Neste dia, em 1716, o Papa Clemente XI elevava a diocese de Lisboa à categoria de Patriarcado

A 7 de dezembro de 1716, o Papa Clemente XI emitiu a Bula In suprema excellentia, um documento que mudou para sempre a face da Igreja em Portugal. Por este ato pontifício, a diocese de Lisboa foi elevada à dignidade de Patriarcado, um título honorífico de imenso prestígio que colocou a capital portuguesa no mapa das grandes sés eclesiásticas do mundo católico, a par de Veneza e das antigas sés orientais.

Introdução: Uma Recompensa pelo Zelo Real

A elevação de Lisboa a Patriarcado foi o resultado direto da política externa e do fervor religioso do Rei D. João V (1706–1750), cognominado “o Magnânimo”. O reinado de D. João V foi marcado pela afluência de ouro e diamantes do Brasil, o que permitiu à Coroa Portuguesa investir somas avultadas em projetos sumptuosos, como o Convento de Mafra, e na diplomacia junto da Santa Sé em Roma.

D. João V procurou elevar o prestígio da sua Coroa e do seu reino aos olhos da Europa católica. A sua embaixada a Roma em 1709, liderada pelo Marquês de Fontes, foi uma das mais opulentas e faustosas da história, impressionando a Cúria Romana e o próprio Papa Clemente XI. O rei pretendia um reconhecimento excecional de Roma pela sua devoção e pelo papel de Portugal na expansão da fé pelo mundo.

A Bula In suprema excellentia (7 de Dezembro de 1716)

A 7 de dezembro de 1716, o Papa Clemente XI cedeu aos pedidos do Rei D. João V e emitiu a Bula In suprema excellentia (ou In supereminenti). Através deste documento, a antiga e histórica diocese de Lisboa foi elevada à dignidade de Patriarcado.

O ato papal não foi apenas uma mudança de nome; teve consequências concretas:

  • Dignidade Honorífica: O título de Patriarca de Lisboa era uma honra excecional na Igreja Latina, que reconhecia o estatuto de Portugal como um império global e um defensor fervoroso do catolicismo.
  • Divisão da Diocese: A diocese de Lisboa foi dividida. A parte ocidental tornou-se o Patriarcado, com a sua própria Cúria, clero e liturgia, centrada na Capela Real (que se tornaria a Igreja de São Vicente de Fora e, mais tarde, a Sé Patriarcal). A parte oriental permaneceu como a Arquidiocese, centrada na Sé de Lisboa (Sé Velha). Esta divisão complexa duraria até 1840, quando as duas partes foram unificadas num único Patriarcado.
  • Privilégios Litúrgicos: O Patriarca de Lisboa recebia privilégios equiparados aos dos cardeais, incluindo o uso de vestes cardinalícias e o direito a uma procissão papal (cappa magna). A liturgia na Capela Real foi adaptada para refletir o esplendor da Capela Papal em Roma.

Impacto e Importância para a Igreja em Portugal

A elevação a Patriarcado teve um impacto imenso e duradouro na Igreja e na sociedade portuguesas:

  • Prestígio da Coroa: Consolidou a imagem de D. João V como um monarca católico e poderoso, o “Rei-Sol” português, cuja devoção era reconhecida pela própria Sé Apostólica.
  • Centro de Poder Eclesiástico: Lisboa tornou-se um centro eclesiástico de primeira linha. A criação de um clero próprio e a riqueza associada ao Patriarcado atraíram talentos e recursos para a capital.
  • Rivalidade e Unidade: Embora a divisão inicial da diocese tenha gerado alguma complexidade administrativa e uma rivalidade entre a “Sé Velha” e a “Nova” (Patriarcal), a unificação posterior criou uma estrutura eclesiástica forte e prestigiada.

Conclusão

A Bula In suprema excellentia de 7 de dezembro de 1716, emitida pelo Papa Clemente XI, foi um marco na história da Igreja em Portugal. Mais do que um título honorífico, a criação do Patriarcado de Lisboa foi um ato que reconheceu a grandeza e a influência do Império Português na era joanina. O título de Patriarca de Lisboa permanece até hoje como um símbolo da ligação histórica e profunda entre a capital portuguesa e a Sé de Roma, e do papel central de Portugal na história do catolicismo global.

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