do Vaticano é um símbolo poderoso da soberania e da fé católica.
- Uso: A bandeira é hasteada em todos os edifícios oficiais do Vaticano, em nunciaturas apostólicas e representações diplomáticas da Santa Sé em todo o mundo. É um símbolo de neutralidade e autoridade espiritual.
- O Brasão de Armas: O brasão na faixa branca é rico em simbolismo:
- As Duas Chaves (uma de ouro, outra de prata): Representam as chaves do Reino dos Céus, que Jesus deu a São Pedro, simbolizando o poder de “ligar e desligar” (Mateus 16:19) e a autoridade papal.
- A Tiara Papal (ou Tríplice Coroa): Simboliza os três poderes do Papa (Pastor Universal, Bispo de Roma e Governante Temporal).
- A Corda Vermelha que une as chaves: Simboliza a ligação entre o poder espiritual e temporal.
- Curiosidades:
- É uma das duas únicas bandeiras nacionais com formato quadrado (a outra é a da Suíça).
- A tonalidade exata do amarelo pode variar ligeiramente em diferentes produções, mas a iconografia é estrita.
Conclusão
A bandeira do Vaticano é um símbolo que atravessou séculos de história, desde as manobras políticas de Pio VII em 1808 até à sua adoção formal em 1929. Representa a independência da Santa Sé e a autoridade espiritual do Papa como sucessor de São Pedro. Com as suas cores e o seu brasão carregado de significado, a bandeira do Vaticano é um emblema único de fé, soberania e da missão universal da Igreja Católica no mundo.
