O Papa Adriano VI (pontificado de 1522 a 1523) ocupa um lugar único e fascinante na história da Igreja Católica, sendo frequentemente descrito como um dos papas mais incompreendidos e isolados do seu tempo.
O Último Papa Não-Italiano (até 1978)
Nascido Adriaen Florenszoon Boeyens na cidade de Utrecht (atualmente nos Países Baixos), foi o único papa holandês da história. Após a sua morte, passaram-se 455 anos sem que houvesse outro papa não-italiano, uma tradição que só foi quebrada em 1978 com a eleição de João Paulo II.
O Preceptor do Imperador
Antes de ser eleito, Adriano teve uma carreira académica e política brilhante. Foi professor de teologia na Universidade de Lovaina e, crucialmente, foi o preceptor e conselheiro de Carlos V, o Imperador do Sacro Império Romano-Germânico e Rei de Espanha. Esta proximidade política foi fundamental para a sua eleição, mas também lhe trouxe dificuldades na gestão do equilíbrio de poder na Europa.
O Papa Austero contra o Renascimento
Adriano VI chegou a uma Roma luxuosa e mundana, marcada pelos excessos dos papas Médici (como Leão X). Ele era o oposto: um homem de vida simples, profundamente piedoso e avesso às artes e ao espetáculo.
- Hostilidade de Roma: Os romanos detestavam-no. Ele cortou os gastos da corte, reduziu o número de funcionários do Vaticano e suspendeu o financiamento de grandes obras de arte (terá chamado “ídolos” às famosas esculturas clássicas do Vaticano).
- Punição de Pasquino: Por causa das suas medidas, Adriano foi alvo constante de sátiras nas estátuas de “Pasquino” em Roma.
A Resposta à Reforma de Lutero
O seu pontificado coincidiu com o auge do desafio de Martinho Lutero. Adriano VI teve uma atitude inédita e corajosa: na Dieta de Nuremberga (1522-1523), através do seu núncio, ele admitiu publicamente que a própria Igreja (incluindo a Cúria Romana) era culpada pela crise e que a corrupção interna tinha permitido o surgimento da revolta.
Infelizmente, a sua honestidade não foi suficiente para travar o movimento protestante, e os seus esforços de reforma interna foram boicotados pela própria administração do Vaticano, que resistia às mudanças.
Um Pontificado Breve e Trágico
Adriano VI reinou apenas 20 meses. Morreu em setembro de 1523, exausto pelas dificuldades políticas (incluindo a queda de Rodes para os turcos otomanos) e pela resistência constante que encontrava em Roma. Diz-se que, quando morreu, alguns romanos colocaram flores à porta do seu médico, agradecendo-lhe por “ter libertado a cidade”.
Curiosidades
- Sabias que… Adriano VI foi um dos poucos papas a manter o seu próprio nome de batismo após ser eleito? (Adriaen tornou-se Adrianus).
- Sabias que… ele era tão poupado que, ao chegar ao Vaticano, manteve a sua velha governante holandesa para lhe cozinhar refeições simples, recusando os banquetes luxuosos que eram tradição?
- Sabias que… o seu túmulo na Igreja de Santa Maria dell’Anima (em Roma) tem uma inscrição melancólica que resume bem o seu fado: “Proh dolor! Quantum refert in quae tempora vel optimi cuiusque virtus incidat” (“Ai de mim! Como importa saber em que tempos cai a virtude de um homem, mesmo do melhor!”).
