A 8 de maio de 1721, o fumo branco saído da Capela Sistina anunciava não apenas um novo Papa, mas o regresso de uma tradição que Roma ansiava há mais de cinquenta anos: a eleição de um aristocrata romano. Michelangelo dei Conti, que assumiria o nome de Inocêncio XIII, subiu ao sólio pontifício num dos conclaves mais politizados da Idade Moderna, trazendo consigo a promessa de uma governação austera e diplomática.
O Conclave de 1721: Entre Vetos e Alianças
A eleição que se seguiu à morte de Clemente XI foi um autêntico tabuleiro de xadrez geopolítico. As grandes potências da época — o Sacro Império Romano-Germânico, a França e a Espanha — exerciam uma pressão sufocante sobre o Colégio Cardinalício através do chamado “direito de exclusão” (veto).
O favorito inicial, o Cardeal Fabrizio Paolucci, viu as suas aspirações bloqueadas pelo veto direto do Imperador Carlos VI. Foi neste impasse que o nome de Michelangelo dei Conti surgiu como a solução de consenso. Descendente de uma linhagem que já dera à Igreja figuras como Inocêncio III e Gregório IX, Conti possuía o perfil ideal: uma linhagem impecável, uma vasta experiência diplomática e uma saúde que, na altura, se julgava suficiente para enfrentar os desafios da Cúria.
Após 75 escrutínios, Conti foi eleito com 54 de 55 votos. O único voto que não recebeu foi o seu próprio, que, num gesto de humildade e etiqueta eclesiástica, atribuiu ao Decano do Colégio dos Cardeais.
A Experiência em Portugal: O Núncio de D. João V
Para a história de Portugal, Inocêncio XIII reveste-se de uma importância particular. Antes da sua eleição, Michelangelo dei Conti serviu como Núncio Apostólico em Lisboa durante doze anos (1697–1710). Conhecia profundamente a corte de D. João V e a realidade da Igreja portuguesa.
Contudo, esta proximidade não evitou tensões. Já enquanto Papa, Inocêncio XIII herdou a “Questão da Nunciatura”, um conflito diplomático em que o Rei de Portugal exigia a elevação ao cardinalato do núncio Vincenzo Bichi. A firmeza do Papa em seguir as normas canónicas, apesar da sua estima por Portugal, levou a um esfriamento das relações com o “Magnânimo”, demonstrando que o seu compromisso com a reforma da Igreja estava acima de amizades políticas.
Um Pontificado de Reforma e Austeridade
Embora o seu reinado tenha durado apenas três anos, Inocêncio XIII deixou uma marca de integridade. Combateu o nepotismo com vigor, proibindo terminantemente que os seus sucessores concedessem rendas ou títulos a familiares — uma prática que tinha corroído a credibilidade do papado em séculos anteriores.
Apoiou os Jesuítas nas missões na China, mas manteve-se vigilante quanto às polémicas dos ritos orientais, procurando sempre o equilíbrio entre a expansão da fé e a ortodoxia romana. [2]
Conclusão
Inocêncio XIII foi o “Papa da Prudência”. A sua eleição unânime refletiu a esperança de uma Igreja que buscava estabilidade num mundo em rápida transformação iluminista. Embora a sua saúde frágil tenha interrompido precocemente os seus planos de reforma, o seu legado de austeridade e o seu respeito pela tradição romana consolidaram-no como um pontífice de transição digno e respeitado.
