Neste dia, em 2013, era exposta ao público a carta da Irmã Lúcia sobre o terceiro segredo de Fátima

Entre os muitos episódios que envolvem as aparições de Nossa Senhora de Fátima, ocorridas em 1917, nenhum gerou tanta curiosidade e debate como o chamado Terceiro Segredo de Fátima. Este segredo foi redigido pela Irmã Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado — a última vidente sobrevivente — numa carta escrita em 3 de janeiro de 1944, no convento das Irmãs Carmelitas de Santa Teresa, em Tuy, Espanha. A carta, cuidadosamente selada, seria entregue à Santa Sé e guardada em sigilo durante mais de meio século, tornando-se um dos documentos mais enigmáticos da história contemporânea da Igreja, sendo exposta ao público apenas uma vez.

A redação da carta e o contexto histórico

A Irmã Lúcia recebeu, segundo o seu testemunho, três partes da mensagem de Nossa Senhora em 13 de julho de 1917, durante a terceira aparição em Fátima. As duas primeiras partes foram divulgadas em 1941, por ordem do bispo de Leiria-Fátima, D. José Alves Correia da Silva. A terceira, porém, permaneceu secreta até ordem expressa do Papa.

Durante anos, a vidente resistiu a escrever a terceira parte, sentindo que tal decisão dependia de permissão divina. Apenas em 3 de janeiro de 1944, após uma visão interior de Nossa Senhora, Lúcia finalmente redigiu o texto. Colocou-o num envelope lacrado e escreveu por fora que não deveria ser aberto antes de 1960, “porque então seria mais claro”.

A carta foi entregue a D. José Alves Correia da Silva, bispo de Leiria, que a manteve guardada na cúria diocesana até 1957, ano em que, a pedido do Santo Ofício, foi enviada ao Vaticano, tendo dado entrada no Arquivo Secreto da Congregação para a Doutrina da Fé a 14 de Abril de 1957.

Os Papas e o documento

Embora Lúcia tenha escrito por fora do envelope que o mesmo não deveria ser aberto antes de 1960, a 17 de agosto de 1959, o Papa João XXIII solicitou o documento, lê-o, mas decide não revelar o seu teor.  
 
A 27 de março de 1965, o Papa Paulo VI lê o documento, e, do mesmo modo que o seu antecessor, decide que o conteúdo do mesmo não seja revelado. 
 
Em 1981, uns meses após o atentado de que fora alvo em Roma, o Papa João Paulo II lê o documento mas, da mesma forma que os seus antecessores, também decido não decide revelar o seu conteúdo, reenviando-o para o Arquivo Secreto da Congregação para a Doutrina da Fé.

dezanove anos depois, ainda no pontificado de João Paulo II, é que o conteúdo do documento é revelado ao público.

A revelação do conteúdo

Após décadas de especulação e interpretações, o Papa João Paulo II determinou a divulgação pública do Terceiro Segredo. O seu conteúdo foi revelado pelo cardeal Angelo Sodano em Fátima a 13 de Maio de 2000, na cerimónia de beatificação de Francisco e Jacinta, com o texto a ser oficialmente divulgado pelo cardeal Joseph Ratzinger, em Roma, a 26 de junho de 2000, com a sua respetiva publicação.

O conteúdo, apresentado como uma visão simbólica, descreve um “bispo vestido de branco” que sobe uma montanha íngreme, atravessando uma cidade em ruínas, orando pelos mortos e sendo morto junto com outros bispos, padres, religiosos e fiéis por um grupo de soldados.

A interpretação oficial, dada pelo Vaticano, ligava a visão ao sofrimento da Igreja no século XX, especialmente à perseguição religiosa e ao atentado contra João Paulo II, em 13 de maio de 1981, precisamente no aniversário das aparições.

O conteúdo integral

Segundo o texto manuscrito da Irmã Lúcia, o Terceiro Segredo dizia:

Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um Anjo com uma espada de fogo na mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que pareciam incendiar o mundo; mas apagavam-se ao contacto do esplendor que Nossa Senhora irradiava da sua mão direita em direção a ele.

O Anjo, apontando com a mão direita para a terra, disse em alta voz: ‘Penitência, Penitência, Penitência!’

E vimos numa luz imensa que é Deus: ‘algo semelhante a como se veem as pessoas num espelho quando passam diante dele’ — um Bispo vestido de branco, que tivemos o pressentimento de ser o Santo Padre.

Vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subiam uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos, como se fosse de sobreiro com a casca.

Antes de lá chegar, o Santo Padre atravessou uma grande cidade meio em ruínas e, tremendo e vacilante com andar vacilante, aflito de dor e de pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho;

Chegado ao cimo do monte, de joelhos aos pés da grande Cruz, foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam várias balas e setas, e do mesmo modo morreram uns atrás dos outros os Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas e várias pessoas seculares, homens e mulheres de várias classes e posições.

Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos, cada um com um regador de cristal na mão, neles recolhendo o sangue dos mártires e com ele regando as almas que se aproximavam de Deus
.”

A controvérsia e as interpretações alternativas

Apesar da revelação oficial, alguns grupos e estudiosos sustentam que nem todo o conteúdo teria sido divulgado. Teóricos afirmam que existiria uma segunda carta com palavras diretas de Nossa Senhora, anunciando uma apostasia ou crise na Igreja.

A Santa Sé, porém, sempre negou tal hipótese, reafirmando que o texto revelado em 2000 é integral e corresponde exatamente àquilo que a Irmã Lúcia escreveu em 1944. O Papa Bento XVI, em 2010, durante uma visita a Fátima, reconheceu que o Terceiro Segredo “ainda não se esgotou”, sublinhando que a sua mensagem é permanente: um apelo à conversão, à penitência e à fidelidade a Deus.

As saídas do Vaticano e a custódia

O documento original permaneceu quase ininterruptamente no Vaticano, saindo apenas três vezes:

  1. A primeira vez foi em 1981 quando o Papa João Paulo II, ainda internado no hospital devido ao atentado de que foi vítima a 13 de Maio de 1981, pediu o documento para ler.
  2. A segunda vez foi em 2000 quando o então secretário da Congregação da Doutrina da Fé encontrou-se com a Irmã Lúcia, em Coimbra, levando-lhe a carta e pedindo-lhe que confirmasse se era autêntica.
  3. Por fim, a última vez foi entre 30 de novembro de 2013 e 31 de outubro de 2014, quando foi exposta pela primeira e única vez ao público, no Santuário de Fátima.

Fora essas ocasiões, a carta permaneceu sempre guardada nos cofres da Congregação para a Doutrina da Fé, sob proteção estrita e em condições especiais de conservação.

A exposição pública de 2013-2014

A única exposição pública da carta original aconteceu entre os dias 30 de novembro de 2013 e 31 de outubro de 2014, no Santuário de Fátima, como parte da exposição temporária “Segredo e Revelação”. A carta foi exibida num ambiente de segurança e conservação controlada, permitindo aos peregrinos ver o manuscrito pela primeira vez.

A importância espiritual

Mais do que uma profecia sobre acontecimentos históricos, o Terceiro Segredo de Fátima é uma mensagem espiritual profunda. Recorda à humanidade o poder da oração, da penitência e da confiança no Imaculado Coração de Maria.

A carta da Irmã Lúcia tornou-se, assim, um símbolo de fé e obediência, lembrando que, mesmo diante dos sofrimentos e das perseguições, o triunfo final pertence a Deus.

Conclusão

A carta de 3 de janeiro de 1944, escrita por uma humilde carmelita portuguesa, percorreu um longo caminho até se tornar conhecida do mundo em 26 de junho de 2000. Guardada com reverência, envolta em mistério e, mais tarde, exposta publicamente apenas uma vez, é hoje um dos documentos mais preciosos da espiritualidade contemporânea.

O Terceiro Segredo de Fátima continua a desafiar e a inspirar os fiéis, convidando cada geração a escutar o mesmo apelo que ecoou em 1917 na Cova da Iria: “Rezai, fazei penitência e convertei-vos”.

Partilha esta publicação:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *