Em novembro de 2019, o Papa Francisco realizou um dos gestos mais simbólicos e emocionantes do seu pontificado: a devolução a Belém de uma relíquia associada à manjedoura onde Jesus nasceu. O fragmento, conservado durante séculos em Roma, regressou à Terra Santa como sinal de comunhão, paz e amor entre os cristãos.
Este ato não foi apenas uma transferência material, mas um profundo gesto espiritual, que uniu a história da fé cristã desde os primórdios até aos nossos dias.
As origens da relíquia da manjedoura
A tradição cristã atribui à manjedoura de Belém um valor sagrado, pois foi nela que, segundo o Evangelho de São Lucas (2,7), Maria colocou o Menino Jesus envolto em panos. Desde os primeiros séculos, os cristãos veneravam o local do nascimento de Cristo, na gruta de Belém, sobre o qual o imperador Constantino e a sua mãe, Santa Helena, mandaram construir a Basílica da Natividade, no século IV.
Durante as invasões e conflitos que marcaram a Terra Santa, várias relíquias foram levadas para Roma e outras cidades cristãs para serem preservadas. Entre elas, um fragmento de madeira considerado parte da manjedoura original, que, segundo a tradição, foi enviado a Roma por São Sofrónio, Patriarca de Jerusalém, no século VII.
A relíquia foi confiada ao cuidado do Papa Teodoro I, de origem palestiniana, e colocada na Basílica de Santa Maria Maior, onde permaneceu por mais de treze séculos, guardada numa capela especialmente dedicada ao presépio — a Capela da Cripta da Natividade.
Séculos de veneração em Roma
Em Roma, a relíquia da manjedoura foi durante séculos símbolo da proximidade entre o Natal e o coração da Igreja. Milhares de peregrinos visitavam a basílica para venerar as pequenas tábuas de madeira — conhecidas como o Sacrum Cuniculi Praesepe —, que se tornaram um dos tesouros mais preciosos da cristandade.
Os Papas celebravam ali a Missa do Galo, e era costume que os fiéis recordassem, diante daquela madeira humilde, a encarnação de Deus em Jesus Cristo, nascido pobre entre os pobres.
A decisão do Papa Francisco
Em 2019, por ocasião do Advento, o Papa Francisco decidiu devolver um fragmento da relíquia à Terra Santa, como gesto de comunhão e fraternidade. O pedido partiu do Patriarca Latino de Jerusalém e da Custódia Franciscana da Terra Santa, que há séculos cuidam dos lugares santos e promovem a convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos.
O Papa acolheu o pedido e, através do Dicastério para as Igrejas Orientais, determinou que uma parte da relíquia fosse entregue à Custódia da Terra Santa.
No dia 22 de novembro de 2019, a relíquia foi retirada da Basílica de Santa Maria Maior e confiada ao Patriarca Pierbattista Pizzaballa, então administrador apostólico do Patriarcado Latino de Jerusalém.
O regresso a Belém
A relíquia chegou a Belém no dia 29 de novembro de 2019, véspera do início do Advento, sendo recebida com alegria, cânticos e procissões. A cerimónia contou com a presença de autoridades religiosas, civis e fiéis de diversas confissões cristãs.
No dia seguinte, a relíquia foi levada em procissão até à Igreja de Santa Catarina, adjacente à Basílica da Natividade, em Belém, o mesmo lugar onde nasceu Jesus, onde ficou exposta permanentemente.
A sua presença aí é vista como um símbolo da unidade entre a Igreja Mãe de Roma e a Igreja da Terra Santa.
O significado espiritual da devolução
O gesto do Papa Francisco tem uma profunda dimensão espiritual e pastoral. Num tempo marcado por divisões e tensões no Médio Oriente, a devolução da relíquia representou um apelo à paz, à reconciliação e à fraternidade universal.
O Papa quis que o símbolo do nascimento de Cristo voltasse ao lugar onde tudo começou, recordando ao mundo que o cristianismo nasceu da humildade, da simplicidade e do amor divino manifestado numa gruta pobre.
Além disso, o gesto reforçou a importância da Custódia Franciscana da Terra Santa, instituída no século XIV, que desde então protege e mantém viva a presença cristã nos Lugares Santos.
Curiosidades e simbolismo
- A relíquia consiste num pequeno fragmento de madeira de oliveira, guardado num relicário de cristal e prata, doado à Terra Santa com a inscrição latina: “Ex praesepio Domini” (“Da manjedoura do Senhor”).
- A Basílica de Santa Maria Maior continua a guardar as tábuas originais que permaneceram em Roma, na cripta sob o altar principal.
- A devolução coincidiu com o 800.º aniversário da peregrinação de São Francisco de Assis à Terra Santa (1219), um detalhe cheio de significado franciscano.
- Muitos viram no gesto do Papa Francisco uma “viagem simbólica de regresso” de Jesus à sua terra natal — um reencontro espiritual entre o Ocidente e o Oriente cristão.
Conclusão
A devolução da relíquia da manjedoura a Belém foi mais do que um simples ato histórico: foi um gesto de amor e fé, que recorda a todos os cristãos o mistério da Encarnação e o valor da humildade.
Ao enviar parte desta relíquia à Terra Santa, o Papa Francisco reafirmou a missão universal da Igreja e o compromisso com a paz e a fraternidade entre os povos.
Tal como os pastores que se aproximaram da gruta de Belém há mais de dois mil anos, também hoje somos convidados a aproximar-nos, em espírito, dessa madeira santa que testemunhou o nascimento de Deus feito homem — um Deus que escolheu nascer pobre, para nos enriquecer com o seu amor.
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