Todos os anos, a Igreja celebra a 15 de fevereiro a comovente e misteriosa festa da Trasladação de Santo António, uma solenidade que recorda um dos episódios mais impressionantes da vida póstuma do santo português: a descoberta do seu corpo incorrupto e, em particular, da língua milagrosamente preservada. Este acontecimento, ocorrido em 1263, deu origem a uma das mais antigas tradições antonianas e é celebrado com especial devoção tanto em Lisboa, terra natal do santo, como em Pádua, onde repousam os seus restos mortais.
A origem da festa: a abertura do túmulo
Santo António faleceu a 13 de junho de 1231, em Arcella, nos arredores de Pádua, com apenas 36 anos de idade. Tinha sido uma das figuras mais admiradas do seu tempo, conhecido pela santidade, pela caridade e pela eloquência com que pregava o Evangelho.
A sua fama de santidade era tão grande que foi canonizado apenas um ano depois, em 1232, pelo Papa Gregório IX, um dos processos mais rápidos da história da Igreja.
Transladações do corpo
O corpo de Santo António foi transladado por três vezes.
A primeira vez foi realizada apenas 4 dias após a sua morte, a 17 de junho de 1231, quando o corpo foi trasladado para Pádua, para a igreja de Santa Maria, dia que ficou marcado por inúmeros milagres e marcou as terças-feiras com um significado especial para a devoção antoniana.
A segunda foi cerca de trinta e dois anos depois da sua morte, a 7 de abril de 1263, quando foi decidido trasladar o corpo do santo para a nova Basílica de Santo António, que havia sido construída em sua honra na cidade de Pádua. A cerimónia foi presidida por São Boaventura de Bagnoregio, então Ministro-Geral da Ordem dos Franciscanos.
Em 1277, iniciou-se a construção de uma nova capela para colocação das relíquias. No dia 15 de fevereiro de 1350, na presença do Cardeal Guido de Monfort. O corpo do santo foi colocado numa arca de prata, separando-se o crânio, o queixo e outros ossos que São Boaventura já tinha também separado, e colocada a língua incorrupta num magnífico relicário de prata.
Em junho de 1745, o então cardeal Rezzonico, bispo de Pádua e futuro Papa Clemente XIII, faz nova e solene trasladação das relíquias de Santo António para uma nova capela onde se veneram, até hoje.
Assim, o dia 15 de fevereiro evoca a memória destas três trasladações do corpo de Santo António, feitas respetivamente pelo cardeal São Boaventura, pelo cardeal Guido e pelo cardeal Rezzonico, bispo de Pádua e depois papa Clemente XIII.
O momento do milagre
Aquando da segunda transladação, quando o túmulo foi aberto, esperava-se encontrar apenas os ossos do santo. No entanto, para espanto de todos os presentes, a língua de Santo António estava incorrupta, conservando a aparência viva e rosada.
Segundo os relatos contemporâneos, São Boaventura, profundamente emocionado, ajoelhou-se diante do prodígio e exclamou:
“Ó língua bendita, que sempre bendisseste o Senhor e ensinaste aos outros a bendizê-lo, agora vemos claramente quanto vales diante de Deus.”
O fenómeno foi considerado um sinal do poder da palavra de António, que durante a vida pregara com tanta força, convertendo pecadores, reconciliando famílias e defendendo a verdade da fé.
O significado espiritual da língua incorrupta
A preservação milagrosa da língua foi interpretada pela Igreja como um testemunho do dom extraordinário que Santo António recebeu de Deus — o dom da palavra inspirada.
António era chamado “o Martelo dos Hereges” e “Doutor Evangélico” pela sua capacidade de anunciar o Evangelho com clareza, ternura e profundidade teológica.
A língua incorrupta tornou-se, assim, símbolo da pureza da sua pregação, da sua fidelidade à Palavra divina e da força do Espírito Santo que falava através dele.
Além da língua, mais tarde seriam também encontrados o queixo e as cordas vocais em perfeito estado de conservação, o que reforçou ainda mais a veneração popular.
A festa e as suas celebrações
A Festa da Trasladação de Santo António foi instituída para recordar este acontecimento milagroso e para honrar o poder da palavra de Deus manifestado na vida do santo.
É celebrada liturgicamente a 15 de fevereiro, data em que ocorreu a terceira e última transladação do corpo do santo e o reconhecimento do milagre.
Em Pádua, a celebração inclui:
- Procissões solenes com a relíquia da língua;
- Momentos de oração e bênção dos pregadores e missionários, em honra do “santo da palavra”;
- Missas solenes na Basílica do Santo, onde as relíquias são expostas à veneração dos fiéis.
Em Lisboa, cidade natal de Santo António, também se celebra esta data com missas votivas e orações especiais, recordando o “santo da casa”, tão amado pelos portugueses e pelos povos de língua portuguesa.
A relíquia da língua
Atualmente, a língua incorrupta de Santo António encontra-se guardada num relicário de ouro e cristal na Capela das Relíquias, dentro da Basílica de Pádua.
Esta relíquia é uma das mais veneradas do mundo católico e tem sido objeto de peregrinações e de milagres atribuídos à intercessão do santo.
Durante séculos, a língua foi vista não como um simples prodígio físico, mas como um sinal espiritual da eficácia da palavra divina, que através de Santo António continua a tocar e transformar corações.
O testemunho que permanece
A Festa da Trasladação da Língua de Santo António convida os fiéis a meditar sobre o poder das palavras — que podem abençoar ou destruir, edificar ou ferir.
O exemplo do santo recorda que a palavra deve ser instrumento de verdade, caridade e evangelização, e que o Espírito Santo pode fazer da voz humana um canal da graça divina.
Mais de sete séculos depois, o eco das palavras de Santo António continua vivo nas homilias, nas devoções e nas preces de milhões de fiéis em todo o mundo.
Conclusão
A Trasladação da Língua de Santo António não é apenas um episódio curioso da hagiografia cristã, mas um sinal profundo da presença de Deus na história.
O milagre da língua incorrupta recorda que Deus exalta aqueles que O servem com pureza e zelo, e que as palavras ditas com amor e fé não se perdem — permanecem vivas, como a língua do santo, para sempre.
“Ó língua bendita, que sempre bendisseste o Senhor, intercede por nós, para que também as nossas palavras sejam instrumentos de paz, de verdade e de amor.”
