O Dia Internacional para a Abolição da Escravatura, comemorado anualmente a 2 de dezembro, marca a data da aprovação pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1949, da Convenção para a Repressão do Tráfico de Pessoas e da Exploração da Prostituição de Outrem. Mais do que uma efeméride histórica, esta data serve como um lembrete sombrio de que, apesar dos progressos, a escravatura não é um fenómeno do passado.
Hoje, a escravatura moderna assume muitas formas, incluindo o trabalho forçado, o tráfico humano, a servidão por dívida, o casamento forçado e a exploração sexual. Milhões de pessoas em todo o mundo continuam a viver em condições de escravidão, vítimas da pobreza, da desigualdade e da ganância. A luta pela dignidade humana e pela liberdade permanece, por isso, uma prioridade global, tal como foi uma prioridade para muitos indivíduos e instituições ao longo da história, incluindo a Igreja Católica.
A Igreja e a Luta contra a Escravidão
A posição da Igreja Católica em relação à escravidão evoluiu significativamente ao longo dos séculos. Embora, infelizmente, tenha havido períodos de complacência ou mesmo apoio a formas de servidão, a doutrina social da Igreja e a ação de muitos dos seus membros foram cruciais na luta pela abolição. Vários Papas emitiram bulas e encíclicas condenando a escravatura de povos indígenas, e inúmeros santos dedicaram as suas vidas a libertar, proteger e reabilitar escravos.
Aqui estão quatro santos que se destacaram na luta contra a escravidão:
São Pedro Claver (1580-1654)
Conhecido como o “apóstolo dos negros”, São Pedro Claver é talvez o santo mais emblemático na luta contra a escravidão nas Américas. Jesuíta espanhol, passou a maior parte da sua vida em Cartagena das Índias, na atual Colômbia, um dos principais portos de chegada de navios negreiros durante a era colonial espanhola.
Claver dedicou-se incansavelmente ao serviço dos escravos africanos recém-chegados. Ele ia ao porto assim que os navios aportavam, oferecendo cuidados médicos, comida, água e, crucialmente, catequese e conforto espiritual. Estima-se que tenha batizado mais de 300.000 escravos e defendido os seus direitos inequivocamente, opondo-se aos tratamentos cruéis e desumanos a que eram submetidos. A sua ação foi um testemunho poderoso contra a desumanização sistémica da escravidão.
Santa Josefina Bakhita (c. 1869-1947)
A história de Santa Josefina Bakhita é um testemunho comovente da superação da escravidão. Nascida no Sudão, foi raptada e vendida como escrava em criança. Depois de anos de sofrimento inimaginável e de ser vendida múltiplas vezes, foi finalmente comprada por um cônsul italiano, que a levou para Itália.
Lá, Bakhita descobriu a fé católica e, com a ajuda de um tribunal italiano que declarou a escravidão ilegal no país, conquistou a sua liberdade. Ela entrou para a congregação das Irmãs Canossianas, onde serviu como freira durante 50 anos. A sua vida, de escrava a santa, é um símbolo universal da dignidade humana e da redenção. O Papa Francisco referiu-se a ela como um símbolo da luta contra o tráfico de pessoas.
São Vicente de Paulo (1581-1666)
Embora não tenha trabalhado diretamente nas colónias, São Vicente de Paulo teve um papel crucial no resgate de escravos no Norte de África. Fundador da Congregação da Missão (Lazaristas) e, com Santa Luísa de Marillac, das Filhas da Caridade, Vicente de Paulo arrecadou fundos significativos e enviou missionários para resgatar cristãos que tinham sido capturados por piratas e mantidos como escravos em Túnis e Argel.
Ele próprio viveu brevemente como escravo após ser capturado. A sua obra de caridade estendeu-se a todas as formas de pobreza e marginalização, e o seu empenho no resgate de cativos (uma das obras de misericórdia) foi um marco da caridade cristã organizada contra a escravidão da época.
Santa Catarina Drexel (1858-1955)
Norte-americana e herdeira de uma vasta fortuna bancária, Santa Catarina Drexel dedicou a sua vida e riqueza a combater a injustiça racial e a promover a educação dos povos indígenas e afro-americanos nos Estados Unidos. Fundou a Congregação das Irmãs do Santíssimo Sacramento para os Índios e Negros.
Embora a escravidão já tivesse sido abolida legalmente nos EUA, a discriminação sistémica e a segregação racial (apartheid informal) mantinham estes grupos numa situação de opressão semelhante à servidão. Drexel usou a sua influência e dinheiro para fundar escolas e universidades, incluindo a Xavier University of Louisiana, a única universidade historicamente negra católica nos EUA, lutando incansavelmente pela dignidade e igualdade dos mais marginalizados.
A Missão Continua
O Dia Internacional para a Abolição da Escravatura recorda-nos que a liberdade é um direito inalienável e que a exploração humana deve ser combatida em todas as suas manifestações. Os exemplos de São Pedro Claver, Santa Josefina Bakhita, São Vicente de Paulo e Santa Catarina Drexel inspiram a ação e mostram que a fé, quando vivida com radicalidade, é uma força poderosa para a libertação e a dignidade humana.
