Com a chegada da Páscoa, as montras das lojas inundam-se de coelhos de peluche e ovos de chocolate. Para muitos cristãos, surge a dúvida: estarão estes símbolos a desviar-nos do verdadeiro sentido da Ressurreição? Serão eles meras heranças pagãs sem ligação à nossa fé? A resposta, como em grande parte da nossa cultura cristã, reside na capacidade que a Igreja teve, ao longo dos séculos, de “batizar” elementos da natureza e da cultura para anunciar o Evangelho.
As Raízes Naturais e a Reinterpretação Cristã
É verdade que o ovo e o coelho já eram utilizados por povos antigos (como os saxões e os celtas) para celebrar a chegada da primavera no hemisfério norte. O ovo simbolizava o potencial de vida adormecida que desperta após o inverno, e o coelho, pela sua rapidez em reproduzir-se, era o símbolo da fertilidade da terra.
No entanto, a Igreja Católica não rejeitou estes símbolos. Pelo contrário, encontrou neles analogias perfeitas para explicar o mistério da Passagem de Cristo. Na visão cristã, a cultura não é algo a ser destruído, mas redimido. Assim, o que era um símbolo da “natureza que renasce” tornou-se o símbolo do “Deus que ressuscitou”.
O Ovo: O Sepulcro que se Abre
Para a fé católica, o ovo é a imagem do sepulcro de Cristo. À primeira vista, um ovo parece uma pedra — frio, imóvel e sem vida. Mas, no seu interior, a vida está a ser gerada. No Domingo de Páscoa, assim como o pintainho quebra a casca para sair para a luz, Jesus rompeu as pedras do túmulo e as correntes da morte.
Houve um tempo em que, durante a Quaresma, o jejum era tão rigoroso que incluía a proibição de comer ovos. Por isso, no dia de Páscoa, a alegria era redobrada: os ovos eram benzidos e oferecidos como presente. Pintá-los de vermelho (simbolizando o sangue de Cristo) ou de cores vivas era uma forma de dizer: “A vida venceu!”. O chocolate, que hoje domina as festividades, é apenas uma adaptação doce desta tradição secular de partilhar o símbolo da vida nova.
O Coelho: A Mensagem que se Espalha
Quanto ao coelho, a sua relação com a fé é mais simbólica e catequética. Devido à sua capacidade de ter grandes ninhadas, o coelho passou a representar a Igreja que cresce e se multiplica pelo mundo através do anúncio da Palavra. Ele é o símbolo da esperança que não para de dar frutos.
Além disso, em algumas tradições antigas, acreditava-se que o coelho nunca fechava os olhos para dormir, o que o tornou um símbolo da vigilância cristã. Na Páscoa, recordamos que devemos estar despertos e atentos à presença do Ressuscitado entre nós. O coelho não “traz” os ovos; ele aponta para a fertilidade da Graça que Deus derrama sobre toda a humanidade após a vitória sobre o pecado.
Conclusão: Símbolos ao Serviço da Fé
Portanto, não precisamos de olhar para o coelho ou para o ovo com desconfiança. Eles não são “inimigos” da Páscoa, desde que não ocupem o lugar central que pertence a Jesus Cristo. Quando vemos um ovo de Páscoa, devemos lembrar-nos do sepulcro vazio; quando vemos um coelho, devemos recordar a missão de espalhar a alegria da fé a todos os que nos rodeiam.
Estes símbolos são pontes. Usemo-los para explicar aos mais novos e aos que estão longe da Igreja que a vida é mais forte do que a morte e que a alegria da Ressurreição inunda toda a criação.
