As perseguições aos cristãos: uma história de fé e resistência

As perseguições aos cristãos representam um capítulo profundo e doloroso da história da Igreja, marcado por séculos de martírio e sofrimento. Desde o início do cristianismo, os seguidores de Cristo foram alvo de perseguições, tanto por parte de governos e impérios, como pela sociedade em geral.

Resumo da História das Perseguições aos Cristãos

Os primeiros cristãos foram perseguidos tanto pelos judeus, cuja religião deu origem ao cristianismo, quanto pelos romanos, que controlavam muitos dos primeiros centros do cristianismo no Império Romano. Desde o surgimento dos Estados cristãos na Antiguidade Tardia, os cristãos também foram perseguidos por outros cristãos devido a diferenças na doutrina que foram declaradas heréticas.

No início do quarto século, as perseguições oficiais do império foram encerradas pelo Édito de Tolerância de Galério em 311 e a prática do cristianismo foi legalizada pelo Édito de Milão em 312. Até o ano 380, os cristãos começaram a perseguir-se mutuamente. Os cismas da antiguidade tardia e da Idade Média – incluindo o Grande Cisma e as muitas controvérsias cristológicas – juntamente com a posterior Reforma Protestante provocaram conflitos severos entre denominações cristãs. Durante esses conflitos, membros das várias denominações frequentemente perseguiram-se e envolveram-se em violência sectária. No século XX, as populações cristãs foram perseguidas, às vezes até o ponto de genocídio, por vários Estados, incluindo o Império Otomano e o Estado sucessor, que cometeram os massacres hamidianos, o genocídio arménio, o genocídio assírio e o genocídio grego, e por Estados ateus como os do antigo bloco oriental.

A perseguição aos cristãos tem continuado a ocorrer durante o século XXI. O cristianismo é a maior religião mundial e os seus seguidores vivem em todo o mundo. Aproximadamente 10% dos cristãos do mundo são membros de grupos minoritários que vivem em Estados não maioritariamente cristãos. A perseguição contemporânea aos cristãos inclui a perseguição oficial do estado, que ocorre principalmente em países localizados na África e Ásia devido à presença de religião estatal ou porque os governos e sociedades praticam o favoritismo religioso. Esse favoritismo é frequentemente acompanhado de discriminação religiosa e perseguição religiosa.

De acordo com a Lista Mundial da Perseguição de 2024 da organização Portas Abertas, que monitora e relata as condições enfrentadas por cristãos em diferentes regiões, os países onde os cristãos enfrentam perseguição extrema incluem Afeganistão, Arábia Saudita, Somália, Líbia, Eritreia, Iêmen, Nigéria, Paquistão, Sudão, Irã, Coreia do Norte, Índia e Síria. Os cristãos também sofrem com algum tipo de hostilidade ou são perseguidos em países como Mianmar, Laos, Argélia, Mali, Mauritânia, Israel, Iraque, Maldivas e Bangladexe. Grande parte da perseguição aos cristãos nos tempos recentes é perpetrada por atores não estatais, incluindo os grupos islamistas Boko Haram na Nigéria, o movimento houthis no Iêmen, o Estado Islâmico de Coraçone no Paquistão, o Al-Shabaab na Somália, os Talibã no Afeganistão, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante e também o Exército Unido do Estado Wa e participantes no Conflito Kachin em Mianmar.

Perseguições na Idade Antiga

O Novo Testamento informa que os cristãos primitivos sofreram perseguição nas mãos das lideranças judaicas da altura, começando pelo próprio Jesus. Os primeiros cristãos nasceram e desenvolveram-se sob o judaísmo, na medida em que o cristianismo começou como um ramo do judaísmo. As primeiras perseguições judaicas aos cristãos devem ser entendidas, então, como um conflito sectário – judeus perseguindo judeus por causa da heterodoxia.

De acordo com os textos do Novo Testamento, a perseguição aos seguidores de Jesus continuou após a Sua morte. O primeiro mártir do cristianismo foi Estêvão (Atos 7). Os apóstolos Pedro e João foram presos por lideranças judaicas, incluindo o sumo-sacerdote Anás, que os libertou mais tarde (Atos 4:1–21). Numa outra ocasião, todos os apóstolos foram presos pelo sumo-sacerdote e outros saduceus, mas, segundo o relato neotestamentário, teriam sido libertados por um anjo (Atos 5:17–18). Após escaparem, os apóstolos foram novamente capturados pelo Sinédrio, mas, desta vez, Gamaliel – um fariseu bem conhecido da literatura rabínica – convenceu o conselho a libertá-los.

Perseguição sob o Império Romano

Perseguição sob Nero, 54-68
O primeiro caso documentado de perseguição aos cristãos pelo Império Romano direciona-se a Nero. Em 64, houve o grande incêndio em Roma, destruindo grandes partes da cidade e devastando economicamente a população. Nero, cuja sanidade já há muito tempo tinha sido posta em causa, era o suspeito de ter intencionalmente ateado o fogo. Em seus Anais, Tácito afirma que: “Para se ver livre do boato, Nero prendeu os culpados e infligiu as mais requintadas torturas numa classe odiada pelas suas abominações, chamada cristãos pelo populacho”.

Ao associar os cristãos ao terrível incêndio, Nero aumentou ainda mais a suspeita pública já existente e, pode-se dizer, exacerbou as hostilidades contra eles por todo o Império Romano. As formas de execução utilizadas pelos romanos incluíam crucificação e lançamento de cristãos para serem devorados por leões e outras feras selvagens.

Perseguições nos Primeiros Séculos
Nos meados do século II, não era difícil encontrar grupos tentando apedrejar os cristãos, incentivados, muitas vezes, por religiões rivais. A perseguição em Lyon foi precedida por uma turba violenta que pilhava e apedrejava casas cristãs. Luciano de Samósata fala de um elaborado e bem-sucedido embuste perpetrado por um suposto profeta de Esculápio, no Ponto, fazendo uso de uma cobra domesticada. Quando os rumores estavam por desmascarar a sua fraude, o espirituoso ensaísta informa, sarcasticamente: “…ele promulgou um edito com o objetivo de assusta-los, dizendo que o Ponto estava cheio de ateus e cristãos que tinham a audácia de pronunciar os mais vis perjúrios sobre ele; a estes, ele os expulsaria com pedras, se quisessem ter seu deus gracioso”.

As perseguições estatais seguintes foram inconstantes até o século III, apesar do Apologeticum de Tertuliano (197) ter sido escrito ostensivamente em defesa de cristãos perseguidos e dirigido aos governantes romanos. A primeira perseguição que envolveu todo o território imperial aconteceu sob o governo de Maximino Trácio, apesar do fato de que apenas o clero tenha sido visado. Foi somente sob Décio, em meados do segundo século, que a perseguição generalizada – tanto ao clero quanto aos leigos – ocupou toda a extensão do Império. Gregório de Tours trata deste tema na História dos Francos, escrita no final do século VI: “Sob o imperador Décio, muitas perseguições se levantaram contra o nome de Cristo, e houve tamanha carnificina de fiéis que eles não podiam ser contados. Bábilas de Antioquia, com seus três filhos pequenos, Urbano, Prilidan e Epolon, e Sisto, bispo de Roma, Lourenço de Huesca, um arquidiácono, e Hipólito de Roma tornaram-se perfeitos pelo martírio porque confessaram o nome do Senhor”.

Sob Diocleciano
O clímax da perseguição deu-se sob o governo de Diocleciano e Galério, no final do século II e início do século IV. Esta é considerada a maior de todas as perseguições. Iniciando com uma série de quatro editos proibindo certas práticas cristãs e uma ordem de prisão do clero, a perseguição intensificou-se até que se ordenasse a todos os cristãos do império que se sacrificassem aos deuses imperiais, sob a pena de execução, caso se recusassem. No entanto, apesar do zelo com que Diocleciano perseguiu os cristãos na parte oriental do Império, seus co-imperadores do lado ocidental não seguiram estritamente os éditos, o que explica que cristãos da Gália, da Hispânia e da Britânia praticamente não tenham sido molestados.

Últimas perseguições e legalização
No início do quarto século, em 310, o imperador Geta mandou perseguir os cristãos, torturá-los e puni-los com morte. A perseguição continuou até que Constantino I chegasse ao poder e, em 313, legalizasse a religião cristã através do Édito de Milão, iniciando-se a Paz na Igreja. Entretanto, foi somente com Teodósio I, no final do século quarto, que o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império.

Perseguição na Idade Contemporânea

No século XXI, a perseguição aos cristãos tem crescido a tal ponto que em 2016 morria em média 1 cristão a cada 6 minutos no mundo. Em países como Síria, desde o inverno árabe, cidades inteiras de cristãos são aniquiladas, ora por grupos seculares, ora por fundamentalistas islâmicos, em atentados com cada vez mais envergadura, e em consequência disso os cristãos da região têm-se militarizado por conta própria.

De acordo com um relatório da organização internacional de caridade católica Aid to the Church in Need, a limpeza étnica religiosa dos cristãos é tão grave que eles devem desaparecer completamente de partes do Oriente Médio dentro de uma década. De acordo com uma lista da Open Doors USA (Portas abertas), nove dos dez principais países onde ocorreu perseguição de cristãos em 2014 são nações maioritariamente muçulmanas, que incluem Somália, Síria, Iraque, Afeganistão, Arábia Saudita, Maldivas, Paquistão, Irã e Iémen.

Anticristianismo hoje

O anticristianismo, sentimento anti-cristão ou cristofobia, constitui o medo, aversão, ódio ou o preconceito contra os cristãos, a religião cristã e/ou as suas práticas. O sentimento anti-cristão é por vezes designado por cristofobia ou cristianofobia, embora estes termos englobem, de facto, “todas as formas de discriminação e intolerância contra os cristãos”, segundo o Conselho das Conferências Episcopais Europeias. O sentimento anti-cristão conduz por vezes à perseguição aos cristãos.

Presentemente há muitos jovens em movimentos definidos como ateísmo, materialismo, ceticismo, racionalismo, niilismo, anticlericalismo ou anticristianismo. O desenvolvimento da ciência em disciplinas como a biologia, física, astronomia, entre outras, terá ajudado à expansão deste movimento. Richard Dawkins, biólogo ateu, autor de The God Delusion (“Deus, um Delírio”) e Stephen Hawking (1942 – 2018), físico agnóstico, aclamados divulgadores de ciência, defendem, em diferentes campos da ciência, que as leis que a regem não requerem a existência de Deus.

Motivações para a Perseguição aos Cristãos

As razões para a perseguição dos cristãos ao longo da história variam de contexto para contexto, mas incluem:

  • Motivações Políticas: Os cristãos eram vistos como uma ameaça ao poder estabelecido, especialmente em regimes totalitários ou impérios onde o culto ao Estado era central.
  • Motivações Religiosas: A oposição à mensagem cristã por parte de outras religiões, como o paganismo romano ou o islamismo em alguns países, levou a confrontos e repressões.
  • Motivações Culturais e Sociais: O cristianismo, com os seus valores morais e visão sobre o papel da religião, muitas vezes entrou em conflito com as culturas dominantes, levando a discriminação e marginalização.

O Impacto da Perseguição no Cristianismo

As perseguições tiveram um efeito paradoxal no cristianismo: em vez de o destruir, muitas vezes contribuíram para o seu crescimento e consolidação. Os mártires, aqueles que morreram pela fé, tornaram-se exemplos poderosos de dedicação a Cristo, inspirando gerações futuras de cristãos a manterem a fé mesmo nas circunstâncias mais difíceis.

Além disso, a perseguição forçou os cristãos a estruturar a sua teologia e identidade comunitária. Em resposta à opressão, a Igreja organizou-se melhor e fortaleceu a sua hierarquia, ajudando a preservar e a expandir a fé, mesmo em tempos de adversidade.

Conclusão

A história das perseguições aos cristãos é uma história de resistência e testemunho de fé. Desde os primeiros mártires no Império Romano até aos cristãos perseguidos em várias partes do mundo hoje, a Igreja tem enfrentado tempos de grande provação. No entanto, a perseverança dos cristãos em manter a fé, mesmo diante da perseguição, continua a ser uma força inspiradora que alimenta a continuidade e o crescimento da Igreja. As perseguições, ao longo da história, têm revelado a força espiritual que reside na fé cristã e no compromisso com o Evangelho.

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